domingo, 28 de dezembro de 2008

amigos noturnos

É demasiada e longa a espera. Um uivo solitário e um tilintar de talheres - frestas de realidade na noite que não passa. Os fantasmas aparecem para me visitar. Mexem na cozinha, ouço o ruído de pratos batendo e risadas largas de quem desfruta algo proibido. Reforço os cobertores para me proteger. Devo ter sonhado e fico com os olhos estalados para ter certeza do que ouço. A janela reflete desenhos assimétricos nas paredes do meu quarto. Tento rezar um pai-nosso mas sempre páro no venha a nós o vosso reino, tento novamente e por vezes repito o mesmo calvário o mesmo erro a mesma lacuna mental não consigo ir adiante e chegar no amém, simplesmente emperro no reino e bloqueio o resto. Então volto como um disco quebrado que toca para um morto. Fico com medo do deslocamento e não tenho coragem de dar cinco passos do quarto para a cozinha então fecho os olhos e tento acreditar que é apenas cansaço, insônia, delírio noturno. Reforço ainda mais os cobertores, algo a mais me cobre e a figura não mostra seu rosto.

sábado, 20 de dezembro de 2008

o olho da rua

É um dia lindo de sol. É normal sair nesses dias. As pessoas gostam de ver pessoas. Onde tem mais gente é onde elas vão. Os lugares tradicionais estão cheios de famílias que chegam em carros pretos. Os valets trabalham freneticamente. As massas saem do forno lotadas de molho fumegante. Todos matam a fome no couvert. As praças têm crianças e cachorros correndo. Os amigos saem para um moment's e as esquinas brilham douradas com seus copos de cerveja.
É prateado, um fio delicado que sustenta o contentamento. As risadas alheias nauseam as tristezas compulsivas. Em horinhas de descuido, isso já foi escrito - esse estar descomprometido, alheio, inebriado é dedicado aos que não sabem o que é viver sem isso.
Os desejos mais latentes, a vida realmente está geralmente nas esquinas onde as bombas estão prestes.

entre as nuvens carregadas de chuva

É simples entender que cheguei até aqui sem mim. Nenhuma alma me acompanha desde então. Não diria que esqueci de viver. Apenas não encontrei um conjunto confortável que caiba no meu corpo. É um morimbundo que me habita. Um outro, que não está mais aqui. Tomou conta e está aqui a psicografar meus textos. Desalmado o que está decidindo os rumos desta temporada. É um homem plástico. Perdeu o meu coração e estou aqui - desfiando minha alma.
É de supor que eu deveria me rebelar. Assim como blasfemei da forma mais explícita ao xingar Deus e seus súditos no momento em que traíram minha fé. Implodi qualquer grito. Agora já está feito. Meu corpo já aprendeu a absorver a minha revolta. Sou grande amiga da raiva. Virei praticamente uma selvagem, incomunicável e incompreensível. Um deus morto me acude vez por outra quando estou dentro da minha caverna sem televisão. A minha banda favorita toca a sua música mais triste.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

amor ocre

Muita coisa se perde nessa vida. Mas algumas delas a gente até gosta de perder. Ou considera necessário. Força o afogamento para ver se aparece um isopor no final para te salvar. Ou vai até as últimas consequências e no final das contas contempla o corpo morto como um amor antigo que, sim, deveria morrer, mas de toda forma você não deixou de amar.

Um clarão anuncia que já é hora. Engulo, quase sem querer, uma gota do meu próprio sangue.

ps. Ontem li num livro que os desejos de verão se tornam sementes no inverno. Bonito isso, né? É do Truman Capote, meu herói de sempre. O primeiro livro dele, Travessia de Verão, é memorável. Gostaria eu de ter essa verve com tão pouca idade.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os ecos e o Astor

Estou tentando não ser um eco burro. É tão pungente que o eco ressoa quinquilharias, móveis usados e eu não quero mais cuidar de ninguém. Já dei minha cota de doação exasperada. Fiz o meu dever na carne e ela saiu suspensa (louvada seja!) e voltou para a terra. Eu me putrefiz ao me enterrar uma parte. E subir aos céus não é bem uma prática fácil para quem tem o peso como medida. Então fico aqui, tentando manter uma rotina com o meu cachorro. Ele fica carente quando não apareço. É ao mesmo tempo gostoso e insuportável saber quem tem algo que depende de você. E daí ele fica com a empregada e eu fico com ciúme. Ciúme do meu próprio cachorro. Só posso ser bestinha. Mas eu fico. E daí tento manter uma rotina com ele. Então é ele quem está me educando, ou melhor, adestrando meu ímpeto de nunca ser.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Luminosa manhã

É inigualável a sua presença. Nenhum divã, com sua suntuosidade, me daria tanto tremor do que ela. É quando ela desponta com seus cabelos dourados e prateados que minha espinha trinca. Uma vez, no hospital, tomada de morfina, tive uma visão. Ela ia me visitar. Começava a cantar. Fui com ela até a UTI e tirei minha mãe do torpor. É de Bethânia que falo. Foi um anjo por uma noite no meu delírio desesperado de salvar minha mãe. E é ela quem invoco novamente para atravessar o dia. Hoje seria (ou é?) aniversário de quem com tanto amor me gerou e com tanto amor me deixou.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

numa tarde sutil olhando as árvores...

