Eu estava lá, junto com todas as águas, com os peixes mais velozes passando por mim e os mais lentos na mesma velocidade que eu. Eu ainda era um pouco humana e tinha um coração, um certo coração, digamos que uma palavra melhor seria um corvo. Pois eu tinha um corvo no meu coração. E esse corvo não somente pesava e comprimia o espaço do meu peito como aos poucos se alimentava do meu sangue. E por isso eu nadava lentamente, não cabia no interior das minhas veias tanta fluidez, sim, eu parecia uma velha cansada pesando dentro d´água.
Aos poucos, conforme eu nadava a 0 km por hora, conforme eu avançava e o meu sangue rareava, minha visão turva me mostrava cada vez menos as margens e havia cada vez menos colegas aquáticos. Achei por muito tempo que iria morrer. Pensei que seria uma pena mas que pelo menos algum sofrimento seria aplacado.
Toda essa introdução para dizer que exatamente quando fiz 30 anos, e isso aconteceu numa tarde de um dia desses, desemboquei num rio largo, límpido e com uma paisagem toda aberta. Consegui a duras penas arrancar esse corvo do meu peito e me sinto com 30 anos a menos. Uma tarde de um dia desses a natureza me presenteou com um belo pôr-do-sol na passagem de um rio turvo para uma queda d´água onde boio, humana, descansando de mim mesma.
