domingo, 28 de dezembro de 2008
amigos noturnos
sábado, 20 de dezembro de 2008
o olho da rua
É prateado, um fio delicado que sustenta o contentamento. As risadas alheias nauseam as tristezas compulsivas. Em horinhas de descuido, isso já foi escrito - esse estar descomprometido, alheio, inebriado é dedicado aos que não sabem o que é viver sem isso.
Os desejos mais latentes, a vida realmente está geralmente nas esquinas onde as bombas estão prestes.
entre as nuvens carregadas de chuva
É de supor que eu deveria me rebelar. Assim como blasfemei da forma mais explícita ao xingar Deus e seus súditos no momento em que traíram minha fé. Implodi qualquer grito. Agora já está feito. Meu corpo já aprendeu a absorver a minha revolta. Sou grande amiga da raiva. Virei praticamente uma selvagem, incomunicável e incompreensível. Um deus morto me acude vez por outra quando estou dentro da minha caverna sem televisão. A minha banda favorita toca a sua música mais triste.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
amor ocre
Um clarão anuncia que já é hora. Engulo, quase sem querer, uma gota do meu próprio sangue.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Os ecos e o Astor
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Luminosa manhã
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
numa tarde sutil olhando as árvores...
domingo, 16 de novembro de 2008
N'outro domingo
terça-feira, 11 de novembro de 2008
domingo, 2 de novembro de 2008
Outro domingo
Nem a paisagem, nem as árvores balançando, nem o barulho de crianças brincando na praça. Passo o dia como um refugiado, com vontade de voltar para casa, mas sem casa para voltar.
sábado, 25 de outubro de 2008
Pausa para os comerciais
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Breve nota sobre as putas
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Caju amigo da palavra
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
how my heart behaves on sundays
Assim como o tempo não é suficiente - se ela tivesse 100 anos, se tivesse registrado minha vida inteira numa filmagem ininterrupta - um sopro a mais uma declaração a mais um abraço a mais nada disso, nada disso aplacaria a náusea que sinto pelo mundo. Sim, é de Sartre a declaração inicial do texto. Sobretudo aos domingos acordo nauseada. Não sei para onde ir, para quem ligar. É um relato sem dúvida vago e todos vão cansando da mesmice das minhas declarações. Os amigos vão desistindo da minha falta de sociabilidade. Alguns persistem, heróicos. Outros já me olham como se eu fosse um fantasma. Enxergam em mim a própria morte. Fogem como lagartos quando encontram alguém no meio do mato. Nem sei como continuo viva, acordando, dormindo, eventualmente dando bom dia de óculos escuro. Só um amor mesmo me mantém viva. Vou chamar de Domingos todas as orações não atendidas por Deus. Deveriam tê-lo avisado para não descansar.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
30 anos
sábado, 13 de setembro de 2008
Nicolash
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A angústia de Mr. Writer
terça-feira, 9 de setembro de 2008
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Alegria estranha e outros mistérios
O autor póstumo
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
15h, velório
terça-feira, 5 de agosto de 2008
em casa
A única coisa que eu tenho verdadeiramente vontade de fazer é ir para casa. É o único lugar no mundo onde me sinto um pouco aconchegada. No resto, sinto um deslocamento, se estou no cinema estou pensando que queria estar na minha casa, se estou na minha casa gostaria (idealmente) de estar num cinema. Mas se estou na minha casa, pelo menos não tenho que voltar para algum lugar, é simplesmente lá onde vou ficar, talvez onde vou morrer. E do cinema ainda há um percurso, ainda preciso ter que pensar um pouco qual foi a porcaria de filme que vi e não senti nada no meu coração. É uma maioria de coisas sem coração que há no mundo. E todo mundo culturalmente vivo está aí atrás de tudo, quer ver tudo, quer conhecer o desconhecido e contar pros amigos que viu um artista em tal galeria de arte. Meus caros, o meu coração é o que importa. Então vou pra casa e fico olhando as paredes. E olho o teto, as cadeiras - olho três quatro vezes cada objeto. E é neles que entendo toda minha existência, onde reconheço que eu também sou uma parede, uma cadeira, um objeto meio bípede, meio desengonçado - e ali encontro todo mundo. Brindo com meus amigos com vinho tinto, celebro todos que amo. Robson Crusoé fez o mesmo, sozinho, delirante e bêbado na ilha.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
sábado, 19 de julho de 2008
Mato
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Oceano faminto (de distância)
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Je m´apelle
quinta-feira, 3 de julho de 2008
no terraço
Já não aconteceria mais da forma como imaginei. Nessa cidade ninguém perde dez minutos olhando um corpo no chão. Eu não seria como um Hemingway - a minha morte não seria literária. Eu não teria recompensa, não teria obra póstuma, nem retrospectiva.
