sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sim, foi quando você me ligou e eu disse que estava tudo bem. Mas menti. Eu não estava bem. Não estava. Estava na cama, com dor em tudo, com dor de ontem, com um uma sensação de derretimento. A minha cabeça meio estranha, não sabia se pensava que devia ou não ter feito o que era ou não para ter acontecido. Se no banheiro se na pista se no corredor se naquela hora que você me olhou enquanto eu fechava os olhos para dançar. Olhinhos fechados. E naqueles corredores intermináveis as paredes floresciam e você desfilava no seu corpete vermelho como uma musa antiga como se estivesse em outro país e neste momento eu não sabia mais o meu nome. Tanto faz na verdade porque em qualquer lugar do mundo as paredes vermelhas o papel de parede os candelabros as luzes baixas o banheiro a bebida. Eu prefiro não lembrar o meu nome. E talvez nem me comunicar em qualquer língua. Porque falar é por demais estranho e nunca diz o que o coração. O coração está sempre sozinho num canto entre paredes ou subindo por elas ou trancafiado ou tomando uma ducha fria fato é que ele nunca está lá. Fico sentada numa cadeira de veludo bordô pensando enquanto passam as pessoas estranham como ela pode estar sentada pensando --ela é poeta. A bailarina chegou.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Eu te diria, depois de tomar uns vinhos. Caramba, eu te diria tantas coisas. É tão soturna a minha existência. Não sei nem como tenho tantos amigos. E os amigos são como plumas. Flutuam num ar sem escapes. Muitas vezes você quer pegá-los e eles voam em outra direção. Então eu, no fundo, não tenho amigos. Porque no fundo está cada um tocando a sua vida. E todos estão certos, eu que devo tocar a minha. Mas eu não tenho vida, tenho uma casa e um cachorro. E assim minhas coisas funcionam, entre os afazeres comezinhos. Muitas vezes tenho vontade de sumir. Desaparecer mesmo. E levar o Astor. Num pasto longínquo com vinhos e plumas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A solidão é um intuito. Eu tenho saudades de alguém que já fui.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eu tenho uma flor para te dar. Está guardada, no vaso, com água. Tem uma cor nela, somente uma. Mas é assim: eu te daria. Mais provável que não dê. Dizem que não damos aquilo que não temos. Mas eu tenho uma flor para te dar. O que talvez seja.

domingo, 30 de outubro de 2011

era um artista. era ele tocando violino nas esquinas de pinheiros. seria um tanto complicado fazer a genealogia de um poeta. o telefone não toca neste domingo a noite. a noite, não é fria, aqui dentro. ouço um novo cd comprado ali na feirinha de discos. meu avô tocava aqui pelo bairro, os taxistas da joão moura lembram dele. seu herculado descia aqui para tocar pra gente. lua sem fim na esquina da cardeal é onde eu espero os táxis quando saio a esmo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

o vinho tem uma senha. um delírio mesmo. imperscrutável. vertigem fluida quase consciente. volto a escrever! eu teria uma musa. mas eu tenho o astor.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Do amor eu sempre sonho. Na latitude uma vírgula, uma vírgula me faz continuar. Viro à esquerda, vejo uma mulher bonita, apressada. Eu teria um mundo todo. Ouve uma música bonita. Sem agudos, uma música sóbria. Sejamos sóbrios. Teria uma vírgula. Somos nós. Os objetos repousam, meus livros repousam sobre a cabeceira da cama. Eu sonho. Não com o amor. Eu sonho como o amor.

domingo, 11 de setembro de 2011

Eu poderia ir exatamente agora. O essencial já me foi dado.
Pois essencial mesmo é o Astor abanando seu rabo. O resto é uma coleção coletiva de neuroses e pessoas famintas. Despeço-me, mais uma vez, das minhas carcaças, tiro minhas peles, desvisto-me. A minha solidão é pura. Eu sou, infimamente. E essencial é nada. Vivemos em meio a barbárie, e isto, nada mudará. O comum é absolutamente torto e o massacre cotidiano segue seu curso. Cortam-se os laços. Não há banho sagrado que resolva. As belas vozes somente alguma arte pode atingir um coração. A natureza com sua beleza estupenda. Eu sigo meu curso, despetalado, com alguma sobriedade. Com o Astor abanando seu rabo. E é isto, somente, e talvez nem isto, que me leve ainda adiante.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

