quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Eu contemplava o telhado antigo. Sujo, cheio de musgo. Durante anos, ele esteve no fundo da minha visão. Com o céu ao fundo, algumas árvores que balançavam longe, e os aviões que passavam -e ainda passam- de vez em quando. Nada mudou. Apenas o telhado. Todo novo, com telhas atuais, dessas que dizem ter um encaixe melhor. A antiga parecia uma renda. Parecia um telhado bordado. Agora, o telhadinho fácil, limpo, contrasta com o que há de antigo no meu peito, e dói ver.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Eu não sabia até então. Era tudo não-delineado, como quase tudo. Muito não-delineado quer dizer qualquer coisa. Quer dizer te ligo amanhã, quer dizer vamos fazer algo no fim de semana, quer dizer eu te amo mas eu não te quero. O contorno vem. Após muitas batidas repentinas em esquinas desavisadas. Após devaneios em que a realidade nunca se acomoda, nunca respira com um minuto de contentamento. O contorno vem depois que se aprende a segurar as rédeas desenfreadas do desejo. Enquanto era tudo não-delineado, eu escrevia. Agora que tudo se delineia, as linhas se formam e eu vivo.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Há uma dança que se faz. Um cantinho daqui ou dali. Um drink, alguns drinks, cada um de uma cor. Assim, no balcão. Frutas, gins, vodkas. Em cima do balcão. Eu balanço. Minha cabeça balança em cima do balcão. De canudinho. Vem aqui. Prova este. Uma fruta diferente, japonesa. Seu cabelo balança em cima do balcão. O barman nos entrega suas invenções coloridas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Tenho sonhado com aeroportos. Tenho feito decolagens. Um dia subirei a montanha dos meus sonhos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um oceano faminto revolve meu coração.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ela estava ali, na esquina. Eu não vi. Não pude ver. A sua cintura, fininha, o vestido colado com um cinto. Ela estava indo onde? Subiu no ônibus, resoluta. Eu não vi, não quis ver. Eu estou com os olhos tampados. Apesar do sol, este sol de inverno seco com baixa umidade, apesar do sol, eu não estou bem. A minha vista anda embaçada. Os meus sonhos andam embaçados. Miopia foi o que o médico disse. Ela estava resoluta. Cabeça erguida, andar firme. Onde será que ela ia? Quer levar um minutinho meus sonhos contigo? Mas eu não vi para onde ela foi.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Eu tenho um delírio pulsante e inesgotável.

sábado, 21 de julho de 2012

É do lugar mais confortável que conheço. De onde falo, é daqui. É esta fresta do mundo, apenas, esta pequena fresta de luz por entre a persiana. Uma breve e gelada brisa entra pelo canto da janela, apenas a lembrar-me como o mundo está lá fora. Não confio que o mundo esteja igual, ele deve estar diferente. Porque o mundo muda muito. Num ritmo de cavalgada de quem tem absoluta pressa e jamais se cansa. Faz sol, finalmente. Não deveria ser assim, mas o céu e suas cores estão sempre a influenciar o meu humor. A estada por aqui tem sido boa, eu diria que caso este fosse o meu último dia, a única frase que eu iria pensar seria por que não curti mais, um único e simples lamento; e não mais. Muito mais do que os arrependimentos, porque estes eu já tenho todos, e já os lamento diariamente, e eles só tendem a crescer conforme cresce a minha cobrança por fazer tudo, conforme crescem as expectativas que eu mesma não consigo cumprir. Então lamentos eu os tenho. O que não tenho, e que do meu leito de morte irei dizer: deveria ter aproveitado mais. Porque sempre estará ruim de um jeito, mas seria somente atravessar a rua, ou mesmo trocar um pensamento pelo outro, para sorrir. Seria simples ter-me dito somente para relaxar seja lá qual for a realidade, porque ela sempre está de um lado solar e no seu oposto assombrada. Da fresta de realidade que me é permitido olhar, da minha caverna sem televisão e sem luz direta, com o Astor a proteger-me e latir para os trovões, eu diria que a minha solitude, o loro do quintal, as plantas mais ou menos bem cuidadas, é tudo o que a minha intimidade festeja. E que assim a minha vida siga com vista para o telhado vizinho, com suas telhas francesas bastante gastas, com as cumeeiras mal encaixadas, com o barulho da rua um tanto distante, e o quintal molhado.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Um segundo inativo. A decisão adiada. A banca de jornal está fechada. As britadeiras furam nossos pés. O cheiro de gás, e meus pulmões abertos. O tropeço na calçada, mais meio metro e estaria atropelada. Nem sempre dá para cair do lado de dentro. Hoje não tem notícia. Nenhum cachorro abandonado, nenhuma criança perdida. As doenças não foram curadas, nem as ruas asfaltadas. O céu está azul, obrigada.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