Passo ao largo do rio. Balançam as árvores, gosto do tom de verde das folhas, elas tremem e minha visão embaça. Desfoco o olhar.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Ao meu amigo Caio F. A.
Eu não falaria outra língua se você me entendesse. Eu não me mudaria de cidade se você me abrigasse. Se da forma que bati em tua porta você não atendeu, que macacadas eu devo fazer pra te encharcar de mim? Não basta roubar seus beijos e arrancar todos os drinks da sua mão, uma vez, duas vezes te levar pro meu quarto e não te derrubar na cama – é sempre um quase, meu caro Caio Fernando – sempre passamos do ponto e a porta não abre de jeito nenhum. Eu não me suporto. Te roubaria de ti pra nunca mais ter de me olhar no espelho e ver a figura esquálida que me tornei. Minha magreza é tanta que me alimento de amendoins à noite, na solidão da minha casa sem TV. Coca light e amendoin. Ouço um rockzinho do Pete Yorn, um mp3 que ganhei de um amigo antigo. Amigos antigos. Quem são eles. Ora, ora, Caio Fernando, acabo de abrir um livro seu e você já é meu amigo antigo. O mais antigo de todos. Tomaria todos os porres do mundo com você, bateria na sua porta feito uma louca e roubaria beijos lésbicos da sua boca bicha. O mundo nos engana, não confio em placas de trânsito nem em decisões tardias.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
vertigens noturnas
terça-feira, 24 de junho de 2008
sobre o esgarçamento (nosso)
esgarçar quer dizer desfiar-se
(desfiar-me + desfiar-te)
que fosse de tudo se não houvesse
- e acabam virando bodes expiatórios -
rasgam (quebram, engolem) seus instrumentos (e sopram música para um mundo atônito)
beiram o abismo sem medo de uma lufada de vento
e antes do mergulho sorriem inefáveis
(pq últimas consequências necessariamente são as últimas, será que ainda não há mais consequências antes da última?)
lá vou eu, de novo.
9:46
Tenho que me ocupar com tudo o que há de variações, de distrações, não consigo mais ficar em silêncio. O barulho é agora o meu grande companheiro. Baixo Augusta, gente louca, fumaça - isso é meu paraíso. Contar músicas me salva do mais absoluto desespero.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
sobre a amizade
Tenho andado sem criatividade, ou melhor, tenho visto o mundo com o maior dos olhos literários, com trilha sonora e tudo, mas não estou conseguindo sentar e escrever. Muitas coisas acontecendo, amigos indo embora, mudança de casa, ando meio impotente criativamente, apesar das emoções estarem deveras intensas. Mas encontrei um texto antigo que escrevi sobre a amizade, e acho que representa um pouco do momento que vivo. Gostaria de poder escrever sobre meus amigos mas nunca consigo. Esse texto é uma parcelinha do oceano faminto que me liga e desliga deles.
sabe que depois que você segurou meu braço na porta daquela discoteca as coisas desandaram um desabamento em cadeia um dominó desenfreado desceu ladeira abaixo sem preguiça na ladeira tipo aquelas de perdizes me perdi solamente de tudo o que poderia um dia me segurar e fui de cabeça pra baixo com os braços estendidos e os olhos espremidos pra dentro de medo do mergulho no escuro determinado em não me segurar em nenhum corrimão em nenhuma mão solidária o meu movimento não tinha calma e sofria de ansiedade pela descida no meu carrinho de rolimã que ia de encontro à curiosidade de conhecer cada detalhe seu
terça-feira, 3 de junho de 2008
O último anúncio
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A minha champagne supernova
terça-feira, 27 de maio de 2008
Gramadinho sem você
Meu jardim está quase pronto. Eu não preciso de mais nada. O status que eu tinha ao seu lado é absolutamente desnecessário. Words are very unnecessary, dançávamos essa música nos bailinhos. E agora é você unnecessary, veja só.
Você com toda sua urgência. Com toda a agenda cheia de trabalho. Seu trabalhinho que leva as grifes com seu cachorrinho para o parque fazer pose de descomprometida. Você com toda sua mania de apresentar as pessoas com nomes e sobrenomes, quanta empáfia a sua!