...esqueci de me lembrar de você. E depois que lembrei, me dei conta de quanto já tinha mudado, o quanto da minha vida não poderia mais compartilhar com você. E como mudei. Mudei tanto que não teria meios de te contar todos os detalhes dos acontecimentos, de forma a alimentar o seu imaginário de todas as fantasias, os desvios, as lacunas que eu tenho vivido. Quantos foram os domingos que mexi meus dedos em cima da mesa com uma dúvida absorta do que fazer. A surpresa acabou aparecendo e fui me deixando levar por fluxos de pessoas, trajetos, livros, delírios tão outros que me foram levando embora. Como um sofá que boia no esgoto e desemboca num rio onde é descoberto por um colecionador de sofás esgotados. Tomo champagne sozinha e brindo a mim mesma. Como uma reza um mantra uma meditação faço mesmo que seja num domingo sozinha com o meu cachorro um momento grandiloquente. Esboço minhas tristezas em desenhos na água quente da minha banheira vermelha que se tornam brumas neblinas vapor que embaçam o espelho. Nele escrevo uma poesia efêmera. Tudo o quanto já tenha sido - de intenso de ríspido de sobras - um trator amigo carregou junto com o lixo reciclável da rua. Tenho ainda tudo a perder - tudo o quanto há de novo - mas nada mais a temer.

domingo, 16 de novembro de 2008

N'outro domingo

Descubro, aos poucos, novas versões de mim. Talvez alguém menos cortante, um pouco mais veludosa me habite. É nova, a habitante, pouco desdenhosa, porém um pouco mais aconhegante.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

é o silêncio uma prosa
é na lacuna e na lombada que as palavras perdidas se encontram
nas planícies frias e desertas
verso sem palavras e o silêncio me salva da loucura do gesto

domingo, 2 de novembro de 2008

Outro domingo

É preciso distanciamento. Uma vez mais um domingo é hoje. É preciso que passe. Não adianta tomar sorvete. É o dia da lacuna e do silêncio. Olho o telefone algumas vezes pensando que posso ligar para alguém. Sempre me engano e quase disco um número que não existe mais. Não tem macarronada feita com molho de tomate fresco.
Nem a paisagem, nem as árvores balançando, nem o barulho de crianças brincando na praça. Passo o dia como um refugiado, com vontade de voltar para casa, mas sem casa para voltar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

é colossal a evergadura da morte
é água, pão e vinho

sábado, 25 de outubro de 2008

Pausa para os comerciais

Pode ser uma maneira de , como se diz, limpar a cabeça ou mesmo fingir que não estou ali. Um de meus prazeres secretos mais recorrentes é o de olhar o nada. Pode ser a parede, o chão, o tapete ou o meu cachorro. Na verdade, o cachorro, o tapete, o chão e a parede não são nadas, são de fato objetos, um deles animado os outros sem vida, porém com suas cores e texturas bem definidas. De forma que olhá-los representa encontrar neles uma celebração do presente ou mesmo da concretude. Considerando que minha fé foi para o ralo há algum tempo, essas coisas se tornam a minha alternativa a um momento, muito comum por aí, de parar a vida para rezar ou mesmo para ter bons pensamentos. Eu quase não tenho pensamentos. Penso muito de vez em quando e, em geral, isso acontece quando não percebo. Mas quando estou olhando o nada fico absorta nisso, me esqueço, quase esqueço quem eu sou. Talvez o que de fato seja um dos meus maiores prazeres seja - agora me dou conta - esquecer quem eu sou.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Breve nota sobre as putas

Um turbilhão mudou tudo. As putas são minhas heroínas. Sempre serão. Papo doido. Há pessoas que não as entendem. Eu queria ser amiga de uma puta, tipo passear no shopping juntas. Rogozijo total.
Elas são o turbilhão do mundo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Caju amigo da palavra

Tanta tristeza vira livro. Estou certo que sim. No lugar de um câncer no fígado ou de um derrame que derrube um lado do meu corpo, eu escrevo.
Tanto lugar vira nada. Tenho certeza que sim. Qualquer arte não serve. Tem que achar a palavra. E depois de tanta insônia o perigo é bater no poste da palavra. A rota de colisão. Nunca estive fora dela. Me vê um caju amigo que a minha amargura vai virar palavra e eu preciso estar alto para encontrá-la.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


o tempo é o deus da saudade
nada me resta senão as palavras
e as esquinas imaginárias

domingo, 5 de outubro de 2008

how my heart behaves on sundays

(...)"Não existia mesmo. Se restavam dele ainda alguns ossos, existiam por si próprios, em completa independência; não eram mais que um pouco de fosfato e de carbonato de cálcio com sais e água". É assim que ela deve estar, porque existe um resto de corpo em algum lugar. O corpo morto e inexorável continua morto e inexóravel lá dentro da caixa de madeira e do cimento. Vai se despedindo enquanto gangrena nossos sentimentos. A artista francesa Sophie Calle registrou em vídeo o último mês de vida de sua mãe. Tem 612 horas gravadas. Pelo menos ela tem a certeza íntima de poder captar outros detalhes que a urgência e o desespero de guardar na memória as expressões do rosto não deixaram reter. Meu irmão fotografou a minha mãe sendo maquiada, morta. Perturba-me saber que essas imagens existem, mas é poético e sobretudo mostra a devoção e o amor de um filho. Não reconheço nenhuma cena. Tento esquecer que um dia...
Assim como o tempo não é suficiente - se ela tivesse 100 anos, se tivesse registrado minha vida inteira numa filmagem ininterrupta - um sopro a mais uma declaração a mais um abraço a mais nada disso, nada disso aplacaria a náusea que sinto pelo mundo. Sim, é de Sartre a declaração inicial do texto. Sobretudo aos domingos acordo nauseada. Não sei para onde ir, para quem ligar. É um relato sem dúvida vago e todos vão cansando da mesmice das minhas declarações. Os amigos vão desistindo da minha falta de sociabilidade. Alguns persistem, heróicos. Outros já me olham como se eu fosse um fantasma. Enxergam em mim a própria morte. Fogem como lagartos quando encontram alguém no meio do mato. Nem sei como continuo viva, acordando, dormindo, eventualmente dando bom dia de óculos escuro. Só um amor mesmo me mantém viva. Vou chamar de Domingos todas as orações não atendidas por Deus. Deveriam tê-lo avisado para não descansar.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

