sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

que me salvasse da minha própria morte. eu sou a denúncia do meu próprio fracasso. a cicatriz não suturada, a música póstuma, a mentira pública. esqueçam-me. nada me resta. dei o último mergulho. e ele só foi bom enquanto senti o ímpeto. e agora vem a tempestade. com pedras restos de árvores pontiagudas. estou toda machucada.
é o restante de mim que está aqui.
quero ficar só. sentir o sol na minha pele morna. os sentidos serão. os diques, agora abertos, sobram águas sem escape. sem alívios. o meu mundo é um zepelim. não interrompa minha vertigem. lúcias, marias, olívias, eu flutuo no meu próprio mar, obrigada, isso me faz bem.

acordar. e estar só. equivale a um enterro. mas a noite sempre renasce o espírito. e como dói. não tenho lágrimas. músculos, um corpo que dói a cada passo, sem alívio. sim, eu gostaria de um abraço infinito.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

eu sei o que se passa no seu coração.
ele não é novo, assim como o meu. e todos, digo, todas as pessoas, devem ter coração bom. afinal, todos são dotados de alguma essência. mesmo que um vestígio dela, há, ali, alguma coragem em amar.
amar. é certamente um delírio. deveras mundano. um delírio lotérico.
Foi um sonho.
Eles deliram a gente. Demolem prédios, conduzem esquinas, torpores.
O sonho. Foi ele que me tropeçou. Ou me atropelou.
Porque o inconsciente não erra. Sonhar que se morre é também uma morte. Mesmo que se negue. Mas o sonho, este, não dava (para negar).
Absoluto, ele me disse: o seu prédio; você precisa demoli-lo.
E cá estou com as ruínas demolidas. E não devo tentar remontá-las.
Seria um delírio encaixá-las. Gastaria, com isso, baldes de colas, de rejuntes quetais.
E não seria estético, porque isso também impera. Então o que fazer? Dou um gole de vinho e respiro.
Não há o que fazer com pedaços (não quero jogar em ninguém, nem atirar nem devolver nem doar). Posso continuar quebrando, quebrando, diminuindo sua circunferência, implodindo ainda mais em pedacinhos que vão se tornar pó. Posso juntá-los em categorias (virginiana, que tal?) dar ordem e etiquetá-los com nomes ora objetivos, ora poéticos. Este pode ser um bom jeito. Ou limpar, varrer, assoprar, guardar aquela pedrinha, uma que represente o todo; lembrança do que ora fui. E isto não tem a ver com nada nem ninguém que me possa ler. Estas são as minhas paredes que eu mesma demoli. Algo de bom, cá vislumbro. Algum raio de sol, por entre a poeira. Como no final de uma guerra, quando entre mortos e feridos amanhece o dia e as equipes com suas cruzes vermelhas conseguem ver o tamanho dos estragos e suturar as feridas, carregar corpos e abraçar com um sentimento indizível de afeto, aqueles que sobraram. Os iluminados, vivos, que lambem seu sangue e exaltam a vida para além de qualquer entendimento.
No ínfimo grau da minha solidão, eu assino este texto.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

as rochas sofrem o desgaste com a passagem do rio. não que se tornem melhores - sim, isto visto aos olhos, mas não aos delas. elas se adaptam mas necessitam lembrar a sua natureza. a sua essência é rocha, pedra dura e indissolúvel. mesmo torta mesmo gauche com cores que não combinam. porque todos querem ver uma rocha lapidada, esta sim é admirável ao olhos do mundo! como assim somos...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

é o desejo. o cume da minha montanha. a vastidão debaixo da minha fronte, espera, a descida. desço nunca. eu quero ficar no desejo, seja solitária. seja nunca. o estupor, perene, encharca meu magma.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

é na vida breve o torpor - sim, me encorajo a viver do meu coração
invado a vida as condições adversas não me reprimem
elas são pedras pequenas às vezes grandes eu já empurrei todo o mito de sísifo para lá
quero o mundo sem timidez

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

é o amor um defeito extrapolado

domingo, 18 de outubro de 2009

é simples estar sem intenções. a vida é silêncio. a ordem se dá nos barulhos das casas, os talheres, os latidos, as crianças. felicidade não se nota.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

eu não voltei para casa
estive soturna
latas, meios, garrafas vazias - o vinho, ele sempre explode vertigens
as fuligens são poeiras brilhantes
e o asfalto detém toda a minha loucura

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

são as luzinhas, elas sempre me distraem. sim, na rua, quando há. sou inexata e tudo o que me resta está sóbrio e frio. a lua guarda seus segredos e esfria o porvir. uma derrota a demolição de um sonho, sonha livre, se assim fosse. o astor rói seu osso e assegura sua existência. eu me encolho no meu casco para ver os meus estragos.
eu não tenho lágrimas. Meus porões secaram. A luta, o trânsito, as batalhas cessaram. Um minuto a mais e talvez bata um novo vento e uma vertigem possa retirar algo de amargo no presente, algo de não-suturado da minha pele. Não espero por nada. A reclusão é o meu delírio e a rua minha companheira de viagem.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