é sóbrio, dança. refúgio. elíptico. eu te daria adeus não fosse o nó do meu peito. quando ela disse: aqui, no seu coração. estava parado ali. um resto de muro, talvez pichado. de repente fiquei leve, fortuita. olhei o mundo como mundo. (mundo é contrário de imundo. foi o que minha amiga, a filósofa, disse). a sua forma física é o amor declarado. parece que não, mas é.

domingo, 17 de julho de 2011

porque o amor pode ser totalmente cego, como pode ser totalmente cru. com um vestidinho xadrez, num silêncio vespertino que repercute na temperatura do final de tarde. sol de dia, de repente um frio sepulcral obriga-me a esquentar a água para fazer um chá de hortelã natural. uma música que começa triste e termina apoteótica, daquelas que dão vontade de correr, de pegar uma estrada, fugir do mundo para não se encontrar. nunca mais, a estrada nunca mais será a mesma. que daria de mim dizer que te amo e que sofro de perder-te? vespertinamente a temperatura cai. um frio entra pelas frestas do meu vestido, o meu pescoço endurece. a minha nuca. seria feliz com o seu beijo. o amor pode ser totalmente cru. pode ser uma lâmina, um gilette fino a estratificar a pele em linhas de sangue simétricas. pode ser uma abelha a zumbizar de agudezas o espírito. daquelas que atormentam até a morte, até o vergão furar a pele. agulha-lâmina, sóbria, vertiginosa, insistente, gradual, impoluta.
eu seria a sua vertigem. crescente, um tornado; da natureza extrai. ataco instintivamente um animal que não me ameaça. é o instinto. porque eu quero, eu gostaria. eu teria que. o astor se desvencilha da coleira. cegamente se mistura a outro animal. o meu instinto deve intervir. mas o meu instinto também é ele, assim embuído de cólera, sem guia, sem coleira, sem freio. caninamente ataco no meio da rua, a luz do dia, com os donos educados cumprimentando-se polidamente. o astor recua e me obedece. ele não sabe a que ânima atender, então cede. o outro cão não reage. somos dois animais, eu e o astor, a brigar com o mundo com a nossa raiva incontida e inexplicável.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

só existe um amor no mundo. exatamente aquele que você perde. numa estação de trem se despede. o mundo nunca mais vai te dar o mesmo, nem parecido, nem próximo. e lá você segue, sozinho, com o passo no ritmo do teu cachorro, para não parecer tanta dor. em frente, com o peito extravazado, pensando no passado. que lástima. que saudade. o mundo perdeu uma boa oportunidade de dar um amor certo. e por quê? a vida segue. no ritmo de cavalgada. os outros casam, descasam. enquanto caso com a poesia, de novo, para não me perder, para não me dar. passo falso, este já foi dado. e por quê? a vida segue.

domingo, 5 de junho de 2011

ah, sim. a sua boca, uma fronteira vermelha no mundo. divide sanidades.
tocou a sua música lá na rua augusta. subindo a ladeira coloco aquele fone de ouvido meio remendado. faz um frio danado então penso como é bom estar sem você. viver longe das obviedades tem um sabor.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

talvez no momento em que eu fosse sua, todas as portas seriam fechadas. as janelas, sim, estariam escancaradas para a cidade. o acesso do mundo a mim é sempre restrito. sem incômodos, abro as janelas e pergunto se querem entrar. por ali, de escada, pela varanda, pelo sótão. entrar pela porta é deveras trivial; e não há triunfo nisto.

domingo, 8 de maio de 2011

veja bem. eu não me assustei quando você disse que saberia onde estavam as chaves da minha casa. o fato de tê-las escondido de mim deixou-me irritada, justamente pelo fato de não gostar que se mexa nas minhas coisas. aquela música experimental que tocava de fundo me perturbou ainda um pouco mais. era uma música muito racional. quando é assim, o meu lado neta de compositor resolve gostar de música feita para músicos, cheia de esteticismos, mas esta era chata e com uma dosagem um pouco errada. toda sorte naquela noite estava intrincada ao fato de eu gostar de você mas sentir/saber que algo estava desencaixado. era tudo muito conceitual.

