segunda-feira, 24 de agosto de 2009

tristeza. infinita.
uma falta anterior a tudo que faço.
vertigem eterna de qualquer gesto. um triângulo escuro.
a memória, esta voraz perseguidora. eu esqueço. esqueço quem eu já fui. quem eu era? talvez haja alguma coisa que me lembre, uma cicatriz. quem eu sou.
foi outro dia uma amiga, uma amiga nova, digamos, me disse. a cicatriz. era para me lembrar de quem eu era. mas quem eu era?
não sei o que era. era feliz? talvez não fosse. eu já era, já fui feliz o tanto que angústia sem nome. isso sempre. (e não é todo mundo?)
O caderno. Ele é impublicável. O caderno tem tons e cores incomunicáveis. Não como os afetos, estes incomunicáveis. Os cadernos. Aqueles, escondidos e fechados no armário. Seja minha amiga, não quero mais ninguém porque o ar me falta para mim mesma. Eu sou insuficiente antes para mim. Não tenho cabimento em esquinas e muros, a minha circunferência é circunscrita. Não sobro mais para ninguém. A minha utilidade é inútil. Gostaria de cantar, de ter voz, algum talento aplaudido. Ou não aplaudido, mas perene. É o Astor, ele me entende. Fica ali deitado em cima do tapete colorido. Ele nem sabe, mas é um contraplano preto & branco, fica bonito pra burro. Ele não sabe e suspira fundo, suspira lá na alma, que nem eu. Inspira e às vezes fazemos o ritual juntos, que nem eu e meu anjo devemos ter alguma sintonia de vez em quando. O que será que meu anjo da guarda fica tentando me dizer? Eu fico curiosa. Eu quero. Eu quero tanto alguma coisa. Não tem espaço para mais querer outra coisa. Pois eu só tenho essa coisa de querer. Com uma coisa só. E essa coisa é escrever. Caramba. Eu preciso tanto disso. E minha cabeça dói. Eu sei que é um aviso, eu sei que é uma forma de me lembrarem disso. Os índios, os espíritos aqueles moicanos que trabalham na floresta. Eu não tenho luz. Sou guiada pela palavra. E ela resume tudo.

domingo, 23 de agosto de 2009

eu já estou
apenas devo esperar o mundo me contemplar - com suas decisões às vezes certas
estou pronta
apenas diga sim e eu mergulharei no delírio do novo

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

uma poesia do e. e. cummings (para ilustrar este dia que estou sem)

na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos
eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres
eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;
(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:
(de atélogos e,cinzas)

domingo, 16 de agosto de 2009

um toldo branco protege a sala. é demasiado longa a história. deveras intrincada para uma versão superficial. a luz branca e estourada não deixa a cena transcorrer. a flacidez ambiente, uma certa nostalgia ao extremo, ou melhor, um clima um tanto fúnebre ou talvez soturno mas sem charme, completamente sem charme. a estética faz parte da tristeza. pelo menos um pouco, por favor. mas voltando a descrição da cena, o mais importante são as pessoas, como sempre elas dão o curso e são o curso da história, mesmo que os objetos sejam cafonas e opacos se há um charme entre os diálogos e a conversa flui de maneira pouco sórdida, está tudo bem. e tenham paciência um texto sem parágrafos exige certa concentração. tentei abrir meu dickens com sua ironia a perspicácia, mas sempre volto às minhas palavras e algo dentro de mim deve ser grato a isso. eu tenho um problema constante que às vezes eu estou nos lugares mas também é como se não etivesse. e muitas vezes tenho vontade de soltar o ar do fundo dos pulmões que deixo retesado enquanto não me encontro enquanto as pessoas não me deixam à vontade com seus olhares castradores e sua pouca generosidade. a minha voz fica embargada e parece até que enrouqueço. não tenho mágoas, está tudo bem para mim. é o amor, ele preenche tudo.
Não existe uma densidade confortável. Há que ser prático, e útil. Passar o café e tomá-lo, ir até a feira e conversar com os vendedores. A vida não se dá em somente reclusão. O espírito necessita da aurora e suas veleidades. Algo mais insano porém competente da ordem das coisas da concretude, é absoluto. Um dia a mais o nascer do sol comprova o céu azul atesta: a vida correndo nas veias não é transparente.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