30 anos

Eu estava lá, junto com todas as águas, com os peixes mais velozes passando por mim e os mais lentos na mesma velocidade que eu. Eu ainda era um pouco humana e tinha um coração, um certo coração, digamos que uma palavra melhor seria um corvo. Pois eu tinha um corvo no meu coração. E esse corvo não somente pesava e comprimia o espaço do meu peito como aos poucos se alimentava do meu sangue. E por isso eu nadava lentamente, não cabia no interior das minhas veias tanta fluidez, sim, eu parecia uma velha cansada pesando dentro d´água.
Aos poucos, conforme eu nadava a 0 km por hora, conforme eu avançava e o meu sangue rareava, minha visão turva me mostrava cada vez menos as margens e havia cada vez menos colegas aquáticos. Achei por muito tempo que iria morrer. Pensei que seria uma pena mas que pelo menos algum sofrimento seria aplacado.
Toda essa introdução para dizer que exatamente quando fiz 30 anos, e isso aconteceu numa tarde de um dia desses, desemboquei num rio largo, límpido e com uma paisagem toda aberta. Consegui a duras penas arrancar esse corvo do meu peito e me sinto com 30 anos a menos. Uma tarde de um dia desses a natureza me presenteou com um belo pôr-do-sol na passagem de um rio turvo para uma queda d´água onde boio, humana, descansando de mim mesma.

sábado, 13 de setembro de 2008

Nicolash

Não, eu não estou melhor. A vida continua sem ressalvas. Apresentaram-me um certo Nicolash. A regra é que se ele descer redondo comprova a existência de Deus. Fiquei super animada. Engoli perfeitamente o líquido e dei um suspiro de alívio. "Deus existe", pensei. Mas não. Nicolash existe.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A angústia de Mr. Writer

Diria que o Mr. Writer deveria saber todas as respostas. É ele quem antevê a história do meu futuro romance. Um delírio rebuscado que sempre toma conta. Uma fuga à angústia, a Grande Aliada da Grande Falta. Teria todos os elementos, o Mr. Writer, para fazer um tratado sobre a Angústia, a Grande Aliada. Aliada alada. Voa plana e passa como um vidro na altura do peito da humanidade. Todo mundo curvado com os ombros revirados as escápulas deslocadas com o estupor no peito. Diriam os professorinhos que põe o corpo no lugar que é uma rotação interna de ombros. Ela aperta o coração para dentro. O trabalhador que espera o ônibus e o flanelinha deliram seus corpos como o empresário também ainda leva a culpa, a Outra Alada. Ei, Mr. Writer, responde aí o que a Aliada tem em comum com a fé? "Não tem sentido", e se ele responde assim tão resoluto a briga do peito curvado é pelo espaço debaixo da terra. É o 7 Palmos, o Deus da Morte, o regente da orquestra. "Pergunta pra ele", responde Mr. Writer categórico.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

um soturno grito de silêncio

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

nada além do silêncio
nada além de nada
um sono profundo e as paredes descascadas
acabaram os aeroportos
o vento bate e mexe com as folhas do livro
perco a página
estou descascada

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Alegria estranha e outros mistérios

Tenho sentido uma estranha alegria. Não sei o que é. Mas apesar de senti-la, ela também dura pouco. Primeiro porque eu desconfio e a olho de esguelha. Último porque nunca estou completa e sinto o tempo todo a Grande Falta. Eu e o Caio Fernando. É um dia de sol e céu azul. Mas eu tenho uma nuvem particular de chuva com neblina ao meu redor. O tempo todo. Uma amiga disse outro dia que a felicidade ainda é um mistério pra ela. E, falando em mistério, o que interessa para o escritor é escrever tudo, mas nunca desvendar o mistério. Li isso ontem em Paris Não Tem Fim, do Vila Matas. Ele tem razão. É isso que interessa o tempo todo.