é um adeus, meu bem
eu não tenho necessidade - a barreira é sempre um fim - que se encerra em si e ama o ponto
final, é o que tudo tem

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

os sons não me chegam nem o abraço confortável dos meus amigos, uma nova forma de ver o mundo se descortina mas não consigo ver

a rotina opaca qualquer o mundinho do trabalho dessa falação desenfreada ninguém escuta nada o que deveria ser algum discurso de amor uma declaração de afeto desce pelo bueiro junto com a enxurrada da chuva e ainda se depara com sofás e telas de computador quebrados a ordem é o desperdício e neste estado fico mal acabada anulada pelo delírio insano de ganhar algum dinheiro que pague contas que não são tantas e não custam tão caro assim caro mesmo é o meu silêncio e o meu torpor
sem coragem de invadir as tristezas alheias, e muito menos as minhas próprias
é a covardia que me ataca, como uma gripe noturna uma febre invade incha minhas glândulas
é o medo, você precisa se animar, diz, todo mundo diz tudo e qualquer coisa; todo mundo quer tirar o suicida da ponte porque é o fracasso explícito da humanidade jorrado escarrado naquele corpo que parece uma pluma uma folha de árvore que flutua no ar em direção ao estilhaço final
mas o estilhaço os cacos de vidro às vezes já estão separados já estão em cantos do mundo que a covardia não nos deixa conhecer. é antigo o medo de espalhar-se quebrar a casca do ovo e invadir novos mundos uma força retroativa me deixa encostada na parede olhando o mundo um susto sempre me atinge e morro tantas vezes respiro

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

para minha mãe

é o seu cheirinho, a textura fina da sua pele, os seus olhos azuis:
meus sempre faróis que interpretam o mundo ainda amargo pela sua falta
é para eles que vou quando voo sem planejar, subo aos céus e vejo o azul de lá de cima
seu abraço envolve toda a minha vida é por ele que corro mesmo que volte no tempo
a minha memória guarda tantos deles (eu sabia que ia precisar)
o seu abraço é hoje comigo, é hoje que nasço e é ele - o seu abraço - que está comigo desde quando saí daí

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Queria ser de outro mundo. Tocar as estrelas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Talvez seja porque tenho sentido uma espécie de contentamento. Então por isso escrevo menos, talvez seja por isso. Muitos talvez e, para compensar a falta de assunto, revisitei um livro do Artaud, O Teatro e seu Duplo, e encontrei alguns grifos que valem a pena ser relidos. É um tipo de pensamento que me norteia, eu praticamente vivo e morro por isso:

"Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: a faculdade de reencontrá-las nos será tirada por algum tempo, mas não se suprimirá a energia delas. E é bom que desapareçam algumas facilidades exageradas e que certas formas caiam no esquecimento; assim, a cultura sem espaço nem tempo, e que nossa capacidade nervosa contém, ressurgirá com maior energia. E é justo que de tempos em tempos se produzam cataclismos que nos incitem a retornar à natureza, isto é, a reencontrar a vida".


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Eu não tenho exatidão. A minha matemática é montanhosa; forja os passos - os sobes e desces vertiginosos não me aborrecem mais. Fico até feliz quando choro, assim sinto algo que não a minha poluição ingênua. Liquefeita me torno e assim livro-me saio da ambiguidade e choro choro como um bebê que nasceu desavisado. Um berço onde durmo, berço montanhoso da minha consciência durmo acordo sem distinguir o sonho. Sou abduzida pelos gritos dos meus mares, embevecida pela cor a luz da água mergulho com os olhinhos revirados, mas sem dor.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