Seu balanço suas mãos seu corpo que era tão bonito não vai deitar no meu gramadinho, que bom um dia poder dizer isso tão em voz alta ouvindo um som tão alto nos meus ouvidos gritando urgentemente outros nomes outras pessoas que são tão melhores que você.
domingo, 25 de maio de 2008
Dela
sexta-feira, 16 de maio de 2008
O meu Lord Voldemort
Eu continuo olhando debaixo da cama antes de dormir, todos os dias.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
Madrugada na Barão de Capanema
Domingo morarei em outro lugar. Imagino-me sentada no tapete sem móveis, observando de longe meu jardim estrangeira numa casa que não conheço (mas que é minha e será tão minha). Eram meus muros que eu demolia eram minhas paredes que eu construía era o meu entulho que todos pisavam em cima. Já sonhei tantas vezes com terremotos e maremotos devastando minha vida minha casa levando minha família. Ter um jardim onde vou morar é um revés de um destino prolongado - esgarçaram minha dor. Meu algoz parece ter dado um tempo, parece que o mantenho embriagado, e tem sido uma excelente, bom, talvez seja melhor não dizer. O jardim, uma coisinha tão simples, um gramadinho verde é simplesmente tudo o que quero. Meu caro garçom, eu fui praticamente amputada nas minhas vísceras. O homem educado sorri. Penso no jardim. Um brinde a ele.
Volto para casa. Os gatos roçam minhas pernas. Nunca tomei um vinho da casa tão bom.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
prosa do dia
sexta-feira, 9 de maio de 2008
poesia do dia
quarta-feira, 30 de abril de 2008
madrugada sonâmbula (encontro num parêntese)
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Um grito monstruoso se insinua quando fecho os olhos.
Não tenho pudores em dizer acabei de morrer ou matar: pouco faço para impressionar quem sobrou. Sopro barbaridades nos ouvidos sobretudo dos felizes, derrubo quaisquer ânimos. Sou um distúrbio precoce. Pulso efemeridades pontiagudas. Energia atômica sigo a poluir rios esperanças infâncias. De joelhos peço: não me ouça.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
quarta-feira, 16 de abril de 2008
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Hunther Thompson e a arte da vertigem

domingo, 6 de abril de 2008
Paula? Que Paula?
Quando apenas um Lorax não dá conta de preencher o vazio infinito, então é hora de começar a recorrer ao rock and roll.
Um pozinho pra acordar o espírito, depois um cigarrinho pra acalmar, e nesse ritmo descemos a ladeira à torto e à direita. As pessoas não conversam ou conversam demais ou estão totalmente fora de si. Pois a que falava demais foi trancada no banheiro e a esqueceram até quase o dia seguinte. E ela também só percebeu no dia seguinte, quando o assunto sobre Bob Dylan terminou. Ma quanto parla!
Carvão em brasas os beijos na boca se tornam rodamoinhos em direção ao buraco primordial do universo. Nada ninguém fala nada para não desencantar. Só há a dança do universo todo compacto na pista todos unidos com massa corrida ultravioleta. Agora só falta aparecer a Amy e dar uma palhinha na festa insana. Chega o diller pra distribuir alegrias me apresento já com a tequila encharcando minhas células. Levo uma fábula assopro meu dinheiro como se comprasse à vista um terço do meu cérebro frito no dia seguinte.
E no dia seguinte com as células virginianas querendo desesperadamente voltar ao normal (a rotininha, meu deus!), a amiga me pergunta: Você estará orfã amanhã?
É sobre o domingo que se refere, o dia internacional da depressão - vou encher a cara sozinha numa cantina italiana.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Boicotador
domingo, 30 de março de 2008
Manhã de domingo,
O escritor e seus embates
Esse embate, entre entregar-se ao mundo, à sua rapidez e, no final das contas, deixar-se neurotizar por ele, é uma grande questão pro artista. De duas uma: ou ele se ferra e entra nesse rio lodoso e se torna um deles, ou consegue extrair, mesmo um pouco a contragosto, inspiração. Nesse sentido, o criador se torna mais humano, mais impregnado pelas contradições que tomam conta do homem que vive no seu tempo. Ao mesmo tempo em que esse mergulho dá trabalho, causa amargores e tira o distanciamento necessário para a contemplação. Todo artista sonha com o silêncio e o distanciamento, com a proximidade da natureza; essa quietude é extremamente rica e faz emergir uma quantidade imensa de sentimentos, inspirações, idéias.
Viver em São Paulo é totalmente anti-tudo-isso. Se Henry Miller vivesse em São Paulo, com certeza moraria no baixo meretrício da Rua Augusta. Chute alto esse. Não sei o que Henry Miller faria nessa cidade barulhenta e poluída, que cada vez se supera nas suas incondições e no caos. O trecho que escolhi do livro obviamente me inspira deveras porque também tenho esses embates e o mesmo desejo de me tornar o mundo com as palavras.
É uma briga e tanto!