obra de leonilson

sábado, 7 de maio de 2011

dança ao longe suas respostas indefinidas. salta sobre as escadarias o seu corpo perdido encontrado de lonjuras. numa vertigem sinto toda a sua tristeza. quase te ligo para perguntar por que está tão triste. quase. enquanto as coisas se transformam, hesitamos em tantos quases. vejo um borrão na minha frente, alguém que não se encontra ao centro. quase palmo errado a sua distância. sem circunferência, sem volume. pouco selvagem a sua natureza está introvertida. não tenho mais lágrimas por você --já tive muitas-- o desejo de ouvir sua voz vagou por entre noites e galhos de árvores secas. nos tornamos destas árvores que ornam o outono com apenas a casca a existir rachada sem raízes.
desculpe caso a minha visão não tenha te alcançado. estou cá tomando chás de ervas calmantes. todo modo o alcance é outro. nada alcança. sim, a música e o amor. se for amor, puro, de beleza imaculada, ali chegará. na parque da luz, na estação de trem lotada de trabalhadores, estou ali com o olhar apurado buscando a estação certa. não há razão para se perder. música bonita.

domingo, 24 de abril de 2011

sábado, 23 de abril de 2011

eu gastaria muitas e muitas e muitas palavras para dizer o quanto te amo. seria divertido procurá-las. demoraria muito mais do que um feriado prolongado. seriam necessárias muitas músicas lindas para me inspirar devotamente a encontrá-las. os passeios com o astor seriam repletos de lampejos e vislumbres semânticos. depois de muito vinho também para o pensamento elevado atingir as expressões mais em cheio. é provável que precise de músicas românticas ou mesmo de algumas do abujamra que você tanto gosta, aquelas que falam do contentamento de estar ao seu lado. foi bem na hora que você segurou a minha mão durante o show dele ontem. era da alegria que ele falava? achei tão lindo você pegar na minha mão. fiquei sem reação.

para DB

sexta-feira, 15 de abril de 2011

foi o maestro que falou a palavra gago, ou seria soluço. aqui na minha linguagem seria uma vírgula ou mais. são os seus círculos as suas indecisões. é um lançar-me no escuro. o maestro tem razão. é um soluço. quando não se expressa a palavra, se soluça; quase.

domingo, 10 de abril de 2011

era um querer a sua ligação. em todos os laços há um aperto, outros frouxam até tornarem-se linha solta a balançar com o vento. eu teria ido embora quando você disse a palavra machucar. é proferir algo iminente. quem falaria esta palavra não tendo em absoluto esta intenção. um cuidado exarcebado? diria que não: era melhor um abraço.

segunda-feira, 21 de março de 2011

foi naquele abraço apertado, quando você me disse: estou com saudades, que nos despedimos. talvez para sempre, talvez por um longo tempo até que num sonho a gente volte --volte a ser, ou nunca volte, mas reconstrua o nosso castelinho desmontado. porque não é premissa do amor o encontro. muitas vezes ele é ou está longe, inacessível. mas é amor, saudade. esquecendo a cor dos seus olhos. esquecendo do eco da sua voz dentro de mim, que sempre foi uma lufada quente a pulsar e distribuir uma exaltação pelas coisas. e como eu vejo as coisas e quero te mostrar! será que eu junto tudo ou esqueço até me despetalar? na dúvida, fico aqui na minha margem te vendo saltar ao longe. fica um contentamento antigo no meu coração.

terça-feira, 15 de março de 2011

qual o fazer no mundo, me diga com as suas palavras. estar à tardinha anoitecendo, em qual graça me vejo? suponho estar no mundo. mas talvez não esteja e talvez a minha falta seja despercebida. tenho a força de cavalos cavalgando tanto quanto o ritmo das árvores. alguma coisa se perdeu. não ouso procurá-la porque sei que estará quebrada. gostaria de viver algo extraordinário, como nos meus sonhos.

