domingo, 30 de março de 2008

Manhã de domingo,

TE vejo dormindo, amor, e te quero tão bem. Seu perfil, os olhos fechados e sua alma, onde está sua alma enquanto dorme? Suponho animais brincando com crianças dando risadas e você no meio, com sua gargalhada barulhenta. Te acordo com mil beijos pra não te assustar, dizem que nossa alma vaga enquanto dormimos. "Sonhei que você me traía". Vou até a cozinha preparar o café. Mudo de idéia e faço um cowboy. Gosto de beijo com gosto de bebida. Vou até ela e não dou possibilidade de reação. A sua boca é o mundo inteiro. Infinita. Entrego-me o uísque faz efeito ela meio acordada ainda meio dormindo esquece seu nome sua natureza somos.

O escritor e seus embates

Tive o trabalho de copiar um trecho de Plexus para mostrá-los uma das partes mais brilhantes do livro, quando Miller está conversando com sua mulher sobre o embate entre buscar um trabalho e entender sua profundidade, digamos, amarga, ou manter-se puro e continuar escrevendo. A mulher dele, Mona, acredita que Miller é um homem puro que não pode se contaminar com a maldade do mundo e se recusa a deixá-lo procurar um emprego simplesmente para sobreviver. Ela trabalha como garçonete (talvez se prostitua também, mas essa informação não fica clara) e ele começou a vender enciclopédias e está tentando gostar do emprego. Ela diz: "O que acontece comigo não tem importância. Sou feita de uma fibra mais grossa. Eu sei como o mundo é. Você não. Você é um sonhador. Um idealista".
Esse embate, entre entregar-se ao mundo, à sua rapidez e, no final das contas, deixar-se neurotizar por ele, é uma grande questão pro artista. De duas uma: ou ele se ferra e entra nesse rio lodoso e se torna um deles, ou consegue extrair, mesmo um pouco a contragosto, inspiração. Nesse sentido, o criador se torna mais humano, mais impregnado pelas contradições que tomam conta do homem que vive no seu tempo. Ao mesmo tempo em que esse mergulho dá trabalho, causa amargores e tira o distanciamento necessário para a contemplação. Todo artista sonha com o silêncio e o distanciamento, com a proximidade da natureza; essa quietude é extremamente rica e faz emergir uma quantidade imensa de sentimentos, inspirações, idéias.
Viver em São Paulo é totalmente anti-tudo-isso. Se Henry Miller vivesse em São Paulo, com certeza moraria no baixo meretrício da Rua Augusta. Chute alto esse. Não sei o que Henry Miller faria nessa cidade barulhenta e poluída, que cada vez se supera nas suas incondições e no caos. O trecho que escolhi do livro obviamente me inspira deveras porque também tenho esses embates e o mesmo desejo de me tornar o mundo com as palavras.
É uma briga e tanto!


"Ter seu próprio mundo, e viver nele, não significa que você seja necessariamente cego para o mundo real, por assim dizer. Se o escritor não tiver familiaridade com o mundo do dia-a-dia, se não estiver impregnado por esse mundo a ponto de se revoltar contra ele, nao poderia ter o que você chama de seu próprio mundo. O artista carrega todos os mundos dentro de si. É e uma parte tão vital deste mundo quanto qualquer outra pessoa. Na verdade, pertence mais a ele e faz mais parte dele do que outras pessoas, pela simples razão de ser criativo. O mundo é o seu meio de expressão. Outros homens se satisfazem com seu cantindo do mundo - seu empreguinho, sua pequena tribo, sua pequena filosofia, e assim por diante. Ora, o motivo de eu não ser um grande escritor, se você quer saber, é ainda não ter admitido todo o mundo dentro de mim. Não que eu não saiba do mal. Não que eu seja cego para a maldade das pessoas, como você parece achar. É uma coisa diferente. O que é, eu próprio não sei bem. Mas ainda vou saber. E então vou me transformar numa tocha. Vou iluminar o mundo. Vou mostrá-lo, até a medula... Mas não vou condená-lo! Não, porque sei bem demais que sou parte integrante dele, um dente importante de sua engrenagem".