"Ter seu próprio mundo, e viver nele, não significa que você seja necessariamente cego para o mundo real, por assim dizer. Se o escritor não tiver familiaridade com o mundo do dia-a-dia, se não estiver impregnado por esse mundo a ponto de se revoltar contra ele, nao poderia ter o que você chama de seu próprio mundo. O artista carrega todos os mundos dentro de si. É e uma parte tão vital deste mundo quanto qualquer outra pessoa. Na verdade, pertence mais a ele e faz mais parte dele do que outras pessoas, pela simples razão de ser criativo. O mundo é o seu meio de expressão. Outros homens se satisfazem com seu cantindo do mundo - seu empreguinho, sua pequena tribo, sua pequena filosofia, e assim por diante. Ora, o motivo de eu não ser um grande escritor, se você quer saber, é ainda não ter admitido todo o mundo dentro de mim. Não que eu não saiba do mal. Não que eu seja cego para a maldade das pessoas, como você parece achar. É uma coisa diferente. O que é, eu próprio não sei bem. Mas ainda vou saber. E então vou me transformar numa tocha. Vou iluminar o mundo. Vou mostrá-lo, até a medula... Mas não vou condená-lo! Não, porque sei bem demais que sou parte integrante dele, um dente importante de sua engrenagem".
terça-feira, 18 de março de 2008
Placebo
"Toma uma bolinha, dorme, amor, ilumina seus sonhos infantis com uma viagem infinita. Aquele cachorro grande virá te buscar para vingar as crianças que quiseram te jogar no lixo. (citação A História Sem Fim). Você será salvo pelo placebo azul, não a banda, que eu adoro, mas a bolinha. Amiga, as bolinhas azuis terão um efeito devastador (devastar a dor, óbvio) a musiquinha de criança vai tocar quando você estiver quase saindo da vigília. A voz de sua mãe vai soar no fundo da sua cabeça e você sentirá o edredon subindo até seu pescoço - pra não ficar nenhuma parte do seu corpo descoberta. Minha mãe costumava puxar minhas blusas pra dentro da calça pra não subir ventinho e não sentir frio. Até hoje coloco as blusas debaixo da calça. Sinto frio de fato. Ela fez tanto isso que não criei pele nessa região fica um vazio eterno que sente frio sempre. Tudo o que ela fazia pra mim, agora, antes, é tudo um vazio eterno - bolinhas azuis, novamente. Tudo pra falar delas. Você já tomou, amor?"sábado, 15 de março de 2008
deixou o ombro dolorido, meu ombro peca comigo quando encontro um pobre infeliz
choro e rio mas não me mexo dou tchau e benção não sei quem é pior
volte dobre a esquina venha na minha direção não se esqueça de tudo que não fiz
um gesto não-feito rasga sempre o tempo e volta presente, um eterno cobrador
apelo à memória - ela me suporta
nada lembro da infância suponho que fui feliz
sou uma faísca impura e vergo meus ombros: a dor permanece, o tempo muda e sonho com as mãos benfeitoras que aplacavam a implosão
meu corpo dói esbarrado na esquina que tinha um lunático como dono
quinta-feira, 6 de março de 2008
No fundo do poço há um chão-impulso sobre o nada. Lembra a fé - aquela antiga enterrada com meu corpo antes da minha morte. Sobre a amizade teria que recitar um salmo. O colapso seria um Deus em forma de bala perdida - acerta um desavisado cabisbaixo ("não dá mais tempo!"). Colapso: rachadura interna que leva à demolição. Pois ninguém desconfia de um totem mesmo rachado.
Vertigem do tempo, círculo de esquinas pontiagudas. Falta a todos as mãos de argila. Sutura minhas veias meus músculos com doçura. Forja docemente minha morte - camadas de gelo em direção ao magma profundo. Durante séculos estive adormecida. No túmulo de minha mãe sou ainda feto e lambo felinamente suas lágrimas.
domingo, 2 de março de 2008
A Casa da Rua Nilo
Os termos do contrato demoravam a sair. De qual seria a minha parte na divisão dos bens da família, dos lugares onde passamos a infância e brincamos de tudo que se pode imaginar, até de se pegar sacanamente nos cantos? Como mensurar os metros quadrados baseados nos fios dourados da minha memória, que insistiam em não detalhar o assunto durante todo o percurso. Eu tive um sonho e preciso morar naquela casa.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Contra tudo e todos!
É tudo mentira!!! Eu grito pra mim.
Detesto as pessoas que me dizem que eu estou desequilibrada e deveria procurar tratamento. Por que elas não recomendam um bom sonífero ao invés de querer dar lição de moral? Dê-me um mata-leão no lugar de me criticar.
Estico o braço pra pegar a vassoura. O Floco acha que é brincadeira. Alguém está tirando sarro da minha cara! Chamaria Don Corleone pra me ajudar nesse momento. Ele seria a única pessoa NO MUNDO que me entenderia.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Começo de domingo
As crianças dos prédios choram ou gritam entusiasmadas com as brincadeiras, os passarinhos fazem suas algazarras e o domingo vai acordando aos poucos. Tempo fresco, céu nublado.
