terça-feira, 10 de dezembro de 2013

esquina.
vira.
uma página.
não sabe se vira ou se
volta.
se vira,
seja certo ou seja.
é você?
ou é apenas um vulto.
um vulto
quase roxo
como uma canela
com sangue pisado.

eu mesma passo
remédio.
que remédio passa?
é você que
passa?
ou que vira
a esquina,
e não volta.

volta e passa.
leva um fio de cabelo
com o vento.
e faz um barulho
de avião.

o trompete. não
cheguei a tocar. e já
desisti.

era para tocar
uma música, uma
música infinita.
como uma inconstante vontade,
aquela que saiu daqui hoje,
cantando pneu.

eu te contaria.
um segredo. um segredo que voaria
num zepelim colorido,
todo cheio de vontade.

eu tinha até parado. mais uma
palavra, por favor. uma palavra
rebocada como um náufrago
que sobrevive
numa bolha de ar.

diga-me qual seria. solidão?
silêncio?

talvez.

talvez antes de morrer, no derradeiro
minuto,
eu escolha. justamente.
ele.
o silêncio.
e como seria longo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

não é para levar tão a sério. nem um mistério profundo é tão sério, bem disse a poeta. a vela queimava há um mês. bem hoje, justamente hoje, o dia que carregava o poder decisório da mudança, ela, que era colorida, laranja, azul clara e azul escura, ficou preta. a vela ficou preta. a vela que fica no seu altar. ao lado dos santos das musas dos deuses que regem sua parca fé. justo entre ontem e hoje. e quando entre ontem e hoje definem a sua vida. e então quando era para tudo explodir e virar uma página, não vira. quando era para o avião decolar, não decola. uma esquina, uma viela que não vai ter fim. então você não entra. definitivamente não entra. ah, o eterno sabotador. aquele diabo que faz o seu carro bater por um pequeno ângulo e por 0, qualquer coisa, muda a sua vida. oi, querido sabotador. você tem cara de vela preta. que diabo! mas ao meu querido diabo eu mando um recado:
 
- você me pegou!
 
agora te convido para tomar um vinho. ahm hã.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

vão desmedido. esquina virulenta. sopro atroz. uma fresta, aguda. a realidade, é esta.

sábado, 17 de agosto de 2013

Um minúsculo tempo. Uma fresta. Pausa para o café. E então.

sábado, 27 de julho de 2013

Um dia ali. Um dia na casinha amarela. Sozinha. Todos os cômodos vazios, e um pouco empoeirados. A casa em vigília. A casa, olha, ela está quase pronta. O que é estar pronta mesmo. A casa reza. Reza em si. Reza só. Suas paredes pintadas de uma cor nova. Um abraço. Um abraço na casa nova. Que é velha, dura mais de cinquenta anos. Não me dê nada de novo. O que eu quero é estar aqui. Exatamente aqui. Esticar meus lençóis. Só me deitar sobre eles e vislumbrar o que sempre fui.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Não há mais tempo. O tempo acabou. Os carros atravessaram o farol enquanto o tempo piscava. As luzes brilhavam, a lua está tão. Acabou. O tempo não é. De ninguém. Também não é mais soberbo, a não ser em outras. Galáxias? Se na rua, se em casa. O tempo tem horizonte? Estreito, uma faixa, uma linha, um ponto, uma! Lá vai, se foi, nem memória. O agora, um! Agora, sim! Mas agora? O agora tem horizonte? O agora é uma linha, ou um ponto? Agora o tempo, agora largo, e se toca uma campainha? Foi! Se toca uma linha, só uma nota se vai, e nos ouvidos, fica. O tempo é o corpo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Mês de junho. Faz seis anos que me lembro do mês de junho. Esse mês definitivo. Nada continua adiantando. Só amar as pessoas. Amar a troco de nada. Sem ponto, sem nó. Um abraço de saudades continua eterno.
De antigamente, só tenho uma visão turva. De salas grandes onde fazíamos guerra de almofadas. De uma escada comprida e por cima colocávamos um colchão para podermos deslizar. De uma jabuticabeira do quintal de onde tirávamos os frutos para sujar a parede do vizinho. Mesmo turvo, antigamente eram quintais e nós todos juntos, aprontando. Bobagens de criança, de roubar correspondência dos vizinhos, tocar a campainha e sair correndo. Sentíamos que quase poderiam nos prender, tão grave eram nossas infrações. Nas fotos, eu sempre pouco sorri. Continuo assim. Só que sem brincar.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Segunda-feira eu serei outra pessoa. Acordarei feliz. O dia amanhecerá claro e próximo. Não distante, como tem amanhecido. Soltarei uma risada bem alta ao acordar. Os vizinhos estranharão a minha falta de silêncio. Não te prometo nada, mas nesse dia o amanhecer, pelo menos um.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um nó indissolúvel. Um nó distendido. Assim a sua maneira, derrete geleiras, mata no ferro, derruba prédios e escreve no jornal seus números. De quem acelera no lugar errado, sempre. E continua. E continua. A desatenção nos protege, basta para mais um pouco. Mas pode ser uma morte.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Eu teria ido junto com você, não fosse o barulho da cidade a me atrapalhar os sentidos. Teria mergulhado nesse lugar escuro e sombrio por onde a minha cabeça tanto andou sem você. Não é para viver. É para aguentar. Suportar. Esses barulhos, de obras, de carros, de gente falando alto, não é que me distraem. Esses barulhos me dizem o que você está fazendo aqui? A resposta parece me convencer cada vez menos. Parece não me convencer. Parece me dizer: vá.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Não é no frio, nem numa sopa com vinho nesse tempo outonal. Não é numa poça d´água que reflete o céu azul e o sol, fingindo não estar poluído nem jorrando caminhões pelos ventos. Não é numa rede, balançando com impulso preguiçoso quando a manhã nasce. O estado a que me refiro não está em nenhuma dessas ilusões de ótica instauradas pela busca de um mundo perfeito. Eu não tenho mais corações brilhantes nem estrelinhas prateadas pulsando nos meus olhos. Minha visão tampouco é turva, nem míope. Ela está ali, dedicada em você. Pousa sobre sua sobrancelha. Sobre um delicado porvir que confabulamos em suspiros distantes. Não é uma luta, nem por convencimento, nem por estar assim. Pousa, delicadamente, e vê um brilho logo ali. O Astor suspira, conosco.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Eu te amo desde sempre. Não deveria ter mais ou menos de mim. Somente um. Amor. Durável, não-comedido, vazado, escorrido, sem têmperas. Amor sem têmperas, desordenado, com um grito elevado. Não uma dama, uma louca sem divindade. Eu te amo desde sempre. Sua força todos os dias. Seu silêncio todos os dias. Seu delírio diário. Assim, amado. Como um rio desavisado que cai, em cataratas. A sua nuvem de águas me banha o juízo, amor. Desde sempre eu respiro, no seu ouvido te digo.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Ela, então, enxerga. A poesia está no vento. Ela enxerga o vento. Não nas folhas, mas no próprio vento. No ar mesmo, com suas mini-partículas brilhantes. As ventuinhas que arrefecem os calores solares que debaixo das saias rompem em leques trêmulos e coloridos. Ela com calor e ansiosa, com calor e ansiosa. O vestido colorido brilha. O vestido florido balança. Ela, então, enxerga. O vento a irrompe ao meio, o vento a invade dolente. O vento é invisível e ela fecha os olhos. Fecha os olhos e puxa seu vestido para o meio. Fecha os olhos e puxa o vento para dentro.

