terça-feira, 23 de setembro de 2008

30 anos

Eu estava lá, junto com todas as águas, com os peixes mais velozes passando por mim e os mais lentos na mesma velocidade que eu. Eu ainda era um pouco humana e tinha um coração, um certo coração, digamos que uma palavra melhor seria um corvo. Pois eu tinha um corvo no meu coração. E esse corvo não somente pesava e comprimia o espaço do meu peito como aos poucos se alimentava do meu sangue. E por isso eu nadava lentamente, não cabia no interior das minhas veias tanta fluidez, sim, eu parecia uma velha cansada pesando dentro d´água.
Aos poucos, conforme eu nadava a 0 km por hora, conforme eu avançava e o meu sangue rareava, minha visão turva me mostrava cada vez menos as margens e havia cada vez menos colegas aquáticos. Achei por muito tempo que iria morrer. Pensei que seria uma pena mas que pelo menos algum sofrimento seria aplacado.
Toda essa introdução para dizer que exatamente quando fiz 30 anos, e isso aconteceu numa tarde de um dia desses, desemboquei num rio largo, límpido e com uma paisagem toda aberta. Consegui a duras penas arrancar esse corvo do meu peito e me sinto com 30 anos a menos. Uma tarde de um dia desses a natureza me presenteou com um belo pôr-do-sol na passagem de um rio turvo para uma queda d´água onde boio, humana, descansando de mim mesma.

sábado, 13 de setembro de 2008

Nicolash

Não, eu não estou melhor. A vida continua sem ressalvas. Apresentaram-me um certo Nicolash. A regra é que se ele descer redondo comprova a existência de Deus. Fiquei super animada. Engoli perfeitamente o líquido e dei um suspiro de alívio. "Deus existe", pensei. Mas não. Nicolash existe.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A angústia de Mr. Writer

Diria que o Mr. Writer deveria saber todas as respostas. É ele quem antevê a história do meu futuro romance. Um delírio rebuscado que sempre toma conta. Uma fuga à angústia, a Grande Aliada da Grande Falta. Teria todos os elementos, o Mr. Writer, para fazer um tratado sobre a Angústia, a Grande Aliada. Aliada alada. Voa plana e passa como um vidro na altura do peito da humanidade. Todo mundo curvado com os ombros revirados as escápulas deslocadas com o estupor no peito. Diriam os professorinhos que põe o corpo no lugar que é uma rotação interna de ombros. Ela aperta o coração para dentro. O trabalhador que espera o ônibus e o flanelinha deliram seus corpos como o empresário também ainda leva a culpa, a Outra Alada. Ei, Mr. Writer, responde aí o que a Aliada tem em comum com a fé? "Não tem sentido", e se ele responde assim tão resoluto a briga do peito curvado é pelo espaço debaixo da terra. É o 7 Palmos, o Deus da Morte, o regente da orquestra. "Pergunta pra ele", responde Mr. Writer categórico.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

um soturno grito de silêncio

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

nada além do silêncio
nada além de nada
um sono profundo e as paredes descascadas
acabaram os aeroportos
o vento bate e mexe com as folhas do livro
perco a página
estou descascada