quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Hoje, quase meio dia, esse dia de dezembro quando a cidade pulsa luzes verdes e vermelhas, as árvores brilham; li um jornal. Às vezes leio jornal como se fosse notícia velha. Não faz muita diferença saber que a notícia é de hoje ou de uma semana atrás. Algo aconteceu e isto é tudo. Os fatos são riscas de faca. Não é a beira-mar nem o horizonte: a reflexão chega aqui, entre o tapete da sala e o chão molhado da cozinha. Nada me prende ao agora, nem ao passado. Ao futuro decolo, entre a fleuma e o ímpeto. A este calotas, um novo deus frescor exalta. Os flashes do ano revigoram em minha memória como se tudo não tivesse tempo, como acontecimentos encadeados num enredo fílmico sem meios fios, sem esperas, sem atrasos, sem contas para pagar. Como um turbilhão de realidades, todas muitas, juntas, vulcânicas. Uma verve de existir; antes que seja para falar e escrever. E antes que me entendam mal: a minha quietude é um estado de espírito. Não é simples timidez ou auto estima elevada. É estado latente de apreciação. Um modo de filmar o meu mundo. E de enredo amarrado onde tudo aconteceu, tudo, de todas as formas - avião, cansaço, trabalho, amor, encontros, desafios, despedidas, porres, livro, amizades, brigas, dúvidas, choros, abraços - ah, esta vida que me atinge não mais de soslaio, mas no meio do peito como uma flecha que não mais me sangra mas me fascina com a sua infinita potência! Um raio, sem pedir mais licença; agora tem nome.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

terça-feira, 16 de novembro de 2010

é o amor, esta criança eternamente mimada e complacente. uma criança, às vezes, terrível, daquelas que sentam no fundão e zombam dos bobos. os bobos são sempre os mais sensíveis. os que ardem por dentro. ficam de costas para a zombaria, sem conseguir prestar atenção no que o professor diz, só esperando o momento de se trancar no banheiro, com a garganta doendo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

as incertezas são absolutas

terça-feira, 2 de novembro de 2010

é uma contra-mão desviar-se. um olhar o seu delírio pulsa (para onde?).

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

eu não tenho mais lugar. a planície me assombra ao horizonte. vou e volto com a minha cabeça, apenas. mas terei que fazer o percurso a pé, sem desvios. meus amigos, um brinde, diversos brindes para eles. um brinde para o seu futuro.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

que tem uma complexidade absoluta. é um zelo, uma tarde de cama. mas é verdade, o mundo não tem tábua de salvação. e é por isso que eu tenho um cachorro.

domingo, 17 de outubro de 2010

eu vou um dia, menina. eu vou ali longe ao horizonte encontrá-la. além de mim.

domingo, 10 de outubro de 2010

os delírios são sempre passageiros. a sobriedade sempre resta. talvez não seja exatamente o amor, mas uma lufada de vento extraordinária.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

uma lacuna. vírgula além do tropeço. tenho às vezes não tenho, força. às vezes consigo ser doce, noutras sou um borrão.
não quero ver.
ninguém.
não quero ser.
nada.
eu te amaria desde quando. uma vertigem me faria você. me entranharia nas suas esquinas delgadas e doces. um segundo a mais dos seus olhos. no seu silêncio suave, uma manhã em mim.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

dentro. quando. onde. me perco.
ninguém se perde. está tudo sob controle. nada demasiado. nada além.
além de mim, estou longínqua e incerta.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

o mundo. não cabe na minha mão. tudo é pouco.

domingo, 19 de setembro de 2010

eu gostaria de ver
tudo.
eu gostaria de saber. tudo.
uma linha que puxo e se quebra ao meio. é para continuar puxando, é para dar um nó e seguir adiante ou é para largá-la e procurar outro novelo?
é de saber ou é de estranhar? o que é, é ou não é?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

despeço-me de mim. mais uma vez (e já foram tantas!). um sentido de deitar-me num banco qualquer e olhar as árvores com um fundo de céu. o que vislumbro cabe no meu mundo, e não me assusta.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

eu não sei o caminho. talvez você me ajude a descobrir, talvez não. talvez. muito provável que não ajude. tem um caminho só. tem outro, feito a quatro mãos. tem outros, com muitas mãos. tem mais ainda, feitos com patas. com garras. talvez eu queira ajuda, talvez não.

domingo, 29 de agosto de 2010

eu tenho saudades de um dia. eu não sou mais eu. meu formato é outro. o que era vertigem torna-se contorno.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

não diria mais nada, a troco de lançar-me num mergulho escuro. os brilhos reluzem no mar gelado e preto da noite, as luzinhas acendem, me distraem. parada no trampolim deixo-me inebriar pelos pontos de luz, analiso todos eles com alguma razão. entendo que os olhos não dão conta de dizer o que são; então desfoco o olhar, fecho os olhos e sinto as luzes acendendo minha pele.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