cinco anos depois

...eu coloquei um lírio branco na frente do seu túmulo. A chuva caía finíssima na cidade fria. Pus um casaco grosso para me proteger. Carreguei a flor, uma aberta e um broto fechado, como se leva um presente, ou um filho, algo um tanto imponente e sóbrio, para um derradeiro destino. Perdi-me um pouco por entre as lápides, muitos são os nomes dos mortos do mundo, e ainda lamento o seu estar entre eles. Preencher a ficha do papai em qualquer estabelecimento sempre me dá tristeza quando tenho que defini-lo como viúvo. Ainda mais ele, que ainda usa a aliança que vocês trocaram quando fizeram 25 anos de casados. A outra está aqui comigo, dentro da caixinha de madeira que você me deu, da Santa Conceição, minha protetora. Três senhoras passaram por mim, eu gostaria mesmo era abraçá-las ou que elas se compadecessem com meu choro e me chamassem sem querer de minha filha. Hoje eu aceitaria ouvir isso de uma estranha. Sentei-me ao seu lado, ou em cima de você, ou embaixo, já que você está no céu -devo ter sentado embaixo- e fiquei contemplando o lírio branco que contrastava com o pesado mármore preto da família Lofiego, na primeira fila do Araçá. É lá que você está, o seu corpo, o que restou dele, então deve ser seu pó, seus ossos, seu corpo quase imaterial. É por lá que quando passo me dá um frio na barriga de lembrar como foi difícil aquela quinta-feira, quando fomos obrigados a enterrá-la. A morte é inexorável. Uma bala perdida que acerta em cheio um coração em plena pulsação. A falta de escolha diante dela, este nocaute final a que somos submetidos, não nos dá nem a liberdade nem possibilidade de reconciliação. A sua verdade é absoluta. Com ela, ninguém pode. Trata-se de um abuso inventado por algum sem alma, algum ser de algodão que tampa as narinas dos nossos amores. Eu não me reconciliei com a morte, muito menos aceitei a sua falta. Minha mãe somente se ausentou, por uma razão extrínseca ao meu desejo, da minha vida, de uma forma que tenho certeza que não foi da sua escolha. Ela estaria hoje aqui comigo, cinco anos depois de sua morte, vendo um filme bobo na tv. Comendo canjica, já que é época de festa junina. E não lá em restos mortais no cemitério do Araçá. Eu acabei sobrevivendo em meio a esta tempestade. Encontrei-me mais forte, mas cá desconfio que cinco anos depois eu estaria mais forte mesmo, mesmo sem a sua partida. Continua chovendo. No dia que você foi sepultada -não diria que você foi embora- estava sol. Céu azul. Até nisso. Quando pelo menos seu corpo estava ali, quando você ainda estava bonita envolta naquelas flores brancas, maquiada com seu vestido vermelho de bolinhas cor creme, o tempo era mais bonito, até no dia mais triste mas que você estava um pouco mais perto --ou que eu ainda poderia dizer ontem ela ainda estava viva-- até o tempo nos dava trégua, ou um tantinho de beleza. Agora que eu não posso nem dizer que ontem o seu corpo ainda existia, que ontem o seu coração ainda batia, e que talvez uma semana atrás eu ainda poderia tocar na sua mão na UTI, e que um mês antes nós estávamos na pizzaria a família numa mesa enorme comemorando a sua vida futura, agora eu não posso dizer mais nada disso porque nem o tempo me ajuda, e diante disso nem posso afirmar que ele tenha aplacado a minha dor. A saída que me resta é descansar. Descansar um pouco da sua falta, e distrair-me um pouco.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Uma verdade inaudita. Neste fim de tarde, talvez todas as ilusões tenham-se formado nuvens. Não nuvens espessas, mas aquelas que se espalham, sem vigor, quase imperceptíveis, um pouco desgostosas --e talvez até um pouco confortáveis. São quase céu. Se estão de ponta cabeça não nos cabe dizer. Estão lá finíssimas, se assoprarmos daqui, viram pó. Está tudo lá, as ilusões, os encantamentos, os floreios. E quem olha o céu para saber de ilusões e encantamentos? Só quando chove, e mesmo assim é para dar de costas.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Uma vez mais um dia é hoje. Não é quando, não é depende. É hoje.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Um dia assim. Um dia sem. Na ausência do verbo, eu continuo sem ele. O mundo tem muitos verbos. As pessoas falam muito. São muitos os barulhos. Puxo o ar, afundo. Fico lá, azul, sem respirar. Somente enxergo as bolinhas que saem vez por outra do meu ar. É um pouco do meu ar que explode lá fora, no mundo do barulho. Aqui dentro, o ar é silêncio, o ar é um suspiro quieto, um afago delicado. Meus pulmões respiram ar aqui de casa. Eu quero somente um silêncio, no máximo dois. Um delicado compartilhar, pequeno, entre nós. O mundo é pequeno. Sou eu e o meu jardim, com suas plantas mais ou menos bonitas. Sou eu mais ou menos aqui. Um pouco menos, hoje, com vontade de ficar pequena. O meu silêncio, e uma xícara de café esfriando em cima da mesa, com um papel de sonho de valsa que comi ontem. Não tenho grandiloquência. Sou pequena no meu mundo inteiro. Assim, com o loro do jardim crescendo. Com o telhado que vejo da minha janela, sujo de poluição. Poluição que vem todos os dias, borrando a visão, engripando os escapamentos, asfaltando as delicadezas que sobram -nem sei se sobram delicadezas. Toda vez que saio o mundo faz isso. Eu tento até resistir, mas resta-me ficar pequena. Não acuada; pequena. Neste mundo de tratores que asfaltam almas, eu não quero entrar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tem dias que não. Tem dias que não há. Acordo sem verbo. Não pula da cama um esboço nem um rascunho meu. Tem dias que não há verbo. Tem dias que não tenho nome. A manhã segue emperrada, não tenho. Devo ter morrido, talvez. A morte deve ser isso. Acordar sem verbo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