tristeza. infinita.
uma falta anterior a tudo que faço.
vertigem eterna de qualquer gesto. um triângulo escuro.
a memória, esta voraz perseguidora. eu esqueço. esqueço quem eu já fui. quem eu era? talvez haja alguma coisa que me lembre, uma cicatriz. quem eu sou.
foi outro dia uma amiga, uma amiga nova, digamos, me disse. a cicatriz. era para me lembrar de quem eu era. mas quem eu era?
não sei o que era. era feliz? talvez não fosse. eu já era, já fui feliz o tanto que angústia sem nome. isso sempre. (e não é todo mundo?)
O caderno. Ele é impublicável. O caderno tem tons e cores incomunicáveis. Não como os afetos, estes incomunicáveis. Os cadernos. Aqueles, escondidos e fechados no armário. Seja minha amiga, não quero mais ninguém porque o ar me falta para mim mesma. Eu sou insuficiente antes para mim. Não tenho cabimento em esquinas e muros, a minha circunferência é circunscrita. Não sobro mais para ninguém. A minha utilidade é inútil. Gostaria de cantar, de ter voz, algum talento aplaudido. Ou não aplaudido, mas perene. É o Astor, ele me entende. Fica ali deitado em cima do tapete colorido. Ele nem sabe, mas é um contraplano preto & branco, fica bonito pra burro. Ele não sabe e suspira fundo, suspira lá na alma, que nem eu. Inspira e às vezes fazemos o ritual juntos, que nem eu e meu anjo devemos ter alguma sintonia de vez em quando. O que será que meu anjo da guarda fica tentando me dizer? Eu fico curiosa. Eu quero. Eu quero tanto alguma coisa. Não tem espaço para mais querer outra coisa. Pois eu só tenho essa coisa de querer. Com uma coisa só. E essa coisa é escrever. Caramba. Eu preciso tanto disso. E minha cabeça dói. Eu sei que é um aviso, eu sei que é uma forma de me lembrarem disso. Os índios, os espíritos aqueles moicanos que trabalham na floresta. Eu não tenho luz. Sou guiada pela palavra. E ela resume tudo.

domingo, 23 de agosto de 2009

eu já estou
apenas devo esperar o mundo me contemplar - com suas decisões às vezes certas
estou pronta
apenas diga sim e eu mergulharei no delírio do novo

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

uma poesia do e. e. cummings (para ilustrar este dia que estou sem)

na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos
eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres
eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;
(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:
(de atélogos e,cinzas)

domingo, 16 de agosto de 2009

um toldo branco protege a sala. é demasiado longa a história. deveras intrincada para uma versão superficial. a luz branca e estourada não deixa a cena transcorrer. a flacidez ambiente, uma certa nostalgia ao extremo, ou melhor, um clima um tanto fúnebre ou talvez soturno mas sem charme, completamente sem charme. a estética faz parte da tristeza. pelo menos um pouco, por favor. mas voltando a descrição da cena, o mais importante são as pessoas, como sempre elas dão o curso e são o curso da história, mesmo que os objetos sejam cafonas e opacos se há um charme entre os diálogos e a conversa flui de maneira pouco sórdida, está tudo bem. e tenham paciência um texto sem parágrafos exige certa concentração. tentei abrir meu dickens com sua ironia a perspicácia, mas sempre volto às minhas palavras e algo dentro de mim deve ser grato a isso. eu tenho um problema constante que às vezes eu estou nos lugares mas também é como se não etivesse. e muitas vezes tenho vontade de soltar o ar do fundo dos pulmões que deixo retesado enquanto não me encontro enquanto as pessoas não me deixam à vontade com seus olhares castradores e sua pouca generosidade. a minha voz fica embargada e parece até que enrouqueço. não tenho mágoas, está tudo bem para mim. é o amor, ele preenche tudo.
Não existe uma densidade confortável. Há que ser prático, e útil. Passar o café e tomá-lo, ir até a feira e conversar com os vendedores. A vida não se dá em somente reclusão. O espírito necessita da aurora e suas veleidades. Algo mais insano porém competente da ordem das coisas da concretude, é absoluto. Um dia a mais o nascer do sol comprova o céu azul atesta: a vida correndo nas veias não é transparente.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

É uma noite escura, lugar onde nada tenho. Um papel vazio, o pensamento branco não preenche minhas lacunas. Sou eu, digo. Não escuto. Te respondo com calma e tênue. Um pensamento duas vertigens deslizo. Não objeto não discuto com nada sou um substantivo solto; te amaria se fosse. Sim, nas minhas coxas na taça compartilhada de vinho numa ambulância urgente e silenciosa com suas luzes reverberando céus e entranhas. Sou um brinquedinho fácil como uma massinha moldada para estar. Inacessível.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

um vento, uma noite

É um sentido pleno: eu gostaria de achar as palavras. É nelas que sempre me encontro, ou na música. Mas sempre no silêncio, na cadência do Astor roendo seu osso, no barulho da rua com seus carros que passam em massa quando o farol da João Moura abre. Na música instável do Beirut, com sua tristeza implícita e um tanto também de alegria, como somos todos. Eu não queria perder nunca ninguém, não queria que alguém passasse despercebido e nem que os amores fossem tão contemporâneos. A vida passa num ritmo de cavalgada e nós lá em cima só percebemos os movimentos dos músculos do nosso bicho e um balanço suave. Escreveria assim a noite inteira, num contínuo afã de mim mesma, como que drogada embebida potente e inacabada. Uma força um delírio uma súbita vontade de expressar tudo, isso eu tenho o dia inteiro mesmo que no trabalho mesmo que no horário no atraso na pressão eu quero eu tenho que conseguir descrever tudo isso como se eu fosse e não fosse ao mesmo tempo o que eu sou. Uma sorte de estar sóbria mas também poderia estar fora de mim como quase estou sempre com minha própria pele e desejos. E eu desejo desejo de um tanto tudo até virar uma árvore eu desejo. Sou inteira um próprio desejo.
Não tenho resto que não seja, quero abrir as janelas e ver o telhado molhado seco de árvores o cinza a poeira baixando. Tenho prazer imenso em levantar poeira. Uma aventura para mim. É uma surpresa esperar o que virá. O Astor dorme. Uma direção de onde vou.