é um enquadramento. fora-dentro da tela. te enquadro ou desenquadro? a perspectiva é sempre um olhar, escolho o ângulo torto, torvo vejo. sempre vemos meio torto. nenhum corpo nasce reto. então o seu ângulo. tem a nitidez de uma câmera. quem vê é você ou ela?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

sou eu morrendo ali na esquina. em cima da faixa de pedestres. insisto que eu tenho razão. mesmo que eu já esteja invisível.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

eu tenho um destino insondável. os meus ombros trazem as lutas que perdi. não vergo mais meu corpo em direção ao futuro. coloco o meu coração na frente, pulsando para você.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

de volta a mim. os brilhos incessantes da cidade me entorpeciam.

reverberações

um susto me colocou aqui. são seus olhos, estas bolas pretas imperscrutáveis. é a sua dança, bailarina, que move o mundo. o meu passo é torpe e um tanto embriagado, jamais conseguirei descrever com palavras sãs a sua silhueta no mundo. os seus olhos são indefiníveis. nasci do sangue e ao sangue sempre retorno. esta exposição, o palco, a palavra; aqui estão nossas vísceras vertiginosas e esparramadas. não temos outra opção, bailarina. a sua beleza embriaga o mundo. todos os poetas curvam-se à sua passagem. como nos curvamos às tempestades, aos ciclones, às vertigens do mundo. assim às bailarinas, bailarina. é você, a mais linda delas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

minha mãe deixou algumas coisas inacabadas. eu sou uma delas. ela me deixou despedaçada, com o coração em frangalhos, a fé enviesada, um turbilhão de descrenças no mundo, no ser humano e até no amor.
o meu coração, talvez e ainda, seja refratário à algumas coisas. quais delas, não importa. eu não sei - se soubesse diria - mas ainda não tenho clareza sobre tudo e talvez nunca tenha.
ela costurava. não é bem costura o nome. é uma espécie de tapeçaria. eu tenho uma almofada na minha casa que ela fez. e é linda, toda colorida. daqueles objetos que se percebe que foram feitos com amor. porque amor existe impresso (e expresso) no mundo, apesar do meu ceticismo...
e muitas peças ela começou e não terminou. amanhã vou conhecer a artista que ensinou a ela este ofício, ou arte, ou passatempo, seja lá o que for; e terminarei de costurar, aprenderei como se preenche aquele colorido ponto por ponto. não sei se conseguirei fazer tão bonito, nem com tanto amor, mas uma coisa eu sei: meus amigos ganharão presentes diferentes daqui para frente. e minha casa ficará mais colorida. além disso, semana que vem é aniversário da Sofia, minha sobrinha, e - adivinhem - tem uma encomenda do céu para ela...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

é a corrente sanguínea. quente, grossa. cabe um deus nas minhas veias. a potência do que sinto está lá. vermelha.

domingo, 25 de julho de 2010

sou feita de encantamentos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

alguma coisa quebrou dentro de mim. ou terá sido tudo?

monto e desmonto o que parece ser lógico, eu tenho um coração (de pedra?), uma vida reclusa com um cachorro e um tapete colorido, o meu sorriso demora a aparecer e eu sofro demasiado. o coração ora bagunçado ora mergulhado e uma vertigem, vertigem real que tem nome científico, o meu eixo se movimenta em círculos enquanto continuo parada. desvelo-me em suspiros distantes. me emociono com o porvir que confabulo. alguém pegou uma parte minha que estava aqui?

grita uma mulher lá fora e se o seu sofrimento for real, não poderei salvá-la, como ninguém poderia.
eu já te disse que eu não tenho exatidão? que a minha matemática é tortuosa e meu espírito um pouco perturbado? não são forças espirituais, não tenho encosto ou coisa do tipo. mas em alguns momentos o meu espírito não me habita. fica como que deslocado, torto mesmo, como um escoliótico, andando enviesado. sim, para frente; mas com esta manquidão, um tanto delirado e vendo apenas palmo adiante.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

agora o tempo vai passar rápido. porque.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

vem, que eu sou a sua ira. entorte o pescoço para me encontrar. veja o meu vulto no poste da esquina, não o siga. não venha até mim. o meu cheiro é uma ilusão de sentido, um delírio vertiginoso. deixo um ansiolítico em cima do livro de cabeceira. o livro é memórias, sonhos e recordações. memórias, sonhos e recordações.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

é um delírio pulsante. daqueles de pular na cama - alheia. verte o vinho, as células encharcam. flutua, a pele dela é tão lisa. quando deus acerta num sorriso, até uma uma atéia melancólica como eu saltita.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

um certo demônio me habita
nada o contém, exceto as flores

alguém com um sorriso eterno
ou uma pureza d´alma

senão é a sujeira, o avesso, a crise, a desforra
o pó em cima do tampo da privada
a ressaca, a manhã perdida

vejo uma mulher montada na rua
ela é tão bonita
a vida dela é tão mais interessante
do que a minha, tão limpinha e virginiana

verso o desvio, louvo as noites mal dormidas
a confusão mental e a música alta
não é bem confusão mas vertigem
não existe caminho certo mas o desejo