É entrelaçado, o verbo. Verbo entrelaçado. A sua mão entrelaçada. Tanto pequeno como pode ser grandiloquente, o seu carinho. A tudo envolve, o abraço o seu jeito de abraçar até sobre o asfalto até sobre as pedras eu deslizo. Das palavras o verbo. Entrelaço com você a palavra o emaranhado aperto a borda do colchão grito abafado fecho os olhos comigo dentro, com você emaranhada no meu delírio.

sábado, 7 de abril de 2012

Ela dá uma passadinha aqui em casa. Sábado a noite. De preto, mal intencionada. Vamo aí. Dá um oi para o Astor, toma uma cerveja. Toca a campainha sem avisar. Vamo aí. Não sabe bem onde. Passou a tarde lá no Lollapalooza. Foi pra Paulista, depois pro Biu. Toma uma cervejinha em casa. Coloco The Full On The Hill para escrever o texto. É tão a cara dela. Vamo aí, vai. Vou tirar a calça xadrez de dormir.


para a Amanda

quarta-feira, 21 de março de 2012

Atravessa. Inaugura. Invade. É a voz, mas também podem ser as palavras. Ou a língua. Não diria nada privado. Mas o amor atravessa. Inaugura, invade. Derrete. Uma combustão, duas combustões. Sem ar. Pinga. Embriaga. Encharca. Incha. Perfura a parede. Pendura quadros com borrões. Sou um delírio e sua boca perfura e desobedece meus sentidos. Eu desobedeço meus sentidos. Eu não tenho sentidos. Formigam vertigens, mãos na parede. Sua boca jorra sentidos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Eu tenho uma espécie de medo do mundo. Um medo irracional, ilógico, ancestral. Não chega a me paralisar mas invade por um ou mais segundos e me faz pensar de um jeito estranho. A cidade não é suficiente para aplacar minha angústia. Pelo contrário. Quando saio, me sinto ainda pior. As ruas vociferam e atropelam tudo quanto. Os carros passam rápido e me deixam em vertigem. A minha labirintite ataca. Selvagem, deito no chão, e fecho os olhos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