sábado, 8 de agosto de 2009

devaneio infantil (para a sofia)

Eu achei que meu cachorro fosse um sapato. Nos meus sonhos debaixo da cama eu dormia debaixo da cama quando eu era criança ou então acordava virada de cabeça para baixo quando eu estava muito perturbada. Eu só tinha meu quarto, a minha cama era meu mundo e eu tomava leite quente com nescau antes de dormir. Era de noite e eu vi o Puff, o meu cachorro se chamava Puff e era um negócio preto com patinhas douradas. Fui até o canto da sala e acariciei os sapatos do meu pai. Nada melhor do que ser sonâmbula aos sete anos de idade. A vida era um tanto mais larga e tínhamos sempre algum bolo em cima da geladeira para comer antes ou depois ou mesmo como se fossem as refeições principais. Uma noite de calor acordei gritando com a cabeça dentro da bacia, dizendo: o macaco está na privada do banheiro! Um dia fomos assim divididos entre a imaginação e a realidade, éramos despretensiosos e ninguém ainda tinha morrido. E eu salvava passarinhos.


Este texto é para a Sofia, minha sobrinha linda que hoje completa 3 anos e me deu um dos abraços mais deliciosos da minha existência.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

voa

tem coisas que demoram para começar
outras que nunca
assim, ir, é sempre novo
é também mudar de rota

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

acorda, tristeza

Seja um remédio que me tire do entorpecimento. Um energético uma vitamina uma cápsula de vidro que esfacele toda a minha tristeza.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um outro. Dê-me outro nome. Estrague as minhas ventanas. Entorpeça-me. Ouço algo e não dou conta. É o silêncio, este abraço vazio.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

tempestade e ímpeto

Ele foi até a escada e refez o trajeto; andou até o piano, viu os retratos mexeu na cortina; revirou os livros para encontrar uma frase que explicasse que agora não tem mais. Quem era. É no amor que se consagra. É o gosto o cheiro a virtude. Nas poesias nos livros do Kundera nas frases do Caio Fernando nada; ele tira do bolso um guardanapo com um desenho que ela fez no bar há tanto. Ela era jovem. E ainda havia escrito "sturm und drang" um termo que explicava o sentimento do jovem Werther e agora era o seu, tempestade e ímpeto. Só que tudo mais vazio e cheio de névoas. O silêncio, este grande mártir. Prepara um uísque e a noite começa longa e improvável.

do tempo e seus silêncios

eu teria, sim eu teria
alguma insanidade
se eu tivesse tempo pra isso
é o tempo que aniquila
a falta de tempo aniquila eu queria
muito eu queria poder não precisar escolher
entre um milhão de tarefas pela necessidade eu queria
poder absorver ter tempo de absorver e ser um pouco mais livre
queria poder dar um tempo e numa volta com meus fantasmas resolver o que nunca consigo
chorar todas as perdas uma vez mais mais uma vez ser inteira nas minhas dores eu não tenho escolha
hora de acordar e meu corpo escapa pelas bordas do mundo
1, 2, 3 silêncios
se falar sobre
os conhecerei

quarta-feira, 22 de julho de 2009

algo que me salve do afogamento iminente, da tortura diária, da vertigem sem consolo e dos afetos enviesados -
que sobrelute nas ruínas perdidas do meu passado demolido - um vento que leve toda e qualquer poeira antiga a vertigem que sinto do começo ao fim do acordar ao dormir e enfim quando durmo esqueço mas ao acordar um incômodo me invade e nem me lembro dos meus sonhos que às vezes são bons mas eles, eles não me deixam dormir novamente e tenho espasmos enquanto na vigíla tento me lembrar qual era o nome que eu queria lembrar da onde vim onde nasci quem são meus pais como era o cheiro da minha mãe que sempre me fazia dormir como um anjo e ela, ela não está mais aqui respiro fundo para tentar lembrar uma vez mais a textura da comida que ela fazia que sempre estava boa ela punha tanto amor ali que eram garfadas que levavam a minha vida adiante e hoje em dia eu ouço músicas tristes e são elas que levam minha vida adiante que triste panorama eu já fui melhor e mesmo nesse mínimo nessa luta medíocre já se vão todas as minhas células esbaforidas e cheias de olheiras num esforço de sobrevivência que jamais cessa
sem palavras para digerir o mundo
tudo gira em torno de um buraco insondável - a busca incessante por aquilo que eleva o espírito
não há gente para isso, a gente toda está fazendo o esforcinho diário a lutinha diária o pão com manteiga frio e mole apazigua esses paladares

segunda-feira, 20 de julho de 2009

as minhas faltas me completam

domingo, 12 de julho de 2009

Uma vez mais me despeço. Digo adeus até logo para quem. Um dia de sol e céu azul, sou um pouco a mais de mim. Ouço apenas os pigarros na platéia. Afino os instrumentos, incomodo os ouvidos mais sãos. Desembaraço meus fios enquanto o café esfria.