este soberano

a minha boca pulsa

quarta-feira, 7 de julho de 2010

o amor é um percurso.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

eu escrevo.
não existe nada no mundo. a palavra é a única. e ainda assim é pouco.
eu teria uma coragem de viaduto se não fossem algumas coisas. o astor, sobretudo. se desse só para sair voando e virar nuvem. e voltar depois da chuva.
é tanta vida no mundo, que dá vontade de não viver. ninguém mais chora de emoção (nem na arte, nem no amor). as luzinhas piscam na cidade, no chão a gente pisa nas formigas. formigas? nem as encontro mais. matei todas com o spray. os anti-tudo mataram todo mundo. não ame porque está além da etiqueta. seja corriqueiro, não abrace, esteja atento ao celular e ao próximo ônibus. eu gostaria de ver alguém chorar de emoção. eu choro, mas estou sozinha, só o astor vê. talvez seja o único que entenda.

domingo, 4 de julho de 2010

a tristeza. é sempre uma espécie de brisa. vento frio que gela a alma. um desejo de recolher. juntar as células com um cobertor de mãe. ela não fala mais comigo.
a natureza, o olhar do astor, o chá que me esquenta um pouquinho. vejo na simplicidade da minha rotina uma saída para a minha dor. acordar, tomar meus florais (ânimo, equilíbrio), um suco de vegetais, assumir um trabalho que me preenche. ir à feira, dar dois passos a mais em direção a uma quadra que desconheço. sou um bicho recluso e solitário. estar só é tudo o que resta. é a saída mais elegante para a dor. para o desejo de estar no mundo.
é alguém que sorri para o astor na rua, sem nem me enxergar. uma mulher sentada no banco da praça sonhando ou esperando alguém. o guarda cochilando dentro do seu carro de sirenes.
existe razão no recolhimento. não é para voltar com a maquiagem feita e mostrar ao mundo olha o que eu aprendi! isto é para ficar. olhar o mundo daqui. meus olhos enchem de lágrimas.
um dia a mais em mim. um club de jazz onde a arte vence. discurso inflamado da atriz falando sobre a fé e o poder do erro. como em pessoa: (...) mas graças a deus que há imperfeição no mundo/ porque a imperfeição é uma cousa,/ e haver gente que erra é original (...), do meu poema preferido, o guardador de rebanhos. a arte é voluptuosa. o problema do erro é cravar uma ferida no coração alheio, quando é involuntária. mas isto é humano mais do que humando porque todos estamos sempre em alguma rota de colisão. inconsciente ou não, a potência está lá e o avião está sendo guiado. é sempre um chamado.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

na missa de minha mãe

veio uma criança falar comigo. Começou a pegar algumas flores que estavam no chão. Buscou folhas grandes e colocou em cima do banco. Em cima das folhas verdes, foi dispondo as flores. Enfileiradas. Perguntou o que eu estava fazendo ali. Por que estava chorando. Conversou comigo como se já me conhecesse. Disse que eu estava diferente. Protegi meu rosto do sol na sombra dos galhos. Tentei enxergar aquela menina como alguma espécie de enviada. Uma garrafinha em forma de gente, que traz uma mensagem.

domingo, 20 de junho de 2010

não tenho nada a dizer que já não tenha sido. abstratamente, a minha cabeça existe fora deste mundo. acredito que seja consumado o fato de eu não ter cabimento. tenho uma esperança inequívoca e impronunciável. a estranheza que sinto é.

do amor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

um micro-sonho. uma manta em cima do sofá. colorida. feita à mão. durmo plenamente sem arrepios.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

é no meio fio da existência. a palavra existe. no entre, na ausência. na casa desfocada da paisagem, no olhar indômito, na vertigem sustentada, nas entranhas do silêncio (o silêncio tem seu orgulho). no estupor e no sangue.
vestígio do dia anterior. um pedaço da sua jaqueta vermelha passou pela esquina da cardeal. na praça o sangue ainda brilhava no chão. dependendo da angulatura, o sol riscava a faca e me cegava em flashes. as minhas vísceras reviravam. não fui eu, disse. o detalhe da jaqueta me perturbava.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

é da ordem do impossível, do visionário, do vislumbre. o sentimento de mundo, inabalável. fico feliz quando atravesso minhas mazelas. construo três tijolos e derrubo dois. mas um é número que ainda me alegra. e eu sigo até o limite o meu sentimento de mundo. que seja ele agora o da lonjura do mundo. só eu estou no lugar onde devo estar. mais ninguém cabe aqui. venço minhas tormentas internas, traço genealogias dos meus erros e dou um sorriso no espelho. torno-me impossível. sou uma ilha no meio das luzes da cidade.
largo passados. enterro, ou já enterrei, muita gente. com ou sem partes de mim. com ou sem lamentações. muitos daqueles que achei que amei, ou achei que achei. dos enganos sobram metades (sempre prontas a partir). sombras finadas. quase como velar um corpo enganado. entrar no enterro errado.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

comecei a rezar. que não me apareça alguém super empolgado dizendo que ama a vida e que está pronto para me resgatar da melancolia. a vida está impregnada de aletoriedade. ainda bem.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

