sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

talvez um meneio de cabeça, um canto de sorriso, uma forma aberta de entoar as palavras. sou eu tentando ser um pouco você. para matar a saudade, para um dia te encontrar no espelho. enganar-me com a saudade que é de você e isso a gente nunca resolve. lá no meu cantinho, no edredon colorido dos meus sonhos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

era a sua tristeza, a minha. o teu rancor, a minha derrocada. a tua iluminação, o meu túnel. não te vi senão sob a lua. e já foi o bastante para inebriar os meus sentidos por entre os prédios. e as luzes da cidade (sempre elas). encanto-me na minha sozinhez, toda a minha conduta está dentro de mim. conseguisse eu ser alguém para fora, um dia. estaria brilhando entre as árvores, no meio da natureza com o brilho das águas. os brilhos, eles sempre me distraem. foi um canto de lua que rebateu em você. a partir daí o mundo precisou de legenda e eu não pude mais ter palavra. foi a mudança de tempo, os trovões, a enxurrada que te levou de mim. notei que estava só e não me lamentei. continuo sem legenda, nem por sobre mim mesma.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

um desarranjo do meu próprio sabor. daquelas armadilhas que só a gente sabe criar --e cair. eu fui ali, na esquina, em qualquer lugar, na rua, em qualquer lugar mesmo, tanto faz. no devaneio, no delírio, deslizei por entre a seiva daquelas paredes, o meu sangue. perdi, daquele tempo, um tempo curto, são poucas horas ou poucos minutos para se derrubar uma árvore centenária. estou lá derrubada, em tantos pedaços que tento juntar com o mesmo cuidado com que eu mesma ia lá regar, todos os dias. acaricio meus próprios cacos na esperança de revê-los um dia. ali, suturados (eu já fui tantas vezes cortada!). talvez somente o amor, e como é bonito o amor.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Foi muito tempo depois. Muitos meses entre acontecimentos sem sentido. Senti a baba de um deus maldito escorrendo por entre minha testa. Corroía meus pensamentos e eu ainda não sabia nomear qual era o meu sentimento. O ímpeto ia e voltava sempre na mesma medida. Eu agi, muito timidamente. Um vestígio virulento ainda permeava o sentido, ao mesmo tempo fugi de você, fugi como um encarcerado foge das suas lembranças. Eu gostaria que você estivesse confortável aqui dentro de mim; ou apenas que me deitasse ao seu lado, com a nossa pele dividindo uma fronteira quase sutil. Eu deveria desistir, jogar uma garrafa vazia no mar e deixá-la ir embora para que o meu próprio vácuo fosse preenchido, um dia, com a água salgada do mar. Uma garrafa vazia, boiando sobre as ondas sou eu tentando chegar até você.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

é o que o caetano diz: se eu pudesse, matava o natal. no livro dele, verdade tropical, ele conta que ele e bethânia tinham esse jeito de falar quando não gostavam de algo. ele conta que os dois estavam num ponto de ônibus quando eram meninos e, enfurecidos com a onda consumista do período, soltaram essa. e ele explicou, depois, que eles sempre falavam desse jeito. na entrevista que ele deu para a revista serafina, da folha de são paulo, veiculada no último final de semana, ele falou desse jeito sobre a cocaína. que se ele pudesse, matava a cocaína. achei muita graça ter entendido este comentário dele, depois de tantos anos da leitura do seu verborrágico e encantador verdade tropical. e achei graça por ele continuar falando desse jeito, como se estivesse ainda lá em salvador, na sua postura de irmão mais velho, cuidando da jovem bethânia, que estava pê da vida por ter ido embora de santo amaro. muito fofo ele manter este certo mau humor com algumas coisas, uma birra meio infantil que vira e fala: se eu pudesse, matava. parece um comentário pesado, mas se lembrado junto com este fato do ponto de ônibus, torna-se ingênuo. em tempos em que as crianças cantam pega um, pega geral (e no sentido estrito, de pegar e bater e matar mesmo) é bom lembrar dessa historinha de caetano e sua irmã. muito bonitinhos os dois querendo matar o natal.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

foi no espelho que ela olhou. um detalhe, no canto da boca, onde daria para resvalar um beijo. sustou a voz --a voz de jazz a sua voz uma clareira-- e lá naquele detalhe ficou à espera que crescesse e se tornasse a sua morte. um detalhe que era uma doença, mas não evaporou; corroeu seu rosto depois seu cabelo e nem deu tempo de se despedir. ela já foi embora? e só agora descubro a sua voz?

para eva cassidy