O autor póstumo

Não me trate como um criminoso. Eu apenas atirei em mim. Nunca cometi mal algum. Já salvei abelhas e formigas do afogamento no banheiro. Não venha me dizer que sou cruel só porque estourei os meus miolos. Dos meus miolos estraçalhados entendo eu. Fui eu quem me viu a primeira vez depois de morto. Achei-me admirável. Nunca tinha me encontrado tão em paz. Minhas dívidas estavam pagas e meu rosto sabia disso. Esse foi meu momento de glória, de amor , de lembranças, de exaltação coletiva por mim. Uau! Esse foi o ápice da minha vida! Quando me olhei desmiolado quase tive um orgasmo.
Mas agora eu já ando deprimido de novo.
Talvez fosse melhor desorganizar tudo. Reordenar a bagunça. Arrumar o armário e as lavar as roupas encardidas.Ou melhor: desorganizar tudo. Sujar a roupa. Colocar a louça no armário e a roupa na pia. Desfrutar o caos. Deixar a alma encardida.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

15h, velório

Visão distanciada é sempre bem-vinda. Agora, depois de mais de 1 ano, consigo agradecer em particular algumas presenças espetaculares que foram me dar um abraço. Pra ser sincera eu entendi menos da metade do que as pessoas me disseram. Mesmo porque algumas falavam enquanto passavam a mão na minha cabeça e com esse gesto de carinho extremo, de nervosismo, faziam ruído e tampavam meus ouvidos. Eu agradecia, somente.
Entrei me tremendo toda. Começaram a me abordar com compaixão. Bom, eu estava toda torta, com um dreno cheio de sangue saindo das minhas vísceras, com metade do meu corpo cortada e um fígado dilacerado e a primeira coisa que eu disse, eu não sei se eu disse em voz alta ou baixa ou somente na minha cabeça, "eu quero ver minha mãe". A morte, irredutível, sem consolo. Não levei um susto ao vê-la. A primeira coisa que fiz foi passar a mão no seu cabelo, como fazia tantas vezes para acalmá-la, para tentar aplacar sua dor, e ela me abraçava e me agradecia e ficava lá quietinha. Eu olhava uma duas três quatro vezes para ela e tentava, assim, fixar e fotografar seus poros, sua pele, textura, cor, cheiro na minha memória. Eu sabia que um dia iria precisar. E esperava que ela dormisse. E olhava seu abdômem sempre. Se ela estava entre uma respiração e outra, eu sempre me desesperava por alguns segundos e logo ela voltava a respirar.
E um padre filho da puta começou a rezar sem sentimento nenhum, sem inspiração nenhuma, errou os nomes dos parentes, e cuspia, cuspia pra caralho em cima do corpo da minha mãe, o filho da puta do padre. Se eu tivesse fígado teria mandado ele tomar no cu ali mesmo. Ainda por cima ficou pedindo dinheiro e quando alguém da família deu 1 real ou qualquer quantia baixa desse tipo, ele recusou. A cabeça dele deve arder até hoje e vai arder a vida inteira.
Eu mudava meu olhar de lado e todo mundo perguntava se eu queria comer se eu queria água se eu queria alguma coisa. Sim, eu queria, mas nada que alguém pudesse me devolver. Eu não chorei. Minha respiração era curta demais pra isso. Lembro da maioria dos abraços que recebi. Eu gosto muito de abraço.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

em casa

A única coisa que eu tenho verdadeiramente vontade de fazer é ir para casa. É o único lugar no mundo onde me sinto um pouco aconchegada. No resto, sinto um deslocamento, se estou no cinema estou pensando que queria estar na minha casa, se estou na minha casa gostaria (idealmente) de estar num cinema. Mas se estou na minha casa, pelo menos não tenho que voltar para algum lugar, é simplesmente lá onde vou ficar, talvez onde vou morrer. E do cinema ainda há um percurso, ainda preciso ter que pensar um pouco qual foi a porcaria de filme que vi e não senti nada no meu coração. É uma maioria de coisas sem coração que há no mundo. E todo mundo culturalmente vivo está aí atrás de tudo, quer ver tudo, quer conhecer o desconhecido e contar pros amigos que viu um artista em tal galeria de arte. Meus caros, o meu coração é o que importa. Então vou pra casa e fico olhando as paredes. E olho o teto, as cadeiras - olho três quatro vezes cada objeto. E é neles que entendo toda minha existência, onde reconheço que eu também sou uma parede, uma cadeira, um objeto meio bípede, meio desengonçado - e ali encontro todo mundo. Brindo com meus amigos com vinho tinto, celebro todos que amo. Robson Crusoé fez o mesmo, sozinho, delirante e bêbado na ilha.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O mundo anda emperrado. As engrenagens descarrilaram. Anestesiaram qualquer razão. Um sonho-vertigem, talvez um reecontro me voltaria aos trilhos.
Doce uma voz. Latido de cão novo. Acendo uma vela. Rezo. Lamurio. Dê-me uísque, cowboy por favor.

domingo, 20 de julho de 2008

Foi pela jugular que me deram morfina. Eu sentia um cheiro forte e tinha enjôos. E aí me davam uma espécie de outro remédio. Passava o enjôo mas eu não podia tossir. Também não pude chorar quando me ligaram do hospital. O corte grande perto das minhas costelas limitava meus pulmões. Depois de dez minutos ou mais não sei perdi a noção do tempo que meu irmão disse "só um milagre a salvará" voltei a ouvir o barulho da minha sobrinha brincando. Foi um silêncio tão profundo dos três irmãos, os três irmãos que dariam a vida para salvá-la e deram tudo foram até o limite pra devolvê-la ao mundo e não conseguiram. Se eu estivesse vendo a cena do outro lado da tela teria ficado com um travo na boca, teria náuseas e choraria como se a dor fosse minha, como se a mãe fosse minha. E era.

sábado, 19 de julho de 2008

Mato

Amanheço riacho. Corro rocha abaixo e encontro meus pés. Os fios de cabelo tornam-se cascata jorram pensamentos desviam das pedrinhas prateadas. As pedrinhas, elas também ficam douradas. A pinguinha esquenta encharca as células - sim, eu estava esbranquiçada e pálida e cheia de agruras - mas as pedrinhas a pinguinha um novo ar me renovaram o espírito.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Oceano faminto (de distância)