terça-feira, 8 de março de 2011

começo a aprender a me domar. é aquele certo demônio que me habita. mas é um traidor. portanto, devo ensiná-lo a dar a patinha.

sexta-feira, 4 de março de 2011

indomável.
irascível.
a natureza volta para cá. derruba árvores o asfalto fica empilhado de raízes. a sua inexatidão, sonhei com você. era um abraço, tão longo quanto silencioso. e você me dizia: eu sei.
eu sei que a sua natureza, a minha, nós somos indomáveis. o ímpeto, o soco, a nossa maneira de amar ou de machucar tem essa potência esmagadora. assim, aprendemos a ser mais sutis. depois de derrapar e capotar nosso carro ainda achamos os vidros quebrados um tanto poéticos. mas eram vidros quebrados. o vento, a chuva e as tempestades não nos pouparam. quando você me disse, eu sei, no fundo era uma forma de perdoar a minha cegueira. de não brecar quando acelerei sorrindo. no sonho, você me abraçava com amor.

terça-feira, 1 de março de 2011

uma volta. aqui. para mim.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

talvez um meneio de cabeça, um canto de sorriso, uma forma aberta de entoar as palavras. sou eu tentando ser um pouco você. para matar a saudade, para um dia te encontrar no espelho. enganar-me com a saudade que é de você e isso a gente nunca resolve. lá no meu cantinho, no edredon colorido dos meus sonhos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

era a sua tristeza, a minha. o teu rancor, a minha derrocada. a tua iluminação, o meu túnel. não te vi senão sob a lua. e já foi o bastante para inebriar os meus sentidos por entre os prédios. e as luzes da cidade (sempre elas). encanto-me na minha sozinhez, toda a minha conduta está dentro de mim. conseguisse eu ser alguém para fora, um dia. estaria brilhando entre as árvores, no meio da natureza com o brilho das águas. os brilhos, eles sempre me distraem. foi um canto de lua que rebateu em você. a partir daí o mundo precisou de legenda e eu não pude mais ter palavra. foi a mudança de tempo, os trovões, a enxurrada que te levou de mim. notei que estava só e não me lamentei. continuo sem legenda, nem por sobre mim mesma.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

um desarranjo do meu próprio sabor. daquelas armadilhas que só a gente sabe criar --e cair. eu fui ali, na esquina, em qualquer lugar, na rua, em qualquer lugar mesmo, tanto faz. no devaneio, no delírio, deslizei por entre a seiva daquelas paredes, o meu sangue. perdi, daquele tempo, um tempo curto, são poucas horas ou poucos minutos para se derrubar uma árvore centenária. estou lá derrubada, em tantos pedaços que tento juntar com o mesmo cuidado com que eu mesma ia lá regar, todos os dias. acaricio meus próprios cacos na esperança de revê-los um dia. ali, suturados (eu já fui tantas vezes cortada!). talvez somente o amor, e como é bonito o amor.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Foi muito tempo depois. Muitos meses entre acontecimentos sem sentido. Senti a baba de um deus maldito escorrendo por entre minha testa. Corroía meus pensamentos e eu ainda não sabia nomear qual era o meu sentimento. O ímpeto ia e voltava sempre na mesma medida. Eu agi, muito timidamente. Um vestígio virulento ainda permeava o sentido, ao mesmo tempo fugi de você, fugi como um encarcerado foge das suas lembranças. Eu gostaria que você estivesse confortável aqui dentro de mim; ou apenas que me deitasse ao seu lado, com a nossa pele dividindo uma fronteira quase sutil. Eu deveria desistir, jogar uma garrafa vazia no mar e deixá-la ir embora para que o meu próprio vácuo fosse preenchido, um dia, com a água salgada do mar. Uma garrafa vazia, boiando sobre as ondas sou eu tentando chegar até você.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

