domingo, 29 de janeiro de 2012

Um dia teria reconhecido seu rosto. Na minha plena vontade de te perscrutar. Com um leve arrepio da sua pele, delicado mergulho. Respira aqui comigo.

Eu tenho uma quase incapacidade de existir. Todos os silêncios me definem. O barulho dos trilhos não me incomodam. É um leve balançar que sinto, como das árvores. Eu não tenho um segredo para contar. Os meus objetos, sim.

O amor não me data. Tudo pode acontecer em janeiro, no verão embriagado. Ouvindo uma música ali. Com um ventinho no rosto.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Virou tudo cinza, poeira antiga. Uma fumaça me ajuda a não respirar. Eu tento, ainda. Dizem que devemos agachar para respirar melhor. Vou ao chão, fico pequena até o tempo. Prefiro fechar os olhos enquanto tudo estala.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eu só queria um espaço. Entre uma coisa e a outra. Eu teria visto tudo com muito mais clareza, sem achar que você era muito mais do que parecia. E parecia para todos, menos para mim. Os olhos do amor tem sempre uma lente de aumento. Bonitos os óculos que o tempo nos obriga a tirar. Tantas vezes misturei tudo em amálgamas, fronteiras que sempre se bagunçam. Algumas ficam com os cabelos brancos, outras morrem tão logo suspiram. É bonita a dança vertiginosa do amor. As luzinhas da roda gigante piscam.

Meu querido Salinas, saudades de tomar um uísque com você. Tem uns amigos que a gente conversa mais bonito.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Assim. Ouvindo o cd novo da Gal. Domingo cinza. Roçando um dedo no outro. O Astor deitadinho. O meu edredon precisa de alguns reparos. A minha camisa xadrez. Edredon xadrez. Vem aqui um minutinho.
Foi o meu corpo emudecer. Formigavam as minhas pernas por longos segundos. Aquela batida a música que de repente começou a tocar. "É o inexorável", uma voz dizia na minha cabeça.

sábado, 21 de janeiro de 2012

E lá se vão muitos anos. É numa noite que se despede de tudo o quanto. Calafrio. O sol se põe em mais uma vertigem. Eu digo. Ando com meus pijamas. Eu sempre ando meio de pijama. Meus amigos pararam de me convidar para as festas mais chiques. Praticamente falo sozinha. Mas virei amiga da Hilda Hilst. De portão só, por enquanto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu queria falar qualquer coisa. Mas qualquer coisa seria muito. Talvez tomaria um drink para dizer tudo o que pudesse. Ninguém realmente diz nada. O mundo poderia tomar um porre. Isso seria realmente bom. Muitas vezes eu não sou capaz de expressar tudo o que me percorre. Olho o mundo fico com o peito extravasado enquanto como um profiterole.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Porque temos que continuar. Temos que ser livres, e fortuitos. A segunda-feira é sempre uma lesma. Eu não consigo mais existir. As pessoas não querem mais a minha companhia. Eu não tenho mais assunto. Sou um delírio em prosa. O verso ficou na esquina, com olhos de vidro.
O silêncio resolve tudo. Os ímpetos, os impulsos. Como saber a quais impulsos atender. Pode ser desastroso. Então eu espero. Espero passar, como a chuva de ontem. É um ímã, a sua natureza me atrai como um ímã. Eu gostaria. Então eu fico olhando a paisagem. O telhado já está secando, o vento está curto, as árvores não balançam, só bem nas pontinhas. O avião passa no fundo do quadro. Adoro que da minha janela vejo os aviões. Sempre fico muito arrepiada quando eles decolam. E andar de trem, descobri, faz emergir todos os meus desejos polidos. Polidos ou domados. O dia demora para amanhecer. Penso somente em deitar do seu lado, de olhos fechados.

domingo, 15 de janeiro de 2012

É a chuva vindo. Tudo de repente fica mais escuro. Não há nada o que fazer. Acendo a abajur e mantenho a porta entreaberta. O Astor late para os trovões. O céu fica prateado e parece que o mundo mudou de lugar. De repente as gotas prateadas começam a lavar o telhado e os flashes. Quando eu era criança achava que os raios eram alguma coisa de deus mas agora eu acho que os raios, a chuva, os trovões, o Astor são só uma coisa da natureza. Quanto mais o barulho vem, mais o Astor troveja. Acho bonito que ele fique latindo para os trovões. Não sei bem se ele está bravo ou feliz com a chuva. Ele vem aqui para dentro, sacode todo, e volta para lá.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Esta noite sonhei com você. Não lembro do sonho. Só lembro que acordei deslumbrada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bailarina, a sua saudade esfumaça meus pensamentos. Tomo um chá e penso nas palavras que poderia encontrar pelo chão enquanto flutuo. São elas que quando passam pela minha pele arrepiam toda a minha superfície. Fecho os olhos e penso naquela música que me lembra você. Eu não saltito não tenho precisão me sinto como se tivesse asas e te levasse junto sem te tocar. No meu sonho eu te conduzo sem te tocar. Vamos juntas como de olhos fechados porque vamos juntas flutuamos sem pensar. Fecho os olhos quando danço. Você quando dança é como uma Vitória de Samotrácia prestes a alçar voo ali no alto da escadaria. O meu olhar, poeta, ali tão reles. Minha única alternativa para te alcançar é flutuar nos meus pensamentos. Preparo um drink para me distrair um pouquinho.
Foi numa lojinha de Paris, aquelas de souvenirs--eu procurava alguma coisa para você-- quando começou a tocar aquela música antiga que hoje está fora de moda mas naquele momento fez um sentido quando a cantora disse so baby talk to me e no meio daquelas xícaras e mini torres eiffel eu pensei em virar e simplesmente te encontrar ali na frente do Pompidou. Eu ficaria certamente bastante tempo te acompanhando te olhando de longe e a minha vontade seria de te dar um beijo no meio daquele páteo como num filme mudo quando os barulhos da cidade se calam e as luzes ficam baixas até sua boca terminar em mim.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vamos inaugurar o ano. Com um dedinho de delírio, que sabemos, é sempre bom. Com um pouquinho de Berlim, com o meu casaco sujo de bebida no chão. Uma vodka alheia que permaneceu até ontem, quando o coloquei na máquina de lavar. Eu gosto de vestígios. De Paris o sacolejo do metrô com seus pretos, árabes e orientais e todos falam aquela língua mas ninguém é de lá e todos são de lá. De Praga, que dizer. É onde se deve fazer amor.