É, muitas vezes, a única palavra. A única palavra pode ser. Um empurrão, ela vem como um sopro quando é o estômago que está amarrado, distorcido. Eu vou desfalecendo, uma hora deslizo, quase sem barulho, delicadamente debruço e me encolho no chão de madeira da sala. Ali fico, como uma lagarta tendo alguns espasmos, respirando forte, como uma única e inequívoca certeza.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sonhei. Eu não estava na minha casa. E não era eu. Não sei quem era. Mas estava num elevador. Errava o botão. Ia mais alto do que podia. Estranho ir mais alto. Sempre fui ao rés do chão, vez por outra frequentando porões, escuros e úmidos, com roedores me ameaçando. Ir alto, alto demais, no último andar. É longínquo. É um dia. É quase hoje.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tem um bloquinho lá fora de Carnaval. Ouço as vozes e as palmas, se você fosse sincera, ô ô ô ô, Aurora. A reclusão tem seus delírios. Ouve-se vozes, palmas, solfejos, uma sanfona de fundo, vê-se perucas loiras, azuis, prateadas. O Astor late. Ô abre alas. Eu tenho um delírio azul da cor dos seus olhos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

É a sua pele que habita meu corpo. Permanece, não por instantes. Atravessa. Vai com o tempo até eriçar cervical acima e abaixo como um rio que percorre seu leito. Às vezes delicado, noutras enxurrada. São as suas nuances, eu não pretendo descobri-las todas. É tudo muito. É tudo vasto. Num campo longínquo te vejo num de seus vestidos cor de piscina. Vem mergulhar comigo. Depois vem secar no sol as gotinhas que pingarem do nosso cabelo. Tem um mundo no meu peito.
Eu tenho. Gosto, desse tom azul. À noite ele fica mais escuro. Agora, ao sol, é bem como o mar. Ou uma piscina, lugar dos meus preferidos. Não é uma vertigem, não é fortuito; nada daquilo que até testei, de uma forma um pouco desastrosa. Eu sabia que poderia. Mas não imaginava que fosse tanto. Ficou todo mundo muito pequenininho. Eu, do seu lado, só quero estar do seu lado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Eu teria visto o seu rosto. Puro, com a definição perfeita do contorno. Só não vi antes porque meus olhos eram pequenos --e a sua beleza grande demais para mim. Mas eu compreendi. Não sei se tarde, não sei se lenta. Um dia, agora, eu posso dizer. Explodindo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um dia teria reconhecido seu rosto. Na minha plena vontade de te perscrutar. Com um leve arrepio da sua pele, delicado mergulho. Respira aqui comigo.

Eu tenho uma quase incapacidade de existir. Todos os silêncios me definem. O barulho dos trilhos não me incomodam. É um leve balançar que sinto, como das árvores. Eu não tenho um segredo para contar. Os meus objetos, sim.

O amor não me data. Tudo pode acontecer em janeiro, no verão embriagado. Ouvindo uma música ali. Com um ventinho no rosto.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Virou tudo cinza, poeira antiga. Uma fumaça me ajuda a não respirar. Eu tento, ainda. Dizem que devemos agachar para respirar melhor. Vou ao chão, fico pequena até o tempo. Prefiro fechar os olhos enquanto tudo estala.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Eu só queria um espaço. Entre uma coisa e a outra. Eu teria visto tudo com muito mais clareza, sem achar que você era muito mais do que parecia. E parecia para todos, menos para mim. Os olhos do amor tem sempre uma lente de aumento. Bonitos os óculos que o tempo nos obriga a tirar. Tantas vezes misturei tudo em amálgamas, fronteiras que sempre se bagunçam. Algumas ficam com os cabelos brancos, outras morrem tão logo suspiram. É bonita a dança vertiginosa do amor. As luzinhas da roda gigante piscam.

Meu querido Salinas, saudades de tomar um uísque com você. Tem uns amigos que a gente conversa mais bonito.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Assim. Ouvindo o cd novo da Gal. Domingo cinza. Roçando um dedo no outro. O Astor deitadinho. O meu edredon precisa de alguns reparos. A minha camisa xadrez. Edredon xadrez. Vem aqui um minutinho.
Foi o meu corpo emudecer. Formigavam as minhas pernas por longos segundos. Aquela batida a música que de repente começou a tocar. "É o inexorável", uma voz dizia na minha cabeça.

