quarta-feira, 29 de agosto de 2007

um salva-vidas
ou
centímetros de carne amassada
reaproveitadas pelos mendigos
famintos
(apesar do isopor que me salva um pouco da miséria, não tem nada que comprove que não exista uma razão, que seja na cadeia alimentar, que me liberte da dor)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

sinuoso
o caminho
(a trilha sem fim)
tateio as curvas
entorno o corpo
no bambuzal
quebro-não-quebro
até envergar o tronco
e a pele
se camuflar
na mata escura

grito surdo

ponte para o nada/mergulho profundo
(vácuo tem som?)
não sonho mais nada
não aceito curativos
as asas dos passarinhos
fazem um barulho insuportável

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

um lugar no mundo

minha mãe não iria gostar (mas ela não estará aqui pra ver)
e se ela não está aqui, também não está em lugar nenhum
e se ela está em lugar nenhum eu estou no topo do lugar nenhum
ou no fundo do lugar nenhum
encontrei um lugar:
no fundo do lugar nenhum

covarde suicida

uma ponte um rio
um corpo lá embaixo
(me reconheço na minha própria morte?)
me jogo eu mesma
ou deixaria me jogar?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

distâncias

uma palavra que não me abandone
o mundo e suas falas
retardam a minha memória
eu não me lembro de ter ouvido
eu estive muito distante
eu não alcanço
as minhas próprias palavras

terça-feira, 21 de agosto de 2007

tristeza surda

uma nuvem
fecha o tempo rapidamente
e dá uma desculpa qualquer
"é uma chuva passageira"
diz ela em sua meteorologia
as extremidades dos raios
batem nas minhas orelhas

de ontem para trás

o sol não queima a testa daquele que me vê
pois ele acha que pela minha cara limpa eu não tenho
cicatriz
não sabe ainda que a minha capa branca esconde
um esconde-esconde

sim, eu morri
eu pulei de todas as pontes
e bati em todos os postes que meu carro encontrou
sequei
morri tanto que se sobrou uma folha seca na paisagem
não é minha e nem daquele que me vê

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

nada não

É um sacrilégio fazer qualquer coisa.
Um dedo mindinho sofre em suas unhas brancas coloridas por fora.
É chato. Canhestro. Sem charme. Sem nada.

Para começar

Não tem exatamente nada de mais. É só um rio.
Um desafogamento. Sem proteção. Por ora.
É oca a paisagem.
Até que flui naturalmente. Mas quando
aterrisa a água toda lá no fundo. A cachoeira!
Esvazia todo dentro. Aspira a imensidão.
Rarefaz até o sangue.