terça-feira, 18 de março de 2008

Placebo

"Toma uma bolinha, dorme, amor, ilumina seus sonhos infantis com uma viagem infinita. Aquele cachorro grande virá te buscar para vingar as crianças que quiseram te jogar no lixo. (citação A História Sem Fim). Você será salvo pelo placebo azul, não a banda, que eu adoro, mas a bolinha. Amiga, as bolinhas azuis terão um efeito devastador (devastar a dor, óbvio) a musiquinha de criança vai tocar quando você estiver quase saindo da vigília. A voz de sua mãe vai soar no fundo da sua cabeça e você sentirá o edredon subindo até seu pescoço - pra não ficar nenhuma parte do seu corpo descoberta. Minha mãe costumava puxar minhas blusas pra dentro da calça pra não subir ventinho e não sentir frio. Até hoje coloco as blusas debaixo da calça. Sinto frio de fato. Ela fez tanto isso que não criei pele nessa região fica um vazio eterno que sente frio sempre. Tudo o que ela fazia pra mim, agora, antes, é tudo um vazio eterno - bolinhas azuis, novamente. Tudo pra falar delas. Você já tomou, amor?"

sábado, 15 de março de 2008


um lunático esbarra em mim - sonho alto que tenha sido deus disfarçado
deixou o ombro dolorido, meu ombro peca comigo quando encontro um pobre infeliz
choro e rio mas não me mexo dou tchau e benção não sei quem é pior
volte dobre a esquina venha na minha direção não se esqueça de tudo que não fiz
um gesto não-feito rasga sempre o tempo e volta presente, um eterno cobrador
apelo à memória - ela me suporta
nada lembro da infância suponho que fui feliz
sou uma faísca impura e vergo meus ombros: a dor permanece, o tempo muda e sonho com as mãos benfeitoras que aplacavam a implosão
meu corpo dói esbarrado na esquina que tinha um lunático como dono

quinta-feira, 6 de março de 2008

Farei de conta eternamente. Trocarei as datas do meu aniversário e vestirei branco no dia de meu luto. Brindo sobras e minúcias. As travessas de prata estão escurecidas. As lágrimas vencem meu cansaço.

No fundo do poço há um chão-impulso sobre o nada. Lembra a fé - aquela antiga enterrada com meu corpo antes da minha morte. Sobre a amizade teria que recitar um salmo. O colapso seria um Deus em forma de bala perdida - acerta um desavisado cabisbaixo ("não dá mais tempo!"). Colapso: rachadura interna que leva à demolição. Pois ninguém desconfia de um totem mesmo rachado.

Vertigem do tempo, círculo de esquinas pontiagudas. Falta a todos as mãos de argila. Sutura minhas veias meus músculos com doçura. Forja docemente minha morte - camadas de gelo em direção ao magma profundo. Durante séculos estive adormecida. No túmulo de minha mãe sou ainda feto e lambo felinamente suas lágrimas.

domingo, 2 de março de 2008

A Casa da Rua Nilo

Os termos do contrato demoravam a sair. De qual seria a minha parte na divisão dos bens da família, dos lugares onde passamos a infância e brincamos de tudo que se pode imaginar, até de se pegar sacanamente nos cantos? Como mensurar os metros quadrados baseados nos fios dourados da minha memória, que insistiam em não detalhar o assunto durante todo o percurso.
Como aquele homem de preto poderia determinar um valor para os melhores e mais puros anos da nossa vida? O único lugar que ofereceu conforto para todos os membros da família, quando eles eram todos vivos e com saúde, as crianças pequenas sabiam valorizar as palavras dos mais velhos e naquela casa eles trocaram os mais expressivos ensinamentos.
"Não quero que venda aquela casa", afirmo, com voz infantil, quase aguda, embargada. O homem de preto nem ouve - a frase foi para os meus ancestrais me perdoarem, darem suas bênçãos ao que era inexorável. De todos os ângulos, exceto pelo da memória, todos eles nos levavam à venda da casa, por todos os raciocínios e lógicas, tudo fazia sentido. Mas dentro de mim não fazia e nunca fará. O arrependimento é eterno mas diante de tantos olhares e apertos de mão afirmativos, não consigo recuar, para não passar como covarde, infantil, apegada ao passado - mas tudo isso faz tão mal a ponto de ficar com febre durante semanas, uma gripe incurável, com uma tosse interminável. No dia da última reunião a surpresa foi para todos. "Vou morar lá".


Eu tive um sonho e preciso morar naquela casa.