Floquinho vira para o outro lado e mexe as orelhas quando as crianças gritam muito alto. Mexo no seu pescoço, ele cruza as pernas de forma muito elegante. Vai até a cozinha e se esparrama no chão frio.
Vou passar um cafezinho.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
A favor da rotina
Poderíamos inclusive dividir a rotina em subgrupos. Tem a rotina anual, que culmina na virada do ano, com o famoso mais do mesmo: sair correndo para a praia, vestir-se de branco e tomar champagne na companhia de milhões de pessoas. Esse planejamento de férias coletivo é uma das evidências de como as pessoas não sabem lidar com a rotina. Todas saem ao mesmo tempo, quando já estão exaustas do ano inteiro de trabalho, pagam mais caro pela diversão e retornam juntas, contribuindo para as filas nas estradas, aeroportos e rodoviárias. Ou seja, se dão atestado de que não gostam da rotina, mas não fazem nenhum esforço para sair dela.
A rotina mensal poderia ser notificada mais especificamente com os dias dos lançamentos de salário na conta corrente e com os débitos mais obviamente programados como aluguel, plano de saúde, telefone e contas da casa. Final de mês é sempre tempo de dureza e os bancos têm dias certos para todos unirem seus papéis da Eletropaulo e Sabesp nas mãos, para se livrarem em uníssono da possibilidade de ter que acender as velas em casa e tomar banho na casa de algum amigo.
Durante a semana, todos saem mais ou menos nos mesmos horários de casa de manhã (com as levas dos que acordam às 4, 5, 6, 7 ou 8h da manhã), sendo que a maioria deixa o trabalho às 18h e vão correndo para casa.
Dizem que São Paulo é uma cidade que não dorme. Mas tem sua rotina também. De segunda a quarta-feira, em geral, saem os que não trabalham ou os baladeiros de primeira hora. A partir de quinta, as ruas de noite começam a se encher, com o ápice no sábado, com os bairros mais notívagos cheios de carros e filas nas portas dos lugares. Nem preciso mencionar os feriados, já que o mar de carros fica estampado em todos os jornais para exaltar a inteligência de todos os que resolvem fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo.
E ainda tem a rotina dos dias propriamente dita, divididos por horários. Acordar, chegar ao trabalho, sair pra almoçar, voltar do almoço, sair do trabalho, chegar em casa ou em algum programa, tomar banho, comer, tentar se divertir um pouco e voltar a dormir.
Na verdade, toda a rotina que descrevi, anual, mensal, semanal e diária, está necessariamente vinculada ao trabalho. A não ser os desocupados de plantão e os que vivem de renda, todo o restante está preso a isso. Dizem que o salário deveria levar em conta tudo isso, já que organizamos a nossa vida inteira em torno da labura diária.
É um sistema muito forte que organiza (e tiraniza, por que não?) a coletividade e nossa vida íntima. Como passamos a vida inteira dentro disso, dando força à algo que, no fundo, abominamos? Por que dedicar-se a malfalar algo que absolutamente não lutamos contra ou mesmo não buscamos brechas para quebrar um pouco essa dureza imposta?
Digo tudo isso porque eu advogo a favor da rotina. Lembro-me quando passei algum tempo viajando e a minha rotina era pegar trem, fazer mala, conhecer uma cidade nova, pessoas novas, igrejas, museus... e quer saber? Tem uma hora que isso cansa.
Adoro a minha rotina. Os meus horários de acordar e dormir, tudo quase sempre igual, os sábados, domingos. Quando por acaso viajo num final de semana, coisa que também gosto de fazer, tenho um enorme prazer de voltar pra casa e encontrar tudo o que eu já conheço, as coisas nos seus devidos lugares, os gatos fazendo as mesmas coisas, tendo que preparar minha mochila da malhação do dia seguinte, organizar a roupa que vou usar para trabalhar e pensar nas tarefas que terei que executar durante a semana.
Podem me chamar de chata, metódica, pragmática. De outro lado, na maioria das vezes os programas que faço estão na contramão da massa. Vou ao cinema nos horários que não têm filas, viajo quando todos ficam, compro o ingresso para o show que quero ir com antecedência e chego mais cedo pra não me estressar, ou então vou a um show que é maravilhoso mas que está inacreditavelmente vazio. Este ano, por exemplo, passei o ano-novo pela primeira vez em casa, tomando champagne em excelente companhia, fazendo rituais muito particulares. Longe, muito longe da massa que suja as praias com suas superstições genéricas.