é um sonho-delírio, quem, ainda não conheço. uma vertigem de futuro. alguém que pode ser. estou sempre pronta para me tornar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

um brinde à leis universais e absolutas: a verdade sempre emerge, a verdade liberta, o eterno retorno é implacável e o juízo final acontece durante.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

o que fazer com a minha tristeza? levar para a rua e tentar desanuviá-la sob o risco de frustrar-me? ou deixar para trás?
caminho com as mãos no bolso. caminho pouco pelo mundo. o meu mundo está aqui, cincunscrito. neste tapete colorido que contrasta com as duas cores do astor (que são também as minhas). a geladeira mais ou menos vazia, os filmes que compro na esquina. está tudo aqui, obrigada. mande pedidos para outros feudos. aqui estão as palavras inscritas nas paredes, na cadeira de balanço, na colcha de retalhos que embala meu sono. acordo e durmo comigo. dou uma baforada e trago uma bebida forte. esquento meu âmago. é com prazer que brindo a solidão plena. com este meu jeito lento de ser. com o astor. estava com esta palavra guardada, tentei realmente ser discreta, mas a verdade é que estou em regozijo. obrigada àqueles que me deixaram só. daria gritos de felicidade se este não fosse um sentimento genuíno e compartilhado intimamente apenas com o meu cachorro, que, neste momento, tem pequenos espasmos enquanto dorme, profundamente.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

deserto de papel. quando ele está branco - o papel - eu estou deserta.

sábado, 22 de maio de 2010

eu não tenho exatidão. sou brava. sinto tudo duas vezes, ou mais. meu anjo e meu demônio negociam tudo a céu aberto (e não enquanto durmo). por isso tantas vezes fico imperscrutável. quando escureço sou capaz de morrer em carne viva. eu tenho uma tristeza incomensurável. um detalhe me faz amar ou odiar. passo tempos me sentindo em estado de demolição. em geral, gosto infinitamente das pessoas. sou gentil e pétrea. só o astor me redime com seus olhos cor de mel.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

o silêncio, eterno indecifrável. ninguém chega até mim.

domingo, 16 de maio de 2010

domingo este dia amanhece azul. tenho a rua, minha amiga. as luzes da cidade apagaram, não me distraio com elas. sim, as cores são do dia. as cores me distraem. sou um delírio em prosa. nada verborrágico, somente mais fluido que a poesia com seus versos que vão logo para baixo. vou ao mundo buscar o impossível.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

eu não me esqueci. apenas não sei onde procurar. quais palavras selecionaria para dizer. que seria um carinho (teria um gesto?). como um fruto que não foi aberto e apodrece. todos se apressam. a vida corre a cem graus, no limite entre. eu paro e lembro. não tenho mais o seu número. não sei mais o seu apelido. o seu rosto ainda me é claro, mas o cheiro, perdi. não foi falta de prestar atenção. mas tudo o que é efêmero voa, sobretudo aqueles que um dia pousam e decolam quase sem deixar rastro. com a sem-cerimônia dos passarinhos, que cantam todas as manhãs no meu entre-sono, sem que nunca os veja. eles só nos deixam existir à distância.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

soturnas, as estrelas estão frias. ou mortas, não importa.
Na ponta da alma. Eu vivo em torpor. Algo invisível. Despeço-me. Nada me vigia. Sou só e assim me visto (da minha alma). Liquefeita, por entre. De nada sou e de nada possuo. Deslizo por sobre a pele do mundo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

no meio do meu torpor, um desejo. é de se fazer? ou é de se lembrar?
um devaneio me leva até você. mergulho num rio gelado para acordar. é no canto. no canto da sua boca. eu chego. mergulho. desperto com os olhos entreabertos. sigo seu delírio. na ponta. ouço vozes um suspiro.

domingo, 9 de maio de 2010

é para minha mãe

Ela lê o que eu escrevo. Ela sempre leu as aflições do meu coração e soube fechar os olhos para rezar em silêncio, pedindo para aquecerem o meu coração, onde eu estivesse. E a verdade é que sempre apareceu algum mensageiro amigo, alguém que, na sua ausência, aplacava alguma angústia ou somente dizia uma palavra certa ou dava algumas boas risadas ou bons conselhos. Isso acontecia quando eu estava por aí na rua, viajando, longe do seu alcance. E agora é ela quem - aparentemente - está longe do alcance. Mas há uma certeza íntima e mesmo espiritual, de que ela continua mandando seus recrutas. Continua rezando em silêncio, pedindo para meus caminhos se abrirem, para que eu mantenha o juízo e para que todos os que estão ao meu redor estejam ao meu lado. Quando viajava, ela sempre dizia que rezava não somente para mim, mas para todos os carros, caminhões, ônibus, todas as pessoas que estariam na estrada naquele momento, para que todos viajassem em paz. Que adianta rezar só para uma pessoa? Então ela rezava para todos. E todos, acredito, deviam chegar em paz aos seus destinos.
Ela está, sim, em algum lugar, e continua ali, aqui, nãoseionde, aquecendo meu coração. E com seus lindos olhos azuis iluminando meus passos.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