é o que o caetano diz: se eu pudesse, matava o natal. no livro dele, verdade tropical, ele conta que ele e bethânia tinham esse jeito de falar quando não gostavam de algo. ele conta que os dois estavam num ponto de ônibus quando eram meninos e, enfurecidos com a onda consumista do período, soltaram essa. e ele explicou, depois, que eles sempre falavam desse jeito. na entrevista que ele deu para a revista serafina, da folha de são paulo, veiculada no último final de semana, ele falou desse jeito sobre a cocaína. que se ele pudesse, matava a cocaína. achei muita graça ter entendido este comentário dele, depois de tantos anos da leitura do seu verborrágico e encantador verdade tropical. e achei graça por ele continuar falando desse jeito, como se estivesse ainda lá em salvador, na sua postura de irmão mais velho, cuidando da jovem bethânia, que estava pê da vida por ter ido embora de santo amaro. muito fofo ele manter este certo mau humor com algumas coisas, uma birra meio infantil que vira e fala: se eu pudesse, matava. parece um comentário pesado, mas se lembrado junto com este fato do ponto de ônibus, torna-se ingênuo. em tempos em que as crianças cantam pega um, pega geral (e no sentido estrito, de pegar e bater e matar mesmo) é bom lembrar dessa historinha de caetano e sua irmã. muito bonitinhos os dois querendo matar o natal.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

foi no espelho que ela olhou. um detalhe, no canto da boca, onde daria para resvalar um beijo. sustou a voz --a voz de jazz a sua voz uma clareira-- e lá naquele detalhe ficou à espera que crescesse e se tornasse a sua morte. um detalhe que era uma doença, mas não evaporou; corroeu seu rosto depois seu cabelo e nem deu tempo de se despedir. ela já foi embora? e só agora descubro a sua voz?

para eva cassidy

domingo, 30 de janeiro de 2011

a tardinha se põe. com a delicadeza de uma mãe que coloca o filho para dormir. com um beijo na testa, sobe o lençol até o pescoço, apaga a luz, fecha a porta suavemente e sai do quarto. a tarde se põe, delicadamente. as luzes dos prédios começam a aparecer, enquanto a tarde ainda está azul escura soprando uma brisa nas folhas das árvores. não acendo as luzes para não perder o espetáculo íntimo que assisto da minha janela.

sábado, 29 de janeiro de 2011

foram palavras de amor que te disse. a última vez que nos encontramos --quando seria, talvez nesta vida, talvez eu ainda tivesse os órgãos inteiros, naquele dia eu tinha os olhos vermelhos e fomos ao supermercado, encontramos aquela atriz que falou durante meia hora sobre mapas astrais e eu só conseguia pensar em ir embora para a minha casa encontrar o astor abanando o rabo para mim. são tristes todas as datas em que me lembro da beira do laguinho da barra do una onde víamos aquela faixa de areia que parecia um deserto mas tinha uma praia escondida atrás. e um dia eu mergulhei não sabendo que tinha meio metro de profundidade, poderia ter batido a cabeça, levei um susto quando vi o chão logo ali.

seria o seu peso em cima do meu corpo que não está mais aqui e não tem nada no lugar, apenas eu, com a minha insólita existência. acabaram todas as distrações, tirei as bebidas de casa, todos os analségicos, todos os amortecimentos da minha alma insone, inquieta, perturbada, indecisa. hoje eu tomaria uma morfina para ter sonhos coloridos ou doses cavalares de qualquer remédio que me devolvesse um pouco de tranquilidade. e assim nem os malditos mosquitos perturbariam a minha vigília delirada e eu poderia pensar o que quisesse e não só pensar como acreditar, o que tornaria tudo muito mais interessante.

não tem nada que preencha um vazio quando você se dá conta, na sua natureza, de que está só. não são os amores nem os casos nem as lembranças nem os amigos nada nem ninguém te tira de dentro daquele animal que te engole inteiro. qualquer reação é inútil. debater-se, chutar, gritar, nada disso te tira dali de dentro. e se tomar remédio, fica de castigo, porque a natureza é implacável.

se eu não desmaiar, desfalecer nem perder o ar, eu voltarei. mais jovem, como no meu sonho.
uma vertigem. dessas que não se acha o começo. maria callas canta novamente. não para o frescor, não desta vez. para o lugar onde nada tem nome.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