E não fico de mau humor quando a segunda-feira chega.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
O Floco e a Asia
Os gatos são muito mais velozes do que os cachorros para entender as coisas. No primeiro dia, o Floquinho já aprendeu onde deveria fazer suas necessidades. Estava extremamente magro e mal cuidado, dava medo de fazer movimentos muito rápidos e mesmo um carinho mais pesado poderia derrubá-lo. Comia feito um desgraçado, como ainda faz até hoje, fica desesperado quando acaba a comida. Quando rodeio seu pratinho azul, ele fica dando voltas e miando alucinadamente até que eu retorne com sua comida posta. Não dá nem tempo de gritar "a comida está na mesa, crianças!", que ele, ofegante, já iniciou a comilança. É um morto de fome!
Muito diferente da Asia, a fêmea da casa, delicada e muito fina, que sabe dimensionar a quantidade de comida para o dia todo.
É muito evidente, numa olhadela desatenta, a diferença de gêneros dos bichinhos. Ele senta de pernas abertas e ela de pernas fechadas. A casa inteira nota quando ele solta o verbo na piscininha de areia e a Asia é pura discrição nas suas privacidades. Ele é o próprio machinho, não gosta muito de carinho e ela gosta de brincar com ele, mas gosta mais ainda de terminar o rala-e-rola com uma poderosa limpeza no final. Sim, é ela quem faz o lambe lambe nele para os seus pêlos brancos não darem pinta de sujeira.
A sua sem-cerimônia é tão grande que quase perdi todo esse texto depois da sua subida espontânea no teclado. A sorte foi que ele, com suas patinhas rosas, apertou as teclas certas e publicou o texto antes mesmo de eu terminá-lo. Acho que ele quer atenção!
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Num intervalo curto, um ano, uma sombra, um devir - um pensamento cinza numa noite de verão. Esqueço todos que um dia amei - no meio fio da existência, fecho minhas pálpebras e sonho com minha morte. Nada me lembra um dia em que fui feliz, que um dia apaguei minhas velinhas com regozijo. Hoje são velas apagadas, tristes lembranças de um sopro fundamental que trazia em suas moléculas a esperança num futuro, qual ele fosse. Quem foram aqueles que me abraçaram tão calorosamente que me fizeram crer que eu existia? Que meu corpo era apropriado para um abraço forte e confortável, minha pele poderia sentir uma leve brisa e arrepiar-se de prazer? Um bendito colo onde nasci vespertinamente, casa cheia, mesa farta; apenas fortuito e casual? Um bendito alimento sagrado fez-me o que sou e o que sou sem mim? Quem era eu que não me avisou para olhar a tudo duas ou três ou quatro vezes seguidas até ter certeza que eu era? Sim, eu cansei minha retina ao tentar enxergar uma vez minha pele, uma vez minha própria dor, mas o tempo, senhor de todos os desastres, me atropelou com sua lâmina metálica - vergo meu corpo ao me ver o tempo todo quase sem respirar, quase sem existência crível.quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Chamem a polícia!
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
domingo, 27 de janeiro de 2008
os deuses tristes da morte
Já fomos mais felizes. Reinávamos num espaço onde a natureza era certa e a comida farta. O sonho de nos vermos velhinhos e saudáveis, de mãos dadas por aí, vestindo roupas antigas e de qualidade, com as crianças seguras em suas casas. O início é sempre belo e pleno. Mas estamos nas nossas vitrines de vidro. Um arremesso errado, um ângulo torto do vento e levamos a tempestade direto na cara, que suja nossa roupa recém-comprada, e joga granizo na pele.Eu não encarei o sepultamento. Olhei para o chão, derrotada. Sairia gritando, teria convulsões, se tivesse saúde. Quando a perplexidade e a tristeza são muito grandes, ficamos em silêncio. Não dá pra gritar. Falta espaço, vontade, coragem, voz. Não há necessidade, ninguém irá ouvir. Ou melhor, todos irão escutar, menos aquela para quem você grita. O silêncio é a melhor forma de resguardar um pouco de dignidade. Mesmo porque a minha tristeza durará a vida inteira. Chorarei até dar meu último suspiro.
Dei minha vida, meu sangue. Daria tudo novamente. Joguei-me no abismo da morte. Sobrou pouco. Sobrou o amor, eterno, mas isso ainda é pouco. Sobraram minhas células, que aos poucos se restabeleceram e me deram a chance de sentir raiva - um ódio suficiente para xingar a Deus com toda a minha visceralidade. Sobrou um corpo forte, capaz de aguentar muitos trancos. Mas isso é pouco. Nada é suficiente e nunca será. Sobrou todo mundo que muito me amou, e isso é quase tudo.
O meu olhar é perecível e se despede de tudo em todos os momentos. Olho com atenção as veias pulsando de quem amo para ter certeza de que estão ali.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
um moment´s com os grafiteiros
Quem ajudou o Fábio Magalhães a entrar no universo underground do grafite foi o Daniel Medeiros, mais conhecido como Boleta. O grafite tem por característica o anonimato. Todos assinam por codinomes, então nunca se sabe direito, exceto pelo estilo, quem é que está pintando e bordando os muros, viadutos e vielas da cidade. Tive bastante contato com o Boleta e com as explicações que ele dava das obras e dos artistas. Alguns eram velhos conhecidos dele (como Higraff, Cesar Profeta e Tim Tchais), em outros casos ele sugeriu nomes mais novatos, como a Yá! (adorei o trabalho dela) e o NDRUA. É justamente sobre o Ninguém De Rua que quero falar nesse texto.