é a música da minha vida. diz em mim suas palavras claras, os teus sonhos que um dia foram. a minha vertigem está no meu peito, e assim. são os meus olhos que veem as luzes da cidade, as esquinas, as placas azuis com nomes de ruas, o concreto quebrado das calçadas, as árvores asfixiadas e tão bonitas mesmo assim. são seus olhos o brilho incandescente um fantasma antigo. sigo o porvir. meu peito rebate segue na rota do horizonte. o astor me visita.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

são os olhos de uma mulher. no canto. é sempre de canto. o cabelo, pontiagudo, rasga seus cadernos de poesia.

no amor um vestígio. entrelaçado. vesúvio.

terça-feira, 4 de maio de 2010

é o cenário uma vertigem
a sua loucura posta em forma de céu
uma voz

domingo, 2 de maio de 2010

aos amigos

debaixo dos escombros do meu quarto com a minha sujeira o desalento a insônia atormentada e sem filtros (a culpa, o vazio, o medo, o quemsou)
sem remédios sem consolos sem nenhuma pílula que amenize o meu peito extravasado
chego até a meia noite do meu porvir com o torpor de quem quase não existe
sorvo a minha insanidade e nenhum telefonema pode me salvar deste labirinto
salvo palmas eu não lembro mais o que ela falou as palavras que usou
e foram elas - as suas palavras - uma espécie de passagem para um mundo real, que é este mundo do afeto (que tanto esqueço) e cultiva a doçura a partilha o amor do caralho que cria uma vírgula para o esfolamento da minha alma torpe e não só me eleva como me lembra quem eu sou e de onde vim

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ao vento, o que é efêmero
E então a gente entende que os sentimentos, os de verdade, podem ser profanados, blasfemados, queimados, esfumaçados e virarem pó. Podem. Podem atravessar todas as raivas, delírios, tornados. Os sentimentos, os de verdade, estão lá sedimentando mesmo que no pior no melhor, nas lavas, nas geleiras e nos carros que batem em alta velocidade. A força de um sentimento se mostra na sua sobrevivência, como um highlander que percorre o tempo mesmo contra a sua vontade.

Eu quase, quase não fiz uma curva hoje.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Parece um filme. O coração, esse músculo que muitas vezes invalida a nossa razão. Eu gostaria, se já fosse evoluída suficiente, de ter assistido a esse filme não em 3D - me assustando com os monstros que pareciam que estavam ali e não estavam, me deslumbrando com as imagens coloridas e achando que aquela era a vida real. Não, eu gostaria de ter sentado ali na platéia, à distância e com a plena consciência de que era um filme que estava passando. Que eu poderia me emocionar, rir, chorar, vibrar, sem sair dali (do meu posto, da minha forma original, da minha consciência) da tão regozijante sobriedade. A sobriedade é sempre um bom caminho. Mas a gente se perde no caminho, oras. Se perde no desejo, se perde na ansiedade. Se perde e ponto. Mesmo com mil anos de análise, mesmo com a teoria feita. Pode ser um segundo que toda a consciência pula num abismo e os demônios saem pelas ventas. E um dragão cospe seu fogo em tudo quanto.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

é o estupor uma brecha. a realidade é pouco delicada. não seria um beijo que te traria. só a mim, que deseja algo - que não é você e nem está no mundo. é nas brechas, a plenitude. suspensa.

terça-feira, 20 de abril de 2010

o vento, às vezes, leva. tudo fica. inconstante. movido em câmera lenta. a vida caminha com uma manivela enferrujada, como um navio que anda quilômetros e quilômetros e a noite e o dia permanecem inalterados. dias e dias e dias, assim.
os orientais, sábios, afirmam que não há mais noite do que meia-noite. e um dia, sem querer, sem um pedido urgente - no fundo, uma desistência, quando a luta já não é mais válida nem atroz, quando o coração para de implodir - acontece algo.
o vento, sim, leva tantas coisas. o apego, as chagas antigas, os temores. e a doce manhã nasce com um véu dourado no leme.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

desvelamento. dissecação. fruto. vertigem, sufocamento. embriaguez, vestígio. vinho. delicado, o toque.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

o amor tem nova roupagem. solícito, amigável. divide um vinho comigo?
ou eu diria, invertidamente, que o amor não existe. existe sexo e amizade. existe o vinho, a embriaguez, muita melancolia e muitos disfarces. vez por outra, encontros fortuitos. vozes, chamados. ora vorazes ora delicados. uns mais aveludados, outros selvagens. ou os dois juntos, sempre um tanto disfarçados de eternidade.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