é da natureza, o brilho dos seus olhos. uma natureza revirada, noite revirada e lenta. não te vi mais.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

uma fresta. um canto escuro. delicado. sem sentimento. ininteligível. um tanto amorfo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

nada sobrevive ao tempo.
tenho faltas e tristezas. o mundo às vezes me completa. olho e tudo faz sentido, uma amplidão sobrevoa meu pensamento. por outras, tudo é desconexo e me falta compreensão. me falta um abraço apertado, um sentimento de pertencimento ou um amor eterno. as pessoas vão embora. amando ou não. elas vão embora.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Hoje acordei com uma gota de sangue nos meus olhos. Dizem que não é nada. Eu não sei. Talvez eu tenha morrido no meu sonho, enquanto a médica dizia que o meu fígado parecia de uma mulher de 50 anos. Eu devo ter sofrido durante o sonho, para que meu olho estourasse uma veia deste jeito. Acordei e me assustei com o vermelho no lugar do branco do olho. Eu não devo fazer nada, ao menos na minha vida real. Está tudo bem comigo, gozo de boa saúde. A mulher do meu sonho deve ter me alertado para algo que ainda não sei o que é, mas suponho. De toda forma, queria ligar para alguém. Para algum vidente, que nem o do filme do Clint Eastwood. Alguém que me assegure que uma veia não vai estourar de repente na minha cabeça. E de repente, puff, eu paro de existir. Ninguém pode ter o dom de dizer isto. Apesar de eu ter sempre achado que viveria muito e que todas as minhas mortes eram simbólicas --e foram até agora. Talvez esta continue sendo. De toda forma, gostaria de continuar me sentindo um pouco amada, mesmo que seja somente pelo Astor.
O sino da igreja toca.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

um dia, talvez, eu possa explicar. eu gostaria de encontrar as palavras. quem sabe num dicionário de palavras afins, ou num dicionário de rimas, ou num dicionário que nem o que o chico buarque usa. e aí tem palavras de cumprimentos e dáudios, júbilos e regozijos e palavras que dizem da felicidade e da alegria. e entre as expressões que falam da alegria está uma que diz despir o luto. e então elas começam, neste momento, a fazer algum sentido. (tem amores que são eternos). as palavras abrem fresta no espírito. um dia vou conseguir me explicar. falo apenas do amor, dos amores quando são eternos.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

são os recomeços. a vida em nova voltagem.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

um dia a mais a minha história recomeça. mas recomeça de um ponto conhecido; não estou aqui a navegar em águas tão turvas. as músicas ritmam a toada e sigo. sem beijos e tchaus. um dia se dá um tchau e assim por diante a vida segue sem delongas. o que é, é. o que não é, já foi. na augusta se papeia. se bebe, se vê. nas esquinas se conversa. no mundo se adianta e se emancipa a vida. empurro as minhas verdades adiante mesmo que delas não parta a certeza. o que são certezas, afinal? quimeras. são apenas quimeras onde se procuram os platôs. os platôs das certezas duram segundos, como flashes de sentimentos soltos que duram madrugadas. as madrugadas não duram, sejam acordadas sejam em pó. em pó sem remédios, devo dizer. quando estalo os olhos nas geometrias das minhas janelas, aguenta o tranco e aguarda o tempo. pega o diarinho e escreve a mão, que assim demora mais. ouve um radiohead. ouve dois radioheads. fica lá um pouco triste. tira a dúvida na régua, lança um dado, joga os búzios, os mentais, factuais, as vertigens, os pormenores, faz a rima. o astor deita aqui do meu ladinho. lá se vai mais meia hora. e lá se vão mais horas e horas. o tempo contado no mundo passa melhor que daqui da minha janela. vira a madrugada lá na rua, a perspectiva é mais relevante.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Primeiro, pode parecer difícil levantar da cama. No primeiro dia. Como um enfermo, o corpo pesa, te devolve para debaixo das cobertas, mesmo sem sono, mesmo que a cabeça não pare de trabalhar e fique vinte e quatro horas processando algo insondável. E pensa, de novo. Não adianta falar, nem procurar alternativas outras. Há um cansaço de fundo. A casa parece mais vazia.