sábado, 11 de julho de 2009

Impedida pelo tempo

É uma ligação algo que venha do nada: poderia ser uma mudança de rota uma vertigem ou mesmo a chuva, esta que limpa os telhados poluídos. Acendo o baseado ouço as vozes que intuem cada passo banal. Não tenho planos nem ambições grandiloquentes; a verdade é que nasci há pouco. A droga desce lenta pelo gargalo suponho que me tire do meu nada. Não tenho uma roda de amigos, sou uma ermitã, alguém pouco provável que vê o mundo pela janela. A chuva me impede de sair - sou uma manhã lenta e entorpecida. Ouço as garsas penso no improvável, na vida que não tive, em tudo o que não fui. Não faria uma reversão do tempo para tentar me tornar qualquer outra. Não sou um pedregulho a descer pela montanha lapidando as arestas com violência; aqui, cada tijolo foi desvelado. As minhas faltas os meus motivos todas as músicas que fizeram de mim podem ser tocadas a qualquer momento. Não choro mais pelo tempo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Não tem um detalhe vivo. As sombras são farelos antigos, não ouso soprar seu nome. Ele está inscrito embaixo da comida com validade vencida - ainda há uma sopa no congelador. Devo comer o alimento póstumo? Não ouso dizer seu nome. Está dentro das panelas, fervendo e as poucos virando pó, ou gás; algo intangível que não ouso dizer. Seu nome está inscrito; célula por célula.

terça-feira, 23 de junho de 2009

É um texto todo poético que fiz. Mas não escrevi. O tempo não deixou. Acendi o cigarro e olhei o branco texturizado da parede. As sombras que as luzes da cidade projetam nas paredes da minha casa são instalações. Fico imersa na quantidade de quadrados cinzas algo esfumaçados, alguns andam conforme o movimento da rua, outros ficam suspensos como uma nota de jazz. Ângulos inusitados: as cadeiras fazem pose. Tomo um trago, vejo as linhas se formando no espaço mas não distinguo as letras. As luzinhas, elas sempre me distraem.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

terra antiga

"Barcos não são mesmo feitos para ficar parados". É essa voz, uma voz que pouco conheço, mas já é quase antiga, que flutua sobre mim. É alguém que conheço; pouco conheço. Fico presa à margem - a vida - e não é presa o verbo certo, porque sim: todo dia escolho acordar. E não à toa. Na margem ouço o apito dos navios, meus mortos se foram e já quase não os deixei partir. E com os pés na terra, com a terra fico - e até quis seguir. Não fui porque ir é também me deixar partir. Logo aqui onde piso o chão me consola das fumaças que não avisto mais. Ouço as pessoas antigas, sábias e amigas; a terra quente abraça meus pés.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Não estou mais. Em lugar nenhum.

terça-feira, 16 de junho de 2009

É um colo. Um descanso ilustrado, delicado. Mãos aleatórias que cubram minha cabeça de calor. Com uma voz, um veludo que corra como um rio enquanto sonho.

domingo, 14 de junho de 2009

um domingo de outono

É a folha que desliza no ar, a sua maturidade brilha por 3 tempos. O sol bate enviasado põe a sombra em seu lugar. Os prédios são montanhas de gente. Os cachorros se cumprimentam ou rosnam, os donos sorriem e seguem adiante. Na padaria os senhores conversam com os balconistas sobre o jogo. Uma música triste toca comigo mas eu não estou triste. É para olhar o mundo bonito. É para me sentir uma folha.

sábado, 13 de junho de 2009

Dispensaria a paixão. É na perenidade que transito. Um dia a mais de suavidade e lembranças. O barulho me incomoda como se eu fosse um enfermo. Convalesço ainda. No silêncio me habita uma homenagem.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hoje eu estava lá. Uma britadeira abria meu âmago e as fronteiras da minha consciência desvaneciam. Não foi um instante ou dois. Foi uma sequência imposta de catatonias. As cores dos meus sonhos vulgarizaram todas, tudo se abriu em destaque de escola de samba. Foi a morfina, me disseram. Não me deliciei em nada. A lua minguava, crescia, se estabanava toda para aparecer. E nada me tirava dali. Da falta primordial. Do sonho esquecido. Sem estalos, choques ou sopetões. Era a espera definitiva. E até hoje espero, e vou esperar sempre. Em todos 11 de junho eu vou esperar. Que ela acorde, linda, e diga, obrigada, filha.