O Ninguém, como o chamam, tem olheiras. Quando o Boleta falou isso, já fiquei com as olheiras em pé. Olheiras mesmo, não orelhas. Porque eu tenho olheiras de nascença. Elas crescem ou diminuem conforme meu estado de espírito, mas EU TENHO olheiras, invariavelmente. Já tentaram me dissuadir a ir num dermatologista, mas eu não vou. E o NDRUA criou um personagem que ele desenha em quase todos os grafites, que é um grande olho estilizado com olheiras. Eu adorei isso. O cara não só não tem vergonha das próprias olheiras como estampou na obra, pra todo mundo ver. E aí eu achei muito irreverente essa obra, Moment´s, com os três personagens sentados no sofá fazendo um "cigarro de maconha" (haha). Estão lá no museu, como obra de arte. Estou até com mais orgulho das minhas próprias olheiras, depois de ver o NDRUA transformando em arte algo que, em geral, as pessoas acham feio e digno de ser apagado.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
os porquês e os paraquês
É simples de entender. Na frente da vitrine, por que preciso de um sapato? Porque os meus estão velhos, porque não tenho um sapato dessa cor, porque eu trabalho muito e mereço esse mimo. Mas, para que você precisa comprar o sapato? Bom, nesse momento a cabeça dá uma enroscada, não dá?
E talvez ele não encontre os porquês de estar vivo. Ou talvez encontre milhares. Porque ele respira, porque a mãe dele o gerou, porque ele precisa aprender, evoluir, amar, sei lá. Mas, e, para quê ele está vivo? Listinha difícil de responder... (É difícil até de acentuar os chapeizinhos dos ÊS, quanto mais de responder).
Existe, também, uma diferença grande em perguntar por que estou vivo ou por que eu nasci. Eu nunca me perguntei por que estou viva, e sim, em último caso, por que eu nasci. Agora, o porque de se estar vivo é uma questão que não se vitimiza, ela se refere ao momento presente e não há 30 anos atrás, quando estava na barriga da mamãe. Faz toda diferença.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Entramos correndo no hospital. As pessoas estavam deitadas como se fossem bebês. Adultos no berçário. Encontrei minha mãe agonizando. Olho novamente e era meu pai. E de novo era minha mãe. Havia variação na cor dos olhos, ora azuis ora verdes. Todos temos olhos claros em casa. Seja um ou outro, nada conseguimos fazer a não ser olhar assustados e impotentes.
Mario Cravo Neto, O Deus da Cabeça
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Abri os olhos. Sentia uma sede ancestral, como se nunca tivesse bebido um gole d' água na vida. Minhas costelas tinham sido erguidas. Vi as pessoas que mais amo sorrirem nervosas, dizendo que estava tudo bem. Era só o que precisava ouvir: está tudo bem. Como a expressão mais banal do ser humano pode se tornar a única coisa que você quer ouvir. "Mamãe está bem". Bem era eu que não estava, mas eu só queria saber se minha mãe ainda estava viva, se tinha aguentado a cirurgia. Bom, aguentou. Relatos posteriores disseram que eu só dizia, com a voz meio enrolada, a palavra analségico. Relatos posteriores contam que eu tinha uma aparência assustadora, amarelada, inchada, grogue. Passei a noite na UTI clamando por água e analgésicos. Mas eu não podia tomar água. O enfermeiro me dava a conta-gotas. É banal dizer isso agora, mas as gotas eram oceanos pra mim. Duravam horas na minha boca. A minha respiração era curta por causa da dor nas costelas. Eles literalmente reviraram minhas entranhas. Se um poeta sente suas entranhas reviradas é porque nunca passou por isso. Tinha uma enfermeira gorda que ficava sentada o tempo todo e me fez sentir, todas as vezes que eu reclamava de dor ou de sede, que eu estava exagerando, sendo mimada e fraca, a filha da puta da enfermeira burocrata não tem noção do que é sentir dor e não saber ainda por cima se sua mãe vai sobreviver. Acho que eu nem tinha organismo suficiente pra sentir raiva. Porque pra sentir raiva você precisa, no mínimo, estar completo, com todos os órgãos funcionando. E uma parte de mim já estava tentando pulsar no corpo de minha mãe. Já estava lá, ligada ao seu sangue e às suas entranhas, buscando desesperadamente salvar sua vida. Quem não daria um pedaço de si pra salvar a vida de quem te carregou na barriga e te gerou, num sacríficio que é a gestação, os primeiros meses, a dor no peito, a perda da privacidade e a doação infinita de amor que é a maternidade. Quem seria o covarde que faria isso?Foram dez horas de cirurgia. A última cena que lembro é dos anestesistas, era uma coisa meio Kill Bill, os dois eram lindos, uma oriental linda e um garoto com olhos amendoados, os dois super jovens perguntaram se eu fazia algum esporte. "Natação". E PUM. Desmaiei.
