É um tanto improvável que eu volte a fazer algo. Que consiga escrever algumas linhas. O maior feito até hoje, do qual me orgulho, foi ter adotado um cão sem dono. Atropelado e maltrapilho, hoje em dia o Nestor é só alegria. Levo-o todos os dias na pracinha onde encontro meus únicos amigos, os cães e seus donos. Falamos sobretudo da educação dos filhotes. E, nesse quesito, talvez esteja o meu segundo maior feito até hoje, que é saber dar remédios para ele. Ninguém tem jeito como eu. Todos na pracinha ficam boquiabertos ao saber que não tenho tática especial para dar um comprimido a ele: simplesmente enfio na sua boca, lá no fundo da língua e quando ele nem imagina já engoliu o pedacinho que vai curá-lo das verminoses que pega por aí. Não é incrível? De resto considero-me alguém apagado e desprovido de charme, sem qualquer sedução implícita nos acontecimentos cotidianos. Não tenho nada para desvelar e não guardo uma caixa de bombons importados dentro do armário. Sou apenas melancólico e tímido. Tenho pastas e mais pastas de poesias nos meus armários, já cheios de papéis. Não admiro muito as pessoas, na verdade quase não olho para elas. Sou cabisbaixo demais para isso. Admiro as paisagens humanas somente. Quadros do dia a dia: os bares com suas mesas na calçada, as senhorinhas de bengala, os trabalhadores dentro dos ônibus. Mas os homens por si, os homens com suas rugas, fazendo contas mentalmente, pensando nos capítulos de suas vidas, para esses não olho deveras. O Nestor também não faz muita festa. Sim, ele abana o rabo quando chego e me acorda todo dia bem cedo, com sua felicidade matutina. Mas eu poderia ser qualquer outra pessoa. E talvez até outra pessoa mais alegre fosse melhor para o Nestor. De modo que ele é quem sabe. E assim até que escrevi algumas linhas. Mas se não fosse o cachorrinho, provável que nem assunto tivesse.
sábado, 30 de maio de 2009
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