sábado, 30 de maio de 2009

# sem título

É um tanto improvável que eu volte a fazer algo. Que consiga escrever algumas linhas. O maior feito até hoje, do qual me orgulho, foi ter adotado um cão sem dono. Atropelado e maltrapilho, hoje em dia o Nestor é só alegria. Levo-o todos os dias na pracinha onde encontro meus únicos amigos, os cães e seus donos. Falamos sobretudo da educação dos filhotes. E, nesse quesito, talvez esteja o meu segundo maior feito até hoje, que é saber dar remédios para ele. Ninguém tem jeito como eu. Todos na pracinha ficam boquiabertos ao saber que não tenho tática especial para dar um comprimido a ele: simplesmente enfio na sua boca, lá no fundo da língua e quando ele nem imagina já engoliu o pedacinho que vai curá-lo das verminoses que pega por aí. Não é incrível? De resto considero-me alguém apagado e desprovido de charme, sem qualquer sedução implícita nos acontecimentos cotidianos. Não tenho nada para desvelar e não guardo uma caixa de bombons importados dentro do armário. Sou apenas melancólico e tímido. Tenho pastas e mais pastas de poesias nos meus armários, já cheios de papéis. Não admiro muito as pessoas, na verdade quase não olho para elas. Sou cabisbaixo demais para isso. Admiro as paisagens humanas somente. Quadros do dia a dia: os bares com suas mesas na calçada, as senhorinhas de bengala, os trabalhadores dentro dos ônibus. Mas os homens por si, os homens com suas rugas, fazendo contas mentalmente, pensando nos capítulos de suas vidas, para esses não olho deveras. O Nestor também não faz muita festa. Sim, ele abana o rabo quando chego e me acorda todo dia bem cedo, com sua felicidade matutina. Mas eu poderia ser qualquer outra pessoa. E talvez até outra pessoa mais alegre fosse melhor para o Nestor. De modo que ele é quem sabe. E assim até que escrevi algumas linhas. Mas se não fosse o cachorrinho, provável que nem assunto tivesse.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A espera longa. Um minuto prolongado. O tempo. Ele de novo.
Com a bagagem virada para o futuro próximo, a porta giratória flutua. Brilha guinadas. Fecho os olhos e ouço as luzinhas piscando.

domingo, 12 de abril de 2009

um segundo na história do tempo

Nada mudará essa história. É um ponto e vírgula para sempre tropeçar; e nada mudar. Se alguém movesse esse lugar trêmulo e claudicante, possivelmente todos morreriam duros de choque. Não consigo pensar senão daqui em diante, o resto são fagulhas passadas. São tormentas os vestígios do colégio, das férias na praia e das festinhas onde os meninos tiravam as meninas para dançar música lenta. É lento o domínio do tempo, e ele sempre anda a toque de enxurrada. A paralisia vez ou outra fica semanas a fio num assunto e a perda é sempre irremediável. Já se torna irremediável a vida. Melhor e mais urgente a vida se torna inadiável em cada fio de segundo. Este deve estar recheado e ter o peso histórico e único do presente.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

homenagem para a ruiva maluca ***

é tanto
lado a lado
uma vez mais e sou
outra
depois dela
nunca mais
sou a mesma


*** a redenção parte I

sábado, 4 de abril de 2009

num suspiro
o vento me leva
antigo

segunda-feira, 16 de março de 2009

é derradeira
a paisagem
noturna, solta suas asas no escuro
prateado o mar não se rebela
fluido, quase suspenso brilha suas estrelas
virgens as espumas atravessam navios

segunda-feira, 9 de março de 2009

estou sempre prestes e me dar cabo
a dar o último passo o brinde da passagem com o vinho-
-sangue
distribuo células vermelhas pelas rodovias
o abismo corta a paisagem
tonturas me pontuam
morro
sem conseguir morrer

