terça-feira, 19 de agosto de 2008

Alegria estranha e outros mistérios

Tenho sentido uma estranha alegria. Não sei o que é. Mas apesar de senti-la, ela também dura pouco. Primeiro porque eu desconfio e a olho de esguelha. Último porque nunca estou completa e sinto o tempo todo a Grande Falta. Eu e o Caio Fernando. É um dia de sol e céu azul. Mas eu tenho uma nuvem particular de chuva com neblina ao meu redor. O tempo todo. Uma amiga disse outro dia que a felicidade ainda é um mistério pra ela. E, falando em mistério, o que interessa para o escritor é escrever tudo, mas nunca desvendar o mistério. Li isso ontem em Paris Não Tem Fim, do Vila Matas. Ele tem razão. É isso que interessa o tempo todo.

O autor póstumo

Não me trate como um criminoso. Eu apenas atirei em mim. Nunca cometi mal algum. Já salvei abelhas e formigas do afogamento no banheiro. Não venha me dizer que sou cruel só porque estourei os meus miolos. Dos meus miolos estraçalhados entendo eu. Fui eu quem me viu a primeira vez depois de morto. Achei-me admirável. Nunca tinha me encontrado tão em paz. Minhas dívidas estavam pagas e meu rosto sabia disso. Esse foi meu momento de glória, de amor , de lembranças, de exaltação coletiva por mim. Uau! Esse foi o ápice da minha vida! Quando me olhei desmiolado quase tive um orgasmo.
Mas agora eu já ando deprimido de novo.
Talvez fosse melhor desorganizar tudo. Reordenar a bagunça. Arrumar o armário e as lavar as roupas encardidas.Ou melhor: desorganizar tudo. Sujar a roupa. Colocar a louça no armário e a roupa na pia. Desfrutar o caos. Deixar a alma encardida.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

15h, velório

Visão distanciada é sempre bem-vinda. Agora, depois de mais de 1 ano, consigo agradecer em particular algumas presenças espetaculares que foram me dar um abraço. Pra ser sincera eu entendi menos da metade do que as pessoas me disseram. Mesmo porque algumas falavam enquanto passavam a mão na minha cabeça e com esse gesto de carinho extremo, de nervosismo, faziam ruído e tampavam meus ouvidos. Eu agradecia, somente.
Entrei me tremendo toda. Começaram a me abordar com compaixão. Bom, eu estava toda torta, com um dreno cheio de sangue saindo das minhas vísceras, com metade do meu corpo cortada e um fígado dilacerado e a primeira coisa que eu disse, eu não sei se eu disse em voz alta ou baixa ou somente na minha cabeça, "eu quero ver minha mãe". A morte, irredutível, sem consolo. Não levei um susto ao vê-la. A primeira coisa que fiz foi passar a mão no seu cabelo, como fazia tantas vezes para acalmá-la, para tentar aplacar sua dor, e ela me abraçava e me agradecia e ficava lá quietinha. Eu olhava uma duas três quatro vezes para ela e tentava, assim, fixar e fotografar seus poros, sua pele, textura, cor, cheiro na minha memória. Eu sabia que um dia iria precisar. E esperava que ela dormisse. E olhava seu abdômem sempre. Se ela estava entre uma respiração e outra, eu sempre me desesperava por alguns segundos e logo ela voltava a respirar.
E um padre filho da puta começou a rezar sem sentimento nenhum, sem inspiração nenhuma, errou os nomes dos parentes, e cuspia, cuspia pra caralho em cima do corpo da minha mãe, o filho da puta do padre. Se eu tivesse fígado teria mandado ele tomar no cu ali mesmo. Ainda por cima ficou pedindo dinheiro e quando alguém da família deu 1 real ou qualquer quantia baixa desse tipo, ele recusou. A cabeça dele deve arder até hoje e vai arder a vida inteira.
Eu mudava meu olhar de lado e todo mundo perguntava se eu queria comer se eu queria água se eu queria alguma coisa. Sim, eu queria, mas nada que alguém pudesse me devolver. Eu não chorei. Minha respiração era curta demais pra isso. Lembro da maioria dos abraços que recebi. Eu gosto muito de abraço.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

em casa

A única coisa que eu tenho verdadeiramente vontade de fazer é ir para casa. É o único lugar no mundo onde me sinto um pouco aconchegada. No resto, sinto um deslocamento, se estou no cinema estou pensando que queria estar na minha casa, se estou na minha casa gostaria (idealmente) de estar num cinema. Mas se estou na minha casa, pelo menos não tenho que voltar para algum lugar, é simplesmente lá onde vou ficar, talvez onde vou morrer. E do cinema ainda há um percurso, ainda preciso ter que pensar um pouco qual foi a porcaria de filme que vi e não senti nada no meu coração. É uma maioria de coisas sem coração que há no mundo. E todo mundo culturalmente vivo está aí atrás de tudo, quer ver tudo, quer conhecer o desconhecido e contar pros amigos que viu um artista em tal galeria de arte. Meus caros, o meu coração é o que importa. Então vou pra casa e fico olhando as paredes. E olho o teto, as cadeiras - olho três quatro vezes cada objeto. E é neles que entendo toda minha existência, onde reconheço que eu também sou uma parede, uma cadeira, um objeto meio bípede, meio desengonçado - e ali encontro todo mundo. Brindo com meus amigos com vinho tinto, celebro todos que amo. Robson Crusoé fez o mesmo, sozinho, delirante e bêbado na ilha.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O mundo anda emperrado. As engrenagens descarrilaram. Anestesiaram qualquer razão. Um sonho-vertigem, talvez um reecontro me voltaria aos trilhos.
Doce uma voz. Latido de cão novo. Acendo uma vela. Rezo. Lamurio. Dê-me uísque, cowboy por favor.