eu não quero que você suma, nem sofra por algo ruim. eu não quero que aconteça nada em você nem para você. eu quero, sim, que aconteça algo com você, dentro de mim. que um sopro viril uma ventania que derruba casas um tornado te arranque do meu terreno. já consigo enxergar esta demolição, que você mesma provocou, e eu caminho no chão de terra batida e restos de sentimentos. ora prestes a desfalecer, ora alimentando os pássaros, que vez por outra pousam no nosso vestígio.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Corto todos os fios, dependências, lugares-comuns, não tenho mais porto seguro nem trocas profundas. Tudo se dá da forma mais prosaica. Com a realidade em absoluto impondo a sua força. Os analségicos atrasam ou retardam alguns entendimentos, mas dão também alguns empurrões. E dessa forma, encontro forças. Se é 1 mês ou 1 semana, fato é que tudo acontece lentamente como um filme de Bergman, com toda sua densidade. E não tem pílula de aceleração do tempo.
é um fio, que me anima. o astor, talvez, me tira da insanidade. a sua alegria tão plena e despojada contrasta com a minha envergadura.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cá começo. Com um vão da porta entreaberto, entrando um vento fino e frio. Um aquecedor recém-comprado e o Astor, este ser que sempre aquece meus pés. Estou novamente sem medos, seja de perder, seja de ganhar o mundo assumindo que meu olhar é este, com uma certa angulatura completamente diversa de qualquer outra. É no mais absoluto escuro imersa nos meus espelhos o dia passa com todas as suas tarefas mundanas e nelas eu encontro uma célula algo que permeia tudo. Um chá que já esfriou, a geladeira vazia e um pão velho que esquentei para almoçar e não comi. Da turva existência algumas coisas saem do completo embaçamento e vem à tona como verdades instantâneas - e que chegam a me dar certa felicidade. Um novo contorno se forma e na verdade me dou conta que nada tem contorno. Que eles são quase vazios e o sentido está somente em mim. Então tudo começa e acaba começa e acaba indefinidamente e meu espírito antigo fica preso à primeira imagem. Preso, não diria que seja a palavra, o meu espírito fica enamorado de uma parte e o mundo me devolve todo o resto aos solavancos. A culpa é toda minha, eu o sei, mas até hoje a troca foi, senão justa, linear. E agora tudo é não-linear, as trocas não são justas, e o tempo sacode todas minhas as células, entro em atalhos e juro para mim mesma que não voltarei e bastam algumas palavras doces para que eu volte. Faço listas e mais listas de afazeres e posso dizer que tenho cumprido com todos eles e talvez esteja no momento de dobrar a quantidade para que um dia eu consiga ser cinquenta pessoas numa só e se uma delas estiver sofrendo as outras 49 darão conta do recado. Eu estou entendendo bem a coisa toda, apesar da minha sonolência, apesar de estar sempre prestes a voar alto em direção a um buraco que não seja o meu vazio (o último suspiro de alívio), com este desgarramento e desamparo que me levam a sorrir para as pessoas e querer saber quem elas são, da onde vieram e o que as fazem estar ali. Um dia, será que um dia conseguirei viver em pleno arrebatamento que nada nem ninguém me tire daquele lugar e eu seja absoluta senhora de todos os meus atos, do meu coração, dos meus instintos e que eu seja uma força da natureza pulsando entre as esquinas entre as conversas de bar e reuniões de trabalho, de tudo o que resuma estar vivo? Muito feminino, este texto.
são poucas as vozes que escuto. o meu coração fala, e grita tanto, que lhe dou analségicos. o meu esconderijo é melhor do que todas as praças e constelações de pessoas. porque não é nelas que estou. meu olhar fica baixo sem estar resignado - apenas reluta em existir e não se tornar um bloco de concreto.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

é bom dar adeus. o rio tem e deve correr. e correr a passos largos e loucos. a vida pulsar intensamente seja na solidão seja em tudo o mais. nada nem ninguém ativa a batida do coração de outra pessoa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Tudo termina fora de mim. As sombras ficam aqui dentro, postais antigos que permanecem. Puídos, podem estar um dia. Mas enquanto acredito quase como vivo ainda naquele lugar. Reluto em morrer. Reluto te deixar morrer em mim. Porque você é tão bonita aqui dentro. E aí fora também. Mas a corda bamba mata a pisada falsa, o devaneio. Sendo translúcida, minha realidade não pode ser pontiaguda; como é o seu silêncio hoje. Enterro-me nos meus tapetes, nas almofadas, a água do chuveiro desfaz minha pele. Sou um coração em neve, com um corpo gelado sobreposto.
Obra Desejo, de Naiah Mendonça

segunda-feira, 5 de abril de 2010

aceita a partida. um pouco a menos a vida perde um brilho. e renasce em outro lugar. que ainda não vejo, mas vislumbro.
é a espera, uma amiga. o silêncio, um conforto. o meu olhar é novo. o meu rosto é outro.