A ciranda do Julinho
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
pequenas suposições a respeito da existência de deus
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Um tapa na cara da benevolência
- Tia, hfjskslsls.
- Que foi? Você quer um lanche?
- É. (Sem convicção). Minha mãe está do outro lado (da rua).
- Qual lanche você quer?
Silêncio.
- Menino, você veio pedir um lanche, eu estou perguntando qual você quer. Você quer qual lanche?
- É... mortadela com queijo.
- Moça, veja um lanche de mortadela com queijo e um refrigerante pro menino.
Fiquei meio desconfiada dele. Uma pessoa que está com fome não faz cara de paisagem quando você pergunta o que ela quer comer. Ainda por cima ele ficou parado do meu lado, como se me devesse alguma coisa, como se precisasse de alguma cerimônia de gratidão pelo lanche. Logo dei um jeito de falar pra ele buscar o pedido direto no balcão, assim ele sairia do meu lado. Além de estar comendo, não queria ficar naquela posição superior que as pessoas se colocam quando ajudam alguém. Estava tudo certo: ele pediu, eu dei. E pronto. Também não quis ficar olhando para o outro lado da rua, assim ele e a mãe não se sentiriam na obrigação de fazer algum gesto de agradecimento só porque eu estava olhando.
Mas quando atravessei a rua, não tive como não perceber o isopor onde a comida foi entregue e a lata de refrigerante jogados no chão, à exatos 1 metro de um lixo. Fui até a porta da minha casa, mas não resisti e voltei. Mãe e filho conversavam com uma senhora. Logo percebi que ela contava aquelas histórias tristes de família complicada do interior de algum lugar (onde todo mundo diz que é "primo"). Passei por ela e voltei ao lanche. Só tinha ele de lixo no chão. (Um parênteses aqui: eu tenho um grande, mas um enorme respeito pelos lixeiros). E o que é raro em São Paulo: HAVIA UMA LIXEIRA!
Mas o pior ainda está por vir. Fiquei um tempo na dúvida entre falar com a mulher e pegar eu mesma o lanche e jogá-lo no lixo. Ando meio cansada de gastar energia com as pessoas sem educação (e com as que não sabem fazer gentilezas também e com as que não são civilizadas, são tantas...). Decidi eu mesma jogar o lixo, pra poder dormir sem pensar naquele pedaço de mundo sujo que me dizia respeito.
Quando vou pegar o recipiente, um frio passou pela minha espinha. Metade do lanche estava lá, intacto. Joguei fora a lata vazia, o lanche, tudo. Fui pra casa com o juramento de ser fria e cruel pra sempre. Só compro bala se estiver com vontade de comer, só faço doações pra quem conheço e sei que não vai deixar a minha boa vontade pela metade, largada no chão pra alguém tropeçar, ou se dignar a jogar fora.
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Tudo está tranquilo. Os abutres se foram. A cidade respira sua solidão aliviada. As aves-marias e pai-nossos precisam de vozes impostadas que se espalhem no meio-fio. Passa o lixeiro. Os resídios pesados já foram expurgados, restam ainda os detritos de comida; as bonecas mortas do passado, os carrinhos quebrados, papéis rasgados do esquecimento. Os sacos pretos disfarçam as brincadeiras que descem com o esgoto, os ursinhos carinhosos da infância voam livres nas mãos dos homens vestidos de laranja. Os cidadãos apressados não mais buzinam para pedir passagem - estes pagam apertados os pecados nas areias caras e sem privadas. Solto um grito debaixo do chuveiro, minha cachoeira particular suporta os graves e agudos até o ralo entupir. As luzes dos prédios piscam e as pessoas, sozinhas, saem nas janelas para olhar os fogos - eles aparecem nas frestas, entre colunas, nos vãos da modernidade - e se mostram aos pedaços, como estamos todos. Os votos de uma tia pelo telefone me emudecem; ela pergunta por mim e eu mais silencio com meu rosto quente e umedecido. O sopro forte do vento passa uma mensagem do futuro que não entendo, mas deixo-me levar pela sua inexatidão; leva-me contigo, eu digo, e solto meu corpo por entre o concreto. Soluço, e subo cada andar com uma alegria inusitada. Uma senhora acena, sorrindo.
