segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

é o sustentáculo do nada.
talvez não me guie por nenhuma luz. há uma enfermidade em mim.
a cura será lenta. com remédios caseiros. suspiros do astor.
delicadamente as feridas serão fechadas, com uma certa sobriedade.
e assim existirei, da forma mais pura possível.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

sonhei com uma flor. não esperava por isso. não tenho delicadeza.
saber-me só. não ter ninguém com quem. ter pessoas ao meu redor mas ninguém que seja. nada meu. apenas. somente a mim. entro um terço a mais de mim. sim, porque não me tenho por completo. tudo o que tenho, minha casa, meu cachorro, estão fora de mim. as plantas do jardim. as músicas que compus. um dia, sim, poderei. e neste dia, estarei na minha banheira vermelha com uma taça de vinho na mão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

soturno.
no meu quarto dorme do meu lado a virginia woolf. a sua alma me perscruta durante a noite. devaneio. ouço barulho de ratos. sou um delírio. ela escreve no meu corpo suas feridas. deixa suas pedras ao lado da cama. esta virou a sua casa.
Começar um texto com qual linha. Puxo diversos começos possíveis e nenhum chega a me agradar. É provável que eu esteja assim. Sem conseguir escolher por entre nada. Quase sem conseguir acordar e levantar da cama. Sorte estarmos no verão. O sol é um delírio pulsante, queima os fungos as minhas chagas as minhas vísceras expostas. A cena mais impressionante do meu pior sonho dos últimos tempos foi as minhas vísceras expostas em forma de ratos. Eles não vão comer a minha cabeça. Mas até o calor solar queimar toda a minha raiva, meus impulsos violentos, tudo o que eu escondi de mim mesma até hoje, vai demorar. Enquanto isso, não sou parte deste mundo. A sua lógica não me pertence. Não adiantaria guiar longamente por uma estrada a fim de me perder. Não há futuro. Sou eu e meu cachorro a olhar a janela. Começa com o sol, a chuva, a noite e suas luzinhas piscando. Não sou alguém a mais de mim. Na paisagem ali estão minhas entranhas. Eu nunca as tinha visto. É desgostoso não tê-las mais dentro, criou-se um buraco, um vazio amarrado no âmago.
Escrevo à mão num caderno antes de dormir, em cima da cama. O Astor raramente sobe na minha cama. Mas ontem, ele me olhou e eu entendi o seu pedido. Liberei a sua subida, ele deitou do meu lado e colocou o focinho em cima do caderno.
Não existe estrada, caminho, porque não há mais encruzilhada. Estou onde mais devo; a palavra sempre me salva do completo afogamento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

São os ratos os meus inimigos. Eu achei que fosse o Astor ou a água ou a torneira ou a caixa d´água. Mas não. Eram eles. São os atormentadores da minha alma. Depois de despertar e ver que não era o Astor nem a água, notei, perfeitamente, seus ruídos. Malditos. Eu os odeio com toda a minha força. Eles são algozes quase invisíveis. Somente quando estão já instalados que percebemos a presença deles. Eles são tudo o que tento evitar. A sujeira, a doença, a vida rasteira, todos os objetos inúteis que estão no meu porão. Objetos que não posso me desfazer porque "um dia podem ser úteis" segundo meu irmão. Não posso jogar tudo fora. E está tudo lá, atulhado no meu porão. São 11 horas e 11 minutos. Esta lógica também me persegue mas ela me lembra só coisas boas (este será outro post, dedicado a um grande amor). E não só me acordaram, como entraram sorrateiros no meu sonho. Tive o pior sonho da minha vida dos últimos tempos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

É no estupor que presencio a vida. Não tem o barulho da platéia para me distrair. Uma música de fundo toca só na minha cabeça. É vertiginoso. Não existe um ponto e vírgula para respirar um segundo ou dois a mais. Não sou muito prudente, nem eficiente. O ruído da rua é parte do sonho de que estou viva, de que a minha casa faz parte de uma cidade com um nome. Desde pequena nasci séria, as minhas rugas são de quem pensa mais do que sente. Há uma sutura invisível onde ninguém toca, e alguém já bateu nesta porta. Talvez um dia eu libere esta entrada. Talvez somente quando eu esteja na piscina no mergulho diário da minha inconsciência, ali seja o único lugar onde deixe o meu corpo não pensar. Eu penso sobre os telhados, as estantes de livros analiso cada parte que está à vista no mundo e um dia quando estou louca quando tomo as minhas cervejas, junto as imagens na minha cabeça enquanto ouço alguém falar. Sim, porque eu pouco falo e geralmente causo incômodo nos interlocutores. Em geral procuro pessoas que sejam falantes e arranjem assunto para preencherem o meu vazio verbal, a minha lacuna anti-verborrágica. Geralmente estou numa espécie de transe íntimo que não me deixa falar. O Astor saberia explicar isso melhor do que eu. Nos entendemos nas nossas pausas. Talvez eu seja um cachorro nascido de um devir gente.