domingo, 10 de março de 2013

Amigos,

É com muito prazer que anuncio o lançamento do meu novo livro Tudo o que mãe diz é sagrado, pela editora LeYa, dia 22 de março, sexta-feira. O evento será na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, das 19h às 22h.

Espero todos lá, será um prazer vê-los!

Ouçam dois trechos do livro musicados pelo maestro Jaime Alem, narrados por mim, com a linda voz de Nair Cândia.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Para realizar um sonho. Chame o dedetizador, a faxineira, o pedreiro e o contador. O Astor irá participar também. A campainha está quebrada. Então se o seu sonho chegar, você não será avisada. O Astor gosta de morder o aspirador de pó. Ele também gosta de brincar com o rodo. Devemos ser algo parecidos. Meu irmão vem da Alemanha. Se eu quero um iPad? Traz um pretzel, por favor. O Astor se eriça, levanta o rabo e olha para a porta. É o jeito dele me avisar que a campainha está tocando. Moça, seu sonho chegou.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Passo mais um café para te esperar. Acabo tomando três, quatro cafés por dia. É o meu cigarrinho. O barulho da água subindo me dá a sensação de que tem algo pronto. Enquanto espero, o som do vapor da Bialetti me distrai. A cidade está sempre balbuciando socorros e buzinas, mesmo em janeiro. Mas o mundo sempre acontece aqui dentro. Os dias passam. Um ritmo ameno dá conta dos acontecimentos. É estranho dizer, mas nada me aflige.

sábado, 19 de janeiro de 2013

in utero

Eu teria um título de um livro para te dar. Eu teria um segredo abismal, uma oferta irresistível. Um título de um livro seria algo de real valor. Às vezes pode ser tudo o que precisamos. Ou um título de alguma coisa. Um título de tristeza, um título de alguém na vida. Um drink no escuro, como um quarto escuro onde as pessoas se tocam sem saber quem são. Quem se atreve a entrar lá? Quem toma um drink sem saber o que tem, qual a mistura, a química e a quantidade de ingredientes? Porque você pode tombar você pode acordar sem saber seu nome. E saber seu nome pode ser a única coisa que no final das contas você pode lembrar. Esquecer o título de você mesmo. Somente o Astor saberia seu nome.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Foi depois de tomar aquele single malt que você trouxe. Uísque, cerveja ou vinho? A resposta definiria parte da intenção. Um tantinho de saudade. Na esquina do embarque, as pessoas se aglomeravam, alguns se beijavam, outros choravam. Japoneses se despediam em grupo. Um homem com o filho no colo olhava absorto o painel de partidas. Fiquei em dúvida de qual direção tomar e por alguns segundos andei em círculo. Não tocava nenhuma música de fundo na minha cabeça.