domingo, 4 de abril de 2010

eu sou poeta. E assim serei sempre. Tenho tantas tristezas que não ouso contar. Uma vez mais me perdi como sempre estou. Nada me guia; somente o desejo. Não de ter. De sentir-me do outro lado, atravessando uma fronteira e entrando na outra, devagarinho e de soslaio (com um sorriso pequeno nos lábios). Vendo a vida um pouco mais esgarçada. Um pouco mais no meu limite. E é como se o vento batesse e pulsasse o mundo em mim.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

o Astor brinca. a manta me cobre do frio. não tenho mais frio de alguém. estou preenchida de mim. a minha casa é o lugar mais confortável do mundo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

refaz a trilha. desocupa os objetos. é inútil caminhar errado.

sexta-feira, 26 de março de 2010

a minha tristeza é peninsular.
é longínquo e puro. suave nas extremidades. soluço. o astor também soluça. eu tenho falta de sono. e fico longínqua. não queria nada além. nem ninguém. começo a existir nos detalhes.

quarta-feira, 17 de março de 2010

só tenho um coração. deveras confuso. melhor deixá-lo de lado, batendo baixinho, como quando estamos dormindo.

domingo, 14 de março de 2010

Hoje acordei disposta. Inteiramente viva. Ouvi Maria Callas e assim foi possível esperançar-me de algo novo. A música permanece em mim e mantem este frescor. Pois frescor é o que vou sentindo. Como uma eterna manhã, não apenas triste; brisa fresca é o nascimento de um sentimento novo. O Astor cuida de mim, já que sou só. Passeia comigo nas praças e traz a bolinha. Seja a hora que for, dá um chacoalhão até a ponta do rabo e está pronto. E estou assim junto com ele. Não é somente ele que me tira da cama. Nunca antes a manhã me animou tanto a viver. Quero acordar tão mais cedo quanto puder para me sentir viva. Quanto antes, melhor. Bom dia, estou viva, celebro. Um deus frescor me exalta.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

um desenho
um desejo solto
no papel
mais caneta
do que borracha

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

é a tristeza eterna
uma sobriedade me resta
não é a sisudez, mas tristeza, tão somente

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

é o próprio
ele mesmo, aquele que arrebata
infindo e depois desmonta
e monta novamente
eternamente novo e pronto
para desmontar

domingo, 14 de fevereiro de 2010

duas vezes
não me tornei um sol
um raio ligeiro daqueles flashes
puxou minha mão para dentro de mim
subi aos céus uma vez mais ao céu de mim

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

o amor
dura, infindável

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

é o sustentáculo do nada.
talvez não me guie por nenhuma luz. há uma enfermidade em mim.
a cura será lenta. com remédios caseiros. suspiros do astor.
delicadamente as feridas serão fechadas, com uma certa sobriedade.
e assim existirei, da forma mais pura possível.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

sonhei com uma flor. não esperava por isso. não tenho delicadeza.
saber-me só. não ter ninguém com quem. ter pessoas ao meu redor mas ninguém que seja. nada meu. apenas. somente a mim. entro um terço a mais de mim. sim, porque não me tenho por completo. tudo o que tenho, minha casa, meu cachorro, estão fora de mim. as plantas do jardim. as músicas que compus. um dia, sim, poderei. e neste dia, estarei na minha banheira vermelha com uma taça de vinho na mão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

soturno.
no meu quarto dorme do meu lado a virginia woolf. a sua alma me perscruta durante a noite. devaneio. ouço barulho de ratos. sou um delírio. ela escreve no meu corpo suas feridas. deixa suas pedras ao lado da cama. esta virou a sua casa.
Começar um texto com qual linha. Puxo diversos começos possíveis e nenhum chega a me agradar. É provável que eu esteja assim. Sem conseguir escolher por entre nada. Quase sem conseguir acordar e levantar da cama. Sorte estarmos no verão. O sol é um delírio pulsante, queima os fungos as minhas chagas as minhas vísceras expostas. A cena mais impressionante do meu pior sonho dos últimos tempos foi as minhas vísceras expostas em forma de ratos. Eles não vão comer a minha cabeça. Mas até o calor solar queimar toda a minha raiva, meus impulsos violentos, tudo o que eu escondi de mim mesma até hoje, vai demorar. Enquanto isso, não sou parte deste mundo. A sua lógica não me pertence. Não adiantaria guiar longamente por uma estrada a fim de me perder. Não há futuro. Sou eu e meu cachorro a olhar a janela. Começa com o sol, a chuva, a noite e suas luzinhas piscando. Não sou alguém a mais de mim. Na paisagem ali estão minhas entranhas. Eu nunca as tinha visto. É desgostoso não tê-las mais dentro, criou-se um buraco, um vazio amarrado no âmago.
Escrevo à mão num caderno antes de dormir, em cima da cama. O Astor raramente sobe na minha cama. Mas ontem, ele me olhou e eu entendi o seu pedido. Liberei a sua subida, ele deitou do meu lado e colocou o focinho em cima do caderno.
Não existe estrada, caminho, porque não há mais encruzilhada. Estou onde mais devo; a palavra sempre me salva do completo afogamento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