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da verborragia súbita

Sim, eu perdi muitos amigos. É um alívio parar de lutar dentro de si para manter alguém vivo. Ouço uma canção simples e banal. Daquele tipo que meus amigos intelectuais abominariam. Mas eu não tenho mais amigos intelectuais, cults ou antenados. Eles estão todos em naufrágio, à deriva ou se tornando completamente medíocres. A minha situação não é de nada diferente. Talvez a única diferença seja que tenho um cachorro que suspira igualzinho a mim.
O fato de escrever poderia parecer uma vantagem, não levando em consideração os vermes que estão sempre a corroer minhas vísceras e me levando quase sempre a desfrutar um voo solo do décimo andar do prédio onde moro.
Para quem ficar, lembrem-se que sou medíocre, mesquinha e absolutamente mediana. Tudo o que fiz de bom foi apenas pensando no meu bem-estar e hoje em dia nem essa auto-gratificação me convence a fazer algo bom. Em silêncio, nos fins de semana ou na rotina do trabalho, casa-trabalho-hospital, não, essa parte já passou, ficou impregnada em mim o cheiro de amônia, de morfina que até no meio de um texto de um jorro de sangue uma verborragia vem essa palavra hospital como um falso delírio um penetra que rouba um pedaço de coxinha um prosecco na abertura da exposição, não, mas isso já é meu trabalho, bom, mas ao mesmo tempo, hospital, solta minhas mãos para continuar uma frase. O que eu ia dizer é que no silêncio, no silêncio era alguma coisa que acontecia, talvez eu fosse falar dos meus amigos ou das pessoas que eu perdi, mas me perdi. Talvez eu fosse dizer que não há nada mais tenebroso do que ser enterrado vivo e que depois dessa experiência, perder ou não o dessacralizado amigo, não me faz a mais fina diferença. E este não é um recado velado, algum texto-mensagem, carta de despedida, nem uma garrafa de vinho foi disperdiçada nessa vida regrada e virginiana a qual me dedico há 30 e poucos anos. Só posso ainda afirmar para desconfiarem de mim porque uma dose considerável de ficção invadiu meus pensamentos diários, formulo histórias alheias invado todas as privacidades e sou completamente despudorada quando resolvo olhar direito para alguém. Não há que ter medo, é só curiosidade. Em geral a pessoa quando percebe fica sem graça, desculpe o mau jeito, mas eu não estou julgando.
É uma tempestade, são os ratos que aparecem na rua procurando abrigo contra a água e nessa noite eu sonhei que onde eu morava pegava fogo. Começou a chover e a água me salvou das labaredas. Pelo menos não tenho mais azia. Tive muita quando era pequena. A minha cor preferida era cinza, então talvez eu fosse ainda um pouco mais mal humorada do que sou hoje. Ou talvez a azia tenha se tornado adulta e virou vertigem, ou melhor, labirintite, essa tontura existencial que me persegue e piora quando me entrego aos prazeres anti-sobriedade.
É isso por hoje, meus amigos, talvez amanhã eu tenha mais dinheiro para distribuir nos faróis, já que todas as vezes que separo 1 ou 2 reais a senhorinha enrugada que pede dinheiro vai para o outro carro e eu fico lá amassando a nota e o farol abre quando minha mão começa a feder a dinheiro velho. E aí quando não tenho nada ela vem me abençoa e me deseja um bom dia e eu fico tão sem graça também porque nunca vou poder contar dos nossos desencontros diários e também ela me abençoa e diz um zivizuziizuziivvuiiiziivizivizivi e sorri com uma dentadura igual a que minha avó usava. Acho que ela realmente se parece com minha avó, aquela que nasceu em Garanhuns e tinha a cabeça tão chata que descansávamos os copos ali.
Nada esperem de mim além disso. Distribuir dinheiro no farol é um jeito de ser do contra, já que notei que ninguém faz isso. Não é por benevolência porque eu sou deveras cruel e quero que ninguém me dê bom dia enquanto estou de óculos escuro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

É indizível. Instaurou-se um silêncio eterno. Não há palavras que definam, expliquem ou contem a história. Por isso mesmo, cansei de todas as pessoas que sofrem. Cansei de todo o sofrimento do mundo. Não sou solidária, generosa nem altruísta. Não é educado sofrer ao lado de quem tem uma cicatriz tão grande.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ela

"É a raiva e o sexo". Sentada na cadeira com as pernas cruzadas e o cigarro na mão esquerda, é assim que ela responde o que a move. Imediatamente meus olhos procuram uma visão confortante que me tire do transtorno da resposta. Encontro meu cachorro roendo um osso completamente absorto na função e ali me instalo até absorver a fala. A perturbação continua. É o olhar talvez. O silêncio. A expressão: linda, cenho tenso, o ar blasé.
Nesse contexto não sei nunca sei o que revelo e o que escondo e as mulheres são as rainhas do mistério alguém fala alguma coisa. Imediatamente meu peito bufa um ar que estava preso e lentamente vejo o meu entorno ficar cada vez mais vermelho. Pego o cigarrinho que está na roda e baforo mais alguma coisa, minhas orelhas fecham os canais e fico absorta no desenho da fumaça. Não desenrolo nenhuma idéia apenas me torno um adorno flutuante no meio da sala.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

É na desistência que recomeço. Desfaleço a cada hora que passa. Não importa se ociosa ou ocupada. Não sustento mais o choro compulsivo. Tento me distrair mas o buraco me atrai com suas ondas cheias de espuma. Resisto até onde consigo; é na solidão que me aplaco. O Astor lambe minha cara desesperadamente.


ouvindo Consequence, The Notwist

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

É apesar do meu cansaço que sobrevivo. Troco as letras (analségico) é lógico que me guia a fuga do buraco negro. Um buraco negro é a minha cabeça. Mas as imagenzinhas todo o mundo de luzes sobrepostas e cores opacas estonadas entram pela jugular dos meus olhos. Então eu fico distraída e exausta. Corro em direção a não parar nunca - seja aterrisar em cima do mar para nunca aterrisar. Nunca sozinha. Só paro se houver um colo que absorva a dor liquefeita que circula com meu sangue jorrado.