É uma noite escura, lugar onde nada tenho. Um papel vazio, o pensamento branco não preenche minhas lacunas. Sou eu, digo. Não escuto. Te respondo com calma e tênue. Um pensamento duas vertigens deslizo. Não objeto não discuto com nada sou um substantivo solto; te amaria se fosse. Sim, nas minhas coxas na taça compartilhada de vinho numa ambulância urgente e silenciosa com suas luzes reverberando céus e entranhas. Sou um brinquedinho fácil como uma massinha moldada para estar. Inacessível.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

um vento, uma noite

É um sentido pleno: eu gostaria de achar as palavras. É nelas que sempre me encontro, ou na música. Mas sempre no silêncio, na cadência do Astor roendo seu osso, no barulho da rua com seus carros que passam em massa quando o farol da João Moura abre. Na música instável do Beirut, com sua tristeza implícita e um tanto também de alegria, como somos todos. Eu não queria perder nunca ninguém, não queria que alguém passasse despercebido e nem que os amores fossem tão contemporâneos. A vida passa num ritmo de cavalgada e nós lá em cima só percebemos os movimentos dos músculos do nosso bicho e um balanço suave. Escreveria assim a noite inteira, num contínuo afã de mim mesma, como que drogada embebida potente e inacabada. Uma força um delírio uma súbita vontade de expressar tudo, isso eu tenho o dia inteiro mesmo que no trabalho mesmo que no horário no atraso na pressão eu quero eu tenho que conseguir descrever tudo isso como se eu fosse e não fosse ao mesmo tempo o que eu sou. Uma sorte de estar sóbria mas também poderia estar fora de mim como quase estou sempre com minha própria pele e desejos. E eu desejo desejo de um tanto tudo até virar uma árvore eu desejo. Sou inteira um próprio desejo.
Não tenho resto que não seja, quero abrir as janelas e ver o telhado molhado seco de árvores o cinza a poeira baixando. Tenho prazer imenso em levantar poeira. Uma aventura para mim. É uma surpresa esperar o que virá. O Astor dorme. Uma direção de onde vou.

sábado, 8 de agosto de 2009

devaneio infantil (para a sofia)

Eu achei que meu cachorro fosse um sapato. Nos meus sonhos debaixo da cama eu dormia debaixo da cama quando eu era criança ou então acordava virada de cabeça para baixo quando eu estava muito perturbada. Eu só tinha meu quarto, a minha cama era meu mundo e eu tomava leite quente com nescau antes de dormir. Era de noite e eu vi o Puff, o meu cachorro se chamava Puff e era um negócio preto com patinhas douradas. Fui até o canto da sala e acariciei os sapatos do meu pai. Nada melhor do que ser sonâmbula aos sete anos de idade. A vida era um tanto mais larga e tínhamos sempre algum bolo em cima da geladeira para comer antes ou depois ou mesmo como se fossem as refeições principais. Uma noite de calor acordei gritando com a cabeça dentro da bacia, dizendo: o macaco está na privada do banheiro! Um dia fomos assim divididos entre a imaginação e a realidade, éramos despretensiosos e ninguém ainda tinha morrido. E eu salvava passarinhos.


Este texto é para a Sofia, minha sobrinha linda que hoje completa 3 anos e me deu um dos abraços mais deliciosos da minha existência.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

voa

tem coisas que demoram para começar
outras que nunca
assim, ir, é sempre novo
é também mudar de rota

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

acorda, tristeza

Seja um remédio que me tire do entorpecimento. Um energético uma vitamina uma cápsula de vidro que esfacele toda a minha tristeza.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um outro. Dê-me outro nome. Estrague as minhas ventanas. Entorpeça-me. Ouço algo e não dou conta. É o silêncio, este abraço vazio.