sábado, 21 de janeiro de 2012

E lá se vão muitos anos. É numa noite que se despede de tudo o quanto. Calafrio. O sol se põe em mais uma vertigem. Eu digo. Ando com meus pijamas. Eu sempre ando meio de pijama. Meus amigos pararam de me convidar para as festas mais chiques. Praticamente falo sozinha. Mas virei amiga da Hilda Hilst. De portão só, por enquanto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu queria falar qualquer coisa. Mas qualquer coisa seria muito. Talvez tomaria um drink para dizer tudo o que pudesse. Ninguém realmente diz nada. O mundo poderia tomar um porre. Isso seria realmente bom. Muitas vezes eu não sou capaz de expressar tudo o que me percorre. Olho o mundo fico com o peito extravasado enquanto como um profiterole.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Porque temos que continuar. Temos que ser livres, e fortuitos. A segunda-feira é sempre uma lesma. Eu não consigo mais existir. As pessoas não querem mais a minha companhia. Eu não tenho mais assunto. Sou um delírio em prosa. O verso ficou na esquina, com olhos de vidro.
O silêncio resolve tudo. Os ímpetos, os impulsos. Como saber a quais impulsos atender. Pode ser desastroso. Então eu espero. Espero passar, como a chuva de ontem. É um ímã, a sua natureza me atrai como um ímã. Eu gostaria. Então eu fico olhando a paisagem. O telhado já está secando, o vento está curto, as árvores não balançam, só bem nas pontinhas. O avião passa no fundo do quadro. Adoro que da minha janela vejo os aviões. Sempre fico muito arrepiada quando eles decolam. E andar de trem, descobri, faz emergir todos os meus desejos polidos. Polidos ou domados. O dia demora para amanhecer. Penso somente em deitar do seu lado, de olhos fechados.

domingo, 15 de janeiro de 2012

É a chuva vindo. Tudo de repente fica mais escuro. Não há nada o que fazer. Acendo a abajur e mantenho a porta entreaberta. O Astor late para os trovões. O céu fica prateado e parece que o mundo mudou de lugar. De repente as gotas prateadas começam a lavar o telhado e os flashes. Quando eu era criança achava que os raios eram alguma coisa de deus mas agora eu acho que os raios, a chuva, os trovões, o Astor são só uma coisa da natureza. Quanto mais o barulho vem, mais o Astor troveja. Acho bonito que ele fique latindo para os trovões. Não sei bem se ele está bravo ou feliz com a chuva. Ele vem aqui para dentro, sacode todo, e volta para lá.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Esta noite sonhei com você. Não lembro do sonho. Só lembro que acordei deslumbrada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bailarina, a sua saudade esfumaça meus pensamentos. Tomo um chá e penso nas palavras que poderia encontrar pelo chão enquanto flutuo. São elas que quando passam pela minha pele arrepiam toda a minha superfície. Fecho os olhos e penso naquela música que me lembra você. Eu não saltito não tenho precisão me sinto como se tivesse asas e te levasse junto sem te tocar. No meu sonho eu te conduzo sem te tocar. Vamos juntas como de olhos fechados porque vamos juntas flutuamos sem pensar. Fecho os olhos quando danço. Você quando dança é como uma Vitória de Samotrácia prestes a alçar voo ali no alto da escadaria. O meu olhar, poeta, ali tão reles. Minha única alternativa para te alcançar é flutuar nos meus pensamentos. Preparo um drink para me distrair um pouquinho.
Foi numa lojinha de Paris, aquelas de souvenirs--eu procurava alguma coisa para você-- quando começou a tocar aquela música antiga que hoje está fora de moda mas naquele momento fez um sentido quando a cantora disse so baby talk to me e no meio daquelas xícaras e mini torres eiffel eu pensei em virar e simplesmente te encontrar ali na frente do Pompidou. Eu ficaria certamente bastante tempo te acompanhando te olhando de longe e a minha vontade seria de te dar um beijo no meio daquele páteo como num filme mudo quando os barulhos da cidade se calam e as luzes ficam baixas até sua boca terminar em mim.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vamos inaugurar o ano. Com um dedinho de delírio, que sabemos, é sempre bom. Com um pouquinho de Berlim, com o meu casaco sujo de bebida no chão. Uma vodka alheia que permaneceu até ontem, quando o coloquei na máquina de lavar. Eu gosto de vestígios. De Paris o sacolejo do metrô com seus pretos, árabes e orientais e todos falam aquela língua mas ninguém é de lá e todos são de lá. De Praga, que dizer. É onde se deve fazer amor.