* ouvindo The last flowers to the hospital, Radiohead

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ando muito, ando ando.
Ando sempre sozinha num tom abaixo da ninhada, essa garotada aí que anda.
Ando triste, sempiterno.
Não tem mais um dia, nem mais vícios. As doenças secaram.
Os monstros, as musas, morreram.
Somente o Astor abana meu ar, com seu rabo-espanador.
Os frutos caíram explodidos no chão, amargos, vencidos.
Do susto do nascimento sucedeu uma apatia inominável, o sol nasce à minha indiferença.
A maré bate no meu calcanhar gelado, afundo meus pés na areia; deixo-me afundar - é o peso que carrego - minhas costas turvas curvam-se como galhos de árvores antigas.
Não resisto à lei nem a nada, respiro por entre a terra e assim me dou por satisfeita.


ps. vcs estão aí?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

o perfume

O cheiro começava a ficar mais forte. Os médicos diziam que era amônia, ou algo do tipo, uma substância do corpo que não era processada mais. Mas eu tinha certeza que era o cheiro da morte. Algo nela estava putrefazendo por dentro e aquele era o sinal claro que o seu corpo estava deteriorando e apodrecendo. A morte lançava seu perfume e deixava no ar essa sombra fúnebre. Onipresente, saía por todos os poros e revirava nossos estômagos de angústia velada.
Nunca a deixei saber desse cheiro, mesmo que me incomodasse a sua ascensão dia a dia. Ela era vaidosa, estava sempre cheirosa e durante muito tempo dividimos o mesmo perfume - que uso até hoje.
Acredito que seja impossível não enterrar algumas lembranças. É indescritível e inominável. Não ouso entender essa lógica estranha que me protege.

cornos virados

É para lá de Bagdá que estou.
É uma espécie um regurgito estomacal que se amplia e se abre em galhos para o corpo. Até a alma está em regurgito. Acho que foi o brigadeiro com cerveja que comi ontem. Ou será que acordei com os cornos virados? Mas virginiano não tem cornos, quem tem cornos é de capricórnio e se não me engano os sagitários. Tenho uma amiga sagitário com capricórnios e sempre que ela acorda com os cornos virados passa o dia inteiro tentando desvirar. Pior ainda é a vida da tartaruga. Quando vira de cabeça para baixo não consegue mais desvirar sozinha. Há mais semelhanças entre mim e a tartaruga além da nossa habitual lentidão...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Do zelador ao maestro

São poucas as pessoas que sabem receber. Abrir suas casas e deixar os convidados à vontade. Muitas vezes o que acontece em algumas rodas é uma espontaneidade plástica, com todos fingindo falar o que vem à cabeça mas ao mesmo tempo estão se observando e esperando uma falha de conduta. Falam o que convier à roda, uma frase previamente aprovada ou uma piada anteriormente testada. E em geral, juntam-se pessoas parecidas, da mesma classe social, para não dar atrito e não haver aquelas famosas indiretas de ricos contra pobres e vice-versa. Porque um adora tirar sarro do outro, é uma forma de vingança branca, ou seria uma invejinha bem controlada?
É raro um ambiente estar realmente misturado e despretensioso. Porque isso não depende de uma produção caprichada ou da intenção prévia e bem elaborada de misturar tribos e sim de uma disposição mais humana e filial.
De pés descalços, o anfitrião da virada do ano estava vestido com a camiseta do seu time preferido. Mas não era um torcedor qualquer, tinha seu nome inscrito nas costas. Tem o rosto facilmente reconhecido, provavelmente muitas donas de casa o abordam no supermercado para expressar sua simpatia. Olhando de longe, eram todos conhecidos e não tinham diferenças. Sua filha, admirada, diz: meu pai é um sujeito incrível. Olhe aquelas pessoas ali, de longe você faz idéia que se trata do zelador do prédio conversando com um dos maestros mais importantes do mundo? E estavam todos ali, dando risadas, fazendo piada e falando sobre qualquer-assunto. Sem nome-sobrenome, sem perguntar onde-trabalha-o-que-faz-da-vida, sem pompa e circunstância. Fomos embora com a sensação que o ano novo chega com simplicidade e delicadeza.