quinta-feira, 29 de abril de 2010
E então a gente entende que os sentimentos, os de verdade, podem ser profanados, blasfemados, queimados, esfumaçados e virarem pó. Podem. Podem atravessar todas as raivas, delírios, tornados. Os sentimentos, os de verdade, estão lá sedimentando mesmo que no pior no melhor, nas lavas, nas geleiras e nos carros que batem em alta velocidade. A força de um sentimento se mostra na sua sobrevivência, como um highlander que percorre o tempo mesmo contra a sua vontade.
Eu quase, quase não fiz uma curva hoje.
Eu quase, quase não fiz uma curva hoje.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Parece um filme. O coração, esse músculo que muitas vezes invalida a nossa razão. Eu gostaria, se já fosse evoluída suficiente, de ter assistido a esse filme não em 3D - me assustando com os monstros que pareciam que estavam ali e não estavam, me deslumbrando com as imagens coloridas e achando que aquela era a vida real. Não, eu gostaria de ter sentado ali na platéia, à distância e com a plena consciência de que era um filme que estava passando. Que eu poderia me emocionar, rir, chorar, vibrar, sem sair dali (do meu posto, da minha forma original, da minha consciência) da tão regozijante sobriedade. A sobriedade é sempre um bom caminho. Mas a gente se perde no caminho, oras. Se perde no desejo, se perde na ansiedade. Se perde e ponto. Mesmo com mil anos de análise, mesmo com a teoria feita. Pode ser um segundo que toda a consciência pula num abismo e os demônios saem pelas ventas. E um dragão cospe seu fogo em tudo quanto.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
o vento, às vezes, leva. tudo fica. inconstante. movido em câmera lenta. a vida caminha com uma manivela enferrujada, como um navio que anda quilômetros e quilômetros e a noite e o dia permanecem inalterados. dias e dias e dias, assim.
os orientais, sábios, afirmam que não há mais noite do que meia-noite. e um dia, sem querer, sem um pedido urgente - no fundo, uma desistência, quando a luta já não é mais válida nem atroz, quando o coração para de implodir - acontece algo.
o vento, sim, leva tantas coisas. o apego, as chagas antigas, os temores. e a doce manhã nasce com um véu dourado no leme.
os orientais, sábios, afirmam que não há mais noite do que meia-noite. e um dia, sem querer, sem um pedido urgente - no fundo, uma desistência, quando a luta já não é mais válida nem atroz, quando o coração para de implodir - acontece algo.
o vento, sim, leva tantas coisas. o apego, as chagas antigas, os temores. e a doce manhã nasce com um véu dourado no leme.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
ou eu diria, invertidamente, que o amor não existe. existe sexo e amizade. existe o vinho, a embriaguez, muita melancolia e muitos disfarces. vez por outra, encontros fortuitos. vozes, chamados. ora vorazes ora delicados. uns mais aveludados, outros selvagens. ou os dois juntos, sempre um tanto disfarçados de eternidade.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
eu não quero que você suma, nem sofra por algo ruim. eu não quero que aconteça nada em você nem para você. eu quero, sim, que aconteça algo com você, dentro de mim. que um sopro viril uma ventania que derruba casas um tornado te arranque do meu terreno. já consigo enxergar esta demolição, que você mesma provocou, e eu caminho no chão de terra batida e restos de sentimentos. ora prestes a desfalecer, ora alimentando os pássaros, que vez por outra pousam no nosso vestígio.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Corto todos os fios, dependências, lugares-comuns, não tenho mais porto seguro nem trocas profundas. Tudo se dá da forma mais prosaica. Com a realidade em absoluto impondo a sua força. Os analségicos atrasam ou retardam alguns entendimentos, mas dão também alguns empurrões. E dessa forma, encontro forças. Se é 1 mês ou 1 semana, fato é que tudo acontece lentamente como um filme de Bergman, com toda sua densidade. E não tem pílula de aceleração do tempo.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Cá começo. Com um vão da porta entreaberto, entrando um vento fino e frio. Um aquecedor recém-comprado e o Astor, este ser que sempre aquece meus pés. Estou novamente sem medos, seja de perder, seja de ganhar o mundo assumindo que meu olhar é este, com uma certa angulatura completamente diversa de qualquer outra. É no mais absoluto escuro imersa nos meus espelhos o dia passa com todas as suas tarefas mundanas e nelas eu encontro uma célula algo que permeia tudo. Um chá que já esfriou, a geladeira vazia e um pão velho que esquentei para almoçar e não comi. Da turva existência algumas coisas saem do completo embaçamento e vem à tona como verdades instantâneas - e que chegam a me dar certa felicidade. Um novo contorno se forma e na verdade me dou conta que nada tem contorno. Que eles são quase vazios e o sentido está somente em mim. Então tudo começa e acaba começa e acaba indefinidamente e meu espírito antigo fica preso à primeira imagem. Preso, não diria que seja a palavra, o meu espírito fica enamorado de uma parte e o mundo me devolve todo o resto aos solavancos. A culpa é toda minha, eu o sei, mas até hoje a troca foi, senão justa, linear. E agora tudo é não-linear, as trocas não são justas, e o tempo sacode todas minhas as células, entro em atalhos e juro para mim mesma que não voltarei e bastam algumas palavras doces para que eu volte. Faço listas e mais listas de afazeres e posso dizer que tenho cumprido com todos eles e talvez esteja no momento de dobrar a quantidade para que um dia eu consiga ser cinquenta pessoas numa só e se uma delas estiver sofrendo as outras 49 darão conta do recado. Eu estou entendendo bem a coisa toda, apesar da minha sonolência, apesar de estar sempre prestes a voar alto em direção a um buraco que não seja o meu vazio (o último suspiro de alívio), com este desgarramento e desamparo que me levam a sorrir para as pessoas e querer saber quem elas são, da onde vieram e o que as fazem estar ali. Um dia, será que um dia conseguirei viver em pleno arrebatamento que nada nem ninguém me tire daquele lugar e eu seja absoluta senhora de todos os meus atos, do meu coração, dos meus instintos e que eu seja uma força da natureza pulsando entre as esquinas entre as conversas de bar e reuniões de trabalho, de tudo o que resuma estar vivo? Muito feminino, este texto.
são poucas as vozes que escuto. o meu coração fala, e grita tanto, que lhe dou analségicos. o meu esconderijo é melhor do que todas as praças e constelações de pessoas. porque não é nelas que estou. meu olhar fica baixo sem estar resignado - apenas reluta em existir e não se tornar um bloco de concreto.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
eu sou poeta. E assim serei sempre. Tenho tantas tristezas que não ouso contar. Uma vez mais me perdi como sempre estou. Nada me guia; somente o desejo. Não de ter. De sentir-me do outro lado, atravessando uma fronteira e entrando na outra, devagarinho e de soslaio (com um sorriso pequeno nos lábios). Vendo a vida um pouco mais esgarçada. Um pouco mais no meu limite. E é como se o vento batesse e pulsasse o mundo em mim.
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