A TV Cultura exibiu, sabe-se lá há quanto tempo, um especial com a Zélia Duncan cantando os sucessos de seu segundo disco, cujo título é seu próprio nome. Ela estava estourando com sua versão de Catedral, originalmente composta por Tanita Tikaram, alemã de nascimento e inglesa de criação, que fez sucesso nos anos 1990. Nascida em Niterói, Zélia apareceu com voz grave e composições de sua autoria, num estilo muito particular que logo agradou a mim e à minha mãe. Ouvíamos muito esse CD, e, quando passou o referido especial, nós gravamos e revíamos juntas. Minha mãe meio que paquerava o percussionista, que era uma figura com um quê de latino, cheio de gingado, e ela adorava homens que tinham balanço, porque ela dançava muito bem e meu pai sempre foi meio durão.
Dando um salto no tempo de pelo menos 10 anos: outro dia cruzei com a Zélia numa livraria em São Paulo. E daí nada, porque eu não tenho nenhuma qualidade de fã, nenhum afã em encontrar um famoso na rua, pero, neste caso, a Zélia, ela própria, me fez querer escutá-la novamente. Não acompanhei muito a carreira dela a posteriori daquele primeiro CD, e este verbo (acompanhar) pra mim significa comprar os CD´s, ler as músicas e não somente ficar de orelhada, como de fato fiquei. Continuei a admirá-la como cantora, compositora e apoiadora de outros projetos, como uma mulher sempre antenada no seu tempo e não uma artista acomodada que repete a fórmula já aprovada pela maioria.
Existe uma gravação que ela fez recentemente com a Simone, de uma música sua chamada A Idade do Céu. Eu já tinha escutado e gostado, mas havia esquecido. Nesse novo momento revival em que quis reouvi-la, baixei várias músicas, entre elas, esta. E ela falou com a minha alma de uma forma inteiramente nova. A questão é que na mesma semana que encontrei com a Zélia, seria aniversário de minha mãe. Mais uma data comemorativa vazia e cheia de angústia. Mas, para a minha surpresa, a música de Zélia me levou até minha mãe e posso dizer que tive uma experiência espiritual com ela. Cantamos juntas. E a letra ajuda, óbvio:
Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
E este é só o começo... Acabei entrando no site dela, onde encontro um link assim: fale com a Zélia. Ué! E por que não?, pensei. Vou falar com ela. Contei rapidamente a história e ela me respondeu, desejando que a música sempre nos faça companhia. A minha felicidade foi imensa e eu posso explicar os porquês:
1- A Zélia me levou até minha mãe;
2- minha mãe me levou até Zélia;
3- Zélia é uma artista de verdade porque;
4 - ela não perdeu a conexão com seu público;
5 - o artista cria para emocionar;
6- a tríade artista - obra - público fez intimamente sentido (o que é raro de acontecer).
Tudo isso pra dizer que estou comemorando o fato de ter uma leitora anônima (vide comentário no post Amizades-irmãs), que provavelmente não me conhece pessoalmente, mas me lê. Porque acontece muito de nem os amigos lerem o que a gente escreve. E avaliação de amigo é sempre parcial. Mas de um anônimo, não. E existe uma conexão entre o que aconteceu comigo e com Zélia e com a À la blasé. E não é o rabo do elefante. É a transcendência da criação a Zélia me levar a ter uma experiência com minha mãe a partir de sua música; é a transcendência de embalar a insônia de alguém com meus caracteres. Viva viva!