São os ratos os meus inimigos. Eu achei que fosse o Astor ou a água ou a torneira ou a caixa d´água. Mas não. Eram eles. São os atormentadores da minha alma. Depois de despertar e ver que não era o Astor nem a água, notei, perfeitamente, seus ruídos. Malditos. Eu os odeio com toda a minha força. Eles são algozes quase invisíveis. Somente quando estão já instalados que percebemos a presença deles. Eles são tudo o que tento evitar. A sujeira, a doença, a vida rasteira, todos os objetos inúteis que estão no meu porão. Objetos que não posso me desfazer porque "um dia podem ser úteis" segundo meu irmão. Não posso jogar tudo fora. E está tudo lá, atulhado no meu porão. São 11 horas e 11 minutos. Esta lógica também me persegue mas ela me lembra só coisas boas (este será outro post, dedicado a um grande amor). E não só me acordaram, como entraram sorrateiros no meu sonho. Tive o pior sonho da minha vida dos últimos tempos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

É no estupor que presencio a vida. Não tem o barulho da platéia para me distrair. Uma música de fundo toca só na minha cabeça. É vertiginoso. Não existe um ponto e vírgula para respirar um segundo ou dois a mais. Não sou muito prudente, nem eficiente. O ruído da rua é parte do sonho de que estou viva, de que a minha casa faz parte de uma cidade com um nome. Desde pequena nasci séria, as minhas rugas são de quem pensa mais do que sente. Há uma sutura invisível onde ninguém toca, e alguém já bateu nesta porta. Talvez um dia eu libere esta entrada. Talvez somente quando eu esteja na piscina no mergulho diário da minha inconsciência, ali seja o único lugar onde deixe o meu corpo não pensar. Eu penso sobre os telhados, as estantes de livros analiso cada parte que está à vista no mundo e um dia quando estou louca quando tomo as minhas cervejas, junto as imagens na minha cabeça enquanto ouço alguém falar. Sim, porque eu pouco falo e geralmente causo incômodo nos interlocutores. Em geral procuro pessoas que sejam falantes e arranjem assunto para preencherem o meu vazio verbal, a minha lacuna anti-verborrágica. Geralmente estou numa espécie de transe íntimo que não me deixa falar. O Astor saberia explicar isso melhor do que eu. Nos entendemos nas nossas pausas. Talvez eu seja um cachorro nascido de um devir gente.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

eu vento e desvio seu olhar

Vejam a página da Galeria Experiência, onde foi publicada uma poesia minha com belíssimas imagens feitas numa estrada próxima à Piedade, na madrugada de domingo. A Galeria é um coletivo que cria conteúdo em diversas mídias e tem se estabelecido no mercado com uma linguagem própria e de vanguarda. E porque eles sentem na alma o que fazem. Aos amigos criadores, fica impressa a minha admiração.

domingo, 24 de janeiro de 2010

é a tristeza, esta velha companheira. O Astor dá seu suspiro de alívio. Tomo um café com leite quente, como fazia quando meus faróis azuis ainda existiam neste mundo. Será que somos todos espíritos mesmo? Se não temos nenhuma crença o que eu faço com o sorriso de minha mãe que está todos os dias ao lado da minha cama, junto com uma caixinha de Nossa Senhora da Conceição com cartinhas, bilhetes de bom dia-bom trabalho, um guardanapo que guardei com a marca do seu baton. Essa caixinha, dada por ela, assim como todos os santinhos que me protegem. Conceição é minha protetora, foi o que ela me disse. Tudo o que mãe diz é sagrado. Quando ela dizia, vá, minha filha, não tenha medo, era a benção que precisava para seguir adiante para não me paralisar de medo do mundo, das pessoas, era uma espécie de analségico para as dores da minha alma os seus cafunés. As doenças da minha alma a sua comida as suas sopas as minhas paixões arrebatadoras sempre foram curadas ali, do seu ladinho. Vendo o carnaval pela televisão madrugada adentro.
A sua voz. Eu tive uma certeza, uma vez, quando ia entrar num ônibus para o Rio, que iria morrer. Era aquele o dia que iria acontecer a tragédia, o ônibus ia virar, cair num rio, e eu não poderia entrar ali para viajar despretensiosamente. Foi ela quem disse que eu poderia ir sem morrer.
E assim flutuo entre as imagens coloridas dos seus olhos, o seu corpo frio com os dedos cruzados, seus abraços de agradecimento, seus elogios de mãe, sua pele amarelada de UTI, suas cãimbras incuráveis; a sua foto do lado da minha cama no meu rosto mal reconheço uma certa juventude, a Sofia era um bebê no meu colo e hoje em dia ela atende o telefone e diz para a minha irmã: é a tia Paula, mamãe.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

que seja doce a manhã, meu amigo caio f. a.
doce, com cheiro de café da nossa bialetti
doce manhã com gosto
no seu edredon de patchwork
com uma música suave, que a manhã doce
perdure até a próxima

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Eu tenho uma tristeza que não acaba nunca. Eu tento, de todas as maneiras, das mais coloridas, às mais analgésicas, me disfarçar com ela. Mas o dia sempre começa triste.