Continuo existindo em algum lugar. Numa rotina parca e cheia de vazios, num vencimento de datas e precisões estouro todas as minhas validades. Nada me sobra senão meus músculos e já são o bastante para estar de pé. De resto minhas olheiras denunciam meu torpor. Não durmo mais e meu sono é um transbordamento de uma psique torpe. Quero, gostaria, de me ter. Não sou mais a mesma mas ainda não me tornei. Outra, quem será que me encontrará no fim da linha? Amanhã de tarde, talvez? Não no gramadinho lá de casa, porque lá o local é sagrado. Penso sempre e tanto em quem está longe, meus amigos que se foram. Todos que se foram me deixaram em branco. Tento desenhar em cima mas a casa está vazia. Despistarei os fantasmas para quando meus amigos chegarem. Não há conversa que sustente a minha falta de conexão. Os fantasmas estão tomando conta dos meus buracos. Eles são gentis, tentam se moldar ao espaço e me lembram de escovar os dentes.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Je m´apelle

Se há um inferno, é este. O meu nome. Cansei de mim. Trocar de nome seria uma boa alternativa de me manter um pouco em pé, um pouco de bom-dia no espelho - deixei de dar desde que morri. Manhãs soturnas são meu nome. Prazer, Manhã Soturna. Seria non sense, mas é assim que falaria. "Meu cordial, boa noite. M.S.". E deste modo assinaria no final das cartas pros meus amigos. E deste modo seria minha marca pelo mundo, deixando sempre os outros com cara de náufrago ao emitir o meu nome.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

no terraço

Uma amarração fortuita poderia me fazer jogar do décimo andar. Devo resistir à tentação de dar o derradeiro passo, penso nas pessoas que dizem me amar. Coitados seriam de me enxergar com a cara amassada do asfalto. A minha morte deveria ser mais amena do que essa, mais respeitosa, digamos. Não comigo. Com os que ficam, obviamente. Porque são eles os que restarão encantados. E passa um vento nas minhas costas, assusta-me. Enquanto não termina a música no ipod devaneio sobre minha própria morte, que poderia acontecer daqui a pouco?

Já não aconteceria mais da forma como imaginei. Nessa cidade ninguém perde dez minutos olhando um corpo no chão. Eu não seria como um Hemingway - a minha morte não seria literária. Eu não teria recompensa, não teria obra póstuma, nem retrospectiva.

Passo ao largo do rio. Balançam as árvores, gosto do tom de verde das folhas, elas tremem e minha visão embaça. Desfoco o olhar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ao meu amigo Caio F. A.

Eu não falaria outra língua se você me entendesse. Eu não me mudaria de cidade se você me abrigasse. Se da forma que bati em tua porta você não atendeu, que macacadas eu devo fazer pra te encharcar de mim? Não basta roubar seus beijos e arrancar todos os drinks da sua mão, uma vez, duas vezes te levar pro meu quarto e não te derrubar na cama – é sempre um quase, meu caro Caio Fernando – sempre passamos do ponto e a porta não abre de jeito nenhum. Eu não me suporto. Te roubaria de ti pra nunca mais ter de me olhar no espelho e ver a figura esquálida que me tornei. Minha magreza é tanta que me alimento de amendoins à noite, na solidão da minha casa sem TV. Coca light e amendoin. Ouço um rockzinho do Pete Yorn, um mp3 que ganhei de um amigo antigo. Amigos antigos. Quem são eles. Ora, ora, Caio Fernando, acabo de abrir um livro seu e você já é meu amigo antigo. O mais antigo de todos. Tomaria todos os porres do mundo com você, bateria na sua porta feito uma louca e roubaria beijos lésbicos da sua boca bicha. O mundo nos engana, não confio em placas de trânsito nem em decisões tardias.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

vertigens noturnas

"Liga pra polícia. Tem gente entrando pela janela da cozinha!".
Meus movimentos eram lentos e acordavam conforme eu ouvia o som da descarga no banheiro. Tudo normal. Ela volta de um xixi noturno. Devo estar paranóica. Quem estaria me seguindo? Crianças morrendo no meu sonho, duas ao mesmo tempo. Mistério na cidade, quem teria assassinado duas crianças juntas? Vou ligar pra minha irmã caso a polícia não atenda. Não, não precisa. O barulho é da descarga do banheiro. Meu corpo tem movimentos involuntários na cama. Dou saltos e minhas vísceras pulam pra fora da cicatriz. Vejo as entranhas pra fora do meu corpo: "FORAM ELAS", grita a avô das crianças! "Foram elas que mataram minhas netinhas"!

terça-feira, 24 de junho de 2008

sobre o esgarçamento (nosso)

esgarçar quer dizer desfiar-se
(desfiar-me + desfiar-te)
que fosse de tudo se não houvesse
- e acabam virando bodes expiatórios -
rasgam (quebram, engolem) seus instrumentos (e sopram música para um mundo atônito)
beiram o abismo sem medo de uma lufada de vento
e antes do mergulho sorriem inefáveis
(pq últimas consequências necessariamente são as últimas, será que ainda não há mais consequências antes da última?)

lá vou eu, de novo.

9:46

Um detalhe do cotidiano. A quantidade de músicas que passam ao percorrer um caminho determinado de casa para o trabalho. Agora ando a pé.
Quem ouve as músicas no repeat sabe do que estou falando. Tem gente que conta a quantidade de escovadas no cabelo, outros contam os passos do banheiro pra cozinha do quarto pra varanda, mas eu não escovo o cabelo, por isso vivo descabelada. Mas eu conto as músicas. São duas e meia, uma lá do U2, pra ir do trabalho pra casa. Claro que se for do Ramones serão umas quatro (quatro acordes, 2 minutos). Farei os testes: Sigur Rós por exemplo já não deve dar.
Tenho que me ocupar com tudo o que há de variações, de distrações, não consigo mais ficar em silêncio. O barulho é agora o meu grande companheiro. Baixo Augusta, gente louca, fumaça - isso é meu paraíso. Contar músicas me salva do mais absoluto desespero.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

sobre a amizade

Tenho andado sem criatividade, ou melhor, tenho visto o mundo com o maior dos olhos literários, com trilha sonora e tudo, mas não estou conseguindo sentar e escrever. Muitas coisas acontecendo, amigos indo embora, mudança de casa, ando meio impotente criativamente, apesar das emoções estarem deveras intensas. Mas encontrei um texto antigo que escrevi sobre a amizade, e acho que representa um pouco do momento que vivo. Gostaria de poder escrever sobre meus amigos mas nunca consigo. Esse texto é uma parcelinha do oceano faminto que me liga e desliga deles.


sabe que depois que você segurou meu braço na porta daquela discoteca as coisas desandaram um desabamento em cadeia um dominó desenfreado desceu ladeira abaixo sem preguiça na ladeira tipo aquelas de perdizes me perdi solamente de tudo o que poderia um dia me segurar e fui de cabeça pra baixo com os braços estendidos e os olhos espremidos pra dentro de medo do mergulho no escuro determinado em não me segurar em nenhum corrimão em nenhuma mão solidária o meu movimento não tinha calma e sofria de ansiedade pela descida no meu carrinho de rolimã que ia de encontro à curiosidade de conhecer cada detalhe seu

terça-feira, 3 de junho de 2008

O último anúncio

É hora de ir. Hora de se despedir. Desligar os aparelhos e olhar para o céu. Espantar-se com o barulho apartado do mundo. Olhar para a pele amarelada e anestesiar-se diante do sofrimento. É hora de partir. O tempo esvaiu. O barulho parou, a sonda secou. Grito estancado no tempo. O ventre sujo do mundo agora me abrigará (aonde?). Não a reconheço mais, ela não é mais, não está mais ali. A visita acabou. "Ligaram do hospital".

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A minha champagne supernova

Tem alguém querendo arrancar minha alma. Poxa vida. Como é que faz quando chega um espírito, uma entidade, uma força que quer te arrancar de você enquanto dorme? Acho que é tipo um Voldemort. Bom, daí eu gostaria de ter uma coruja...
É duro voltar. É duro resistir. Acho que é um tipo de coisa que invade o seu pensamento. Esses caras devem ter uns eletrodos umas máquinas superpoderosas que entram quimicamente na sua cabeça e ficam te puxando pra cima, pra fora de você. Sai daqui! Xô, maldição! Num quero saber dessa porcaria. Bando de porcarias, entidades porcarias, gente porcaria que tem nesse mundo! Gente feia, apagada! Mundo-apagão! E não é só a classe média não, é quase todo mundo com essa cara de pastel, com a caradecu passeando com a família de domingo.
Tô meio revirada mesmo. Vai ver é por isso os demos tão aparecendo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Gramadinho sem você

Eu não preciso mais de você. Nem das suas plumas nem da maneira como você me ignora. Com seu jeito previsível de lidar com as paixões nem com a maneira como você me recebe, cordata, sorridente, prestativa. Sua maneira de me aceitar e dizer que sou tão necessariamente intrínseca à sua vida cheia de alentos me enfastia. A cada papel que jogo fora, a cada passado que me livro um livro sim eu escrevi um livro e isso não me dá nenhuma credencial mas eu tenho uma violência que ninguém jamais irá entender completamente. Quando vejo um abismo insisto em não me jogar porque o primeiro impulso ele parece que não é meu. Suponho que tenha uma vida tranquila numa vila e seus caminhos sejam sempre melancólicos com árvores no outono em torno do seu caminhar de cotovia flutuante; haha, dou risada do meu próprio ridículo.
Meu jardim está quase pronto. Eu não preciso de mais nada. O status que eu tinha ao seu lado é absolutamente desnecessário. Words are very unnecessary, dançávamos essa música nos bailinhos. E agora é você unnecessary, veja só.
Você com toda sua urgência. Com toda a agenda cheia de trabalho. Seu trabalhinho que leva as grifes com seu cachorrinho para o parque fazer pose de descomprometida. Você com toda sua mania de apresentar as pessoas com nomes e sobrenomes, quanta empáfia a sua!
Seu balanço suas mãos seu corpo que era tão bonito não vai deitar no meu gramadinho, que bom um dia poder dizer isso tão em voz alta ouvindo um som tão alto nos meus ouvidos gritando urgentemente outros nomes outras pessoas que são tão melhores que você.

domingo, 25 de maio de 2008

Dela

Te diria que te amo demais. Que sua voz se tornou meu badalo, sopra feroz uma vela; desfaleço - vem pra mim pra sempre. Te diria que vertigem sua voz. Te diria da próxima vez, todo dia até você cansar. Sonharia com sua voz anima meu espírito, veludo noturno sonho. Suas unhas pintadas escuras agarram minha pele; desfaleço. Sonho sangue tenho vertigem. Barulho do salto alto desfaleço. Estou em cima te domino te domino uma mulher em mim domino. Um cavalo branco na estrada. Sonho vertigem sou um seu. Na sua nuca.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O meu Lord Voldemort

Talvez eu esteja prestes a receber uma péssima notícia. Talvez tenham arrombado minha casa, revirado meus móveis, chutado a cristaleira, e eu aqui numa aflição danada porque o telefone não toca. Toca, telefone! E se reviraram minha casa foram direto ao ponto da minha angústia: não tenho mais casa. Aquela é a casa inalterada do meu passado, onde os mortos habitam; os fantasmas estão lá, esperando que eu volte para me atacar invisivelmente. Já aviso de atemão que não vou dar o braço a torcer, não vou chorar no cangote das blusas da minha mãe. "É tudo mentira!", protestam minhas vísceras. É tudo mentira, mesmo.
Eu continuo olhando debaixo da cama antes de dormir, todos os dias.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Madrugada na Barão de Capanema

Uma jarra de vinho da casa foi a melhor elaboração que pude fazer. Ir a uma cantina vinte e quatro horas no meio da insônia é o resultado de um trabalho intelectual deveras sofisticado. Porque está frio. Porque a cama tem bons lençóis, com fios, muitos fios. Penduro os fios brancos (meus melhores amigos) na orelha - assim posso me imaginar com trilha sonora. Aquela música do Roy Orbison é ótima para ouvir guiando, bem alto. Molho o pão italiano no vinho, a minha hóstia sagrada - encontro meus santos na madrugada solitária. Putanesca. Um molho forte, meu caro, porque minha alma está minguada e precisa de calor. A gravata borboleta desfila pelo salão tradicional enquanto eu, lagarta, tomo mais vinho. Enrolo a taça na toalha xadrez, consagro meu altar. Ofereço meu corpo entrego meus vazios. Os homens conversam, fumam seus cachimbos. O cheiro me inebria. Uma lufada de ar incha meu espírito, meus pensamentos, meus amigos, minha memória encharca meus canais minhas ruelas - eu não caberia em outra pele. Penso que deveria prestar uma homenagem. Dou um gole grosso, meus amigos merecem. Estão todos aqui, estão todos sempre aqui.
Domingo morarei em outro lugar. Imagino-me sentada no tapete sem móveis, observando de longe meu jardim estrangeira numa casa que não conheço (mas que é minha e será tão minha). Eram meus muros que eu demolia eram minhas paredes que eu construía era o meu entulho que todos pisavam em cima. Já sonhei tantas vezes com terremotos e maremotos devastando minha vida minha casa levando minha família. Ter um jardim onde vou morar é um revés de um destino prolongado - esgarçaram minha dor. Meu algoz parece ter dado um tempo, parece que o mantenho embriagado, e tem sido uma excelente, bom, talvez seja melhor não dizer. O jardim, uma coisinha tão simples, um gramadinho verde é simplesmente tudo o que quero. Meu caro garçom, eu fui praticamente amputada nas minhas vísceras. O homem educado sorri. Penso no jardim. Um brinde a ele.
Volto para casa. Os gatos roçam minhas pernas. Nunca tomei um vinho da casa tão bom.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

prosa do dia

começo a ligar para as pessoas, mandar mensagens em seus celulares, deixar recados, escrever e-mails cada vez mais desconexos e intempestivos elas não entendem o meu vazio e acabam na correria não respondendo aí eu reencaminho perguntando você recebeu isso porque vai que elas não receberam e na verdade eu me afundo na minha própria humilhação e eles como que constrangidos pela minha insistência enviam uma frase-clichê ou mesmo copiam uma daquelas poesias do calendário do dia e mandam beijos mas elas não entendem que qualquer resposta somente me dará mais angústia porque é uma geografia de um gesto que eu espero por alguém que me resgate e esse resgate deveria acontecer debaixo no fundo dos escombros da minha cama que é onde me encontro desde que não acordei mais um dia somente braços angelicais saberiam tocar-me mesmo um segundo antes do meu grito crepuscular de encontro ao nada profundo

sexta-feira, 9 de maio de 2008

poesia do dia

Um espírito desavisado perpetuou em mim um delírio
Não há como reverter o desatamento que converteu minha alma
Cascata sangria que verte vinho em tudo que se pedra em tudo que se perde
Reverta a cascata caso contrário serei uma lua saída de trás do morro de trás das nuvens de trás das estrelas todas

quarta-feira, 30 de abril de 2008

madrugada sonâmbula (encontro num parêntese)

Não saberia dizer como começou, a que horas ou de que forma despertei. Fato é que quando me dei conta estava na sala dizendo que deveria ligar para minha mãe. "Ela deve ter me ligado umas mil vezes", disse. Não tinha um interlocutor ou mesmo alguém que eu soubesse que me escutava. A minha preocupação era que minha mãe não sabia onde eu estava, o celular estava na bolsa e ela possivelmente me chamou muito e não conseguiu me achar. O meu desespero aumentou quando ouvi uma voz. Eu não estava em casa. No escuro, fiquei perdida por alguns minutos no limbo da minha consciência, num vazio incompreensível, um buraco negro burlesco que me levou até a cama de volta, onde deitei encolhida. "Perguntei algo de minha mãe?". "Sim", disse uma voz. Em camadas recobrei parte de mim. Ela morreu. A frase golpeou meu estômago vazio. Não tive uma convulsão de choro porque a outra parte de mim ficou lá na sala, tentando usar o telefone para ligar de volta para ela.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Sem colchões para abafar o som. A estridência chega obtusa. O absurdo injeta heroína. Mergulho vermelho no líquido benfeitor mas o padre rejeita minha causa. Ajoelho novamente. Agora imploro pela guarida. Peço um pedaço de pão da eucaristia. Minha inanição espiritual me humilha. No espaço tem um homem flutuando. A imagem me reanima. Tento voltar mas não consigo. A estafa é maior. A batina preta não me abençoa. Sim, eu já maldisse, meus brônquios explodiram em blasfêmias das mais feias. Digo pra mim: é verdade que eu posso comprar a paz. Eu vos dou a minha paz, dizem as boas línguas, mas eu vou até o fim do mundo sem fazer acordo.
Um grito monstruoso se insinua quando fecho os olhos.

A verdade é que eu não presto. Nada tenho a declarar para quem sofre, não estendo as mãos para quem necessita. Não estou interessada nos problemas alheios. Um surto me tiraria da insensibilidade. Mas eu jamais terei um surto. Jamais quebrarei o decoro. Não vou de encontro a um abraço. Se um dia ouvir uma declaração de amor de um morimbundo, virarei a esquina com a face absolutamente estável. Meus músculos pouco reagem. Nem uma luta de boxe estimularia minha carcaça.
Não tenho pudores em dizer acabei de morrer ou matar: pouco faço para impressionar quem sobrou. Sopro barbaridades nos ouvidos sobretudo dos felizes, derrubo quaisquer ânimos. Sou um distúrbio precoce. Pulso efemeridades pontiagudas. Energia atômica sigo a poluir rios esperanças infâncias. De joelhos peço: não me ouça.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

é preciso certa pureza
um espírito desprovido de mágoas e chutes na contramão
alguém que não tenha presenciado tragédias e nem tenha um rasgo no meio do peito (que dói quando esfria, quando chove, quando muda o tempo)
um breve relato de um ato singelo
os balões que retornem o padre - pobre coitado voou para a morte
para onde estamos todos sempre
a minha rota de colisão me deixa mais egoísta porque eu sei eu tenho certeza que a minha batida será irreversível
agora, me diga, quem tem pureza n´alma pode falar comigo um segundinho?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

embaixo da pele uma luva de pelica
epiderme afaga o mundo com doçura
um poeta precisa
de cafuné


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Hunther Thompson e a arte da vertigem


Tenho me especializado na arte da vertigem. Uma vez fui comprar abobrinha no sacolão e saí com uma garrafa de tequila dentro do saco plástico. Tinha certeza que a compra estava certa até verter o último gole da mexicana. Fiquei com uma saudade ancestral de comer abobrinha cozida com alho e cebola. Engatei uma labirintite ferrada que durou dois dias acabei fazendo jejum porque meu corpo estirado na cama era de doer o coração de qualquer mãe. Mas minha mãezinha não está mais presente então fiquei lá dois dias rodando. Na minha cabeça eu fazia vários movimentos, ia pra direita ia pra esquerda, chegava quase a pegar o telefone, mas meus lençóis juram que fiquei completamente imóvel. Virei um móvel, imóvel. Não deu nem pra pedir um delivery, estava em meu próprio delivery pedindo pras células voltarem a respirar e bradar um pouco de vida na minha circulação. Ai de mim!
Nesse meio tempo lembrei do Johnny Depp interpretando o Hunther Thompson em Medo e Delírio em Las Vegas. Senti-me o próprio Thompson, sem a vantagem de escrever enquanto durava a minha loucura. Ele obviamente era mais profissional, tomava tudo e todas e ainda sentava pra contar tudo ENQUANTO acontecia. Eu não. Sou muito reminiscente. Volto a todos os passados como se fossem hoje. Refaço trajetos, reanimo almas quase mortas e me dou um peteleco toda vez que não fiz algo que realmente queria. O Hunther Thompson não devia passar vontade das coisas. Eu passo. Quando estou muito a fim de fazer uma coisa, não faço. Pelo simples prazer de prolongar ad eternum a vontade. É o mesmo que sair pra comprar abobrinha e voltar com a tequila. Eu tenho uma intenção mas escolho um superlativo, por assim dizer. Algo que transcenda a própria intenção. Uma fuga eterna de mim.

domingo, 6 de abril de 2008

Paula? Que Paula?

É a primeira pergunta que ouço ao tocar o interfone. O boteco embaixo do prédio já abastece a subida, as escadas que endurescem o bumbum da dona da casa todos os dias cansam nossas pernas e já subo com sangue nas ventas. Como assim que Paula? As plumas as mulheres maquiadas de sainhas curtas e botas compridas tudo arranjado para o capeta' s in my body se tornar meu deus.
Quando apenas um Lorax não dá conta de preencher o vazio infinito, então é hora de começar a recorrer ao rock and roll.
Um pozinho pra acordar o espírito, depois um cigarrinho pra acalmar, e nesse ritmo descemos a ladeira à torto e à direita. As pessoas não conversam ou conversam demais ou estão totalmente fora de si. Pois a que falava demais foi trancada no banheiro e a esqueceram até quase o dia seguinte. E ela também só percebeu no dia seguinte, quando o assunto sobre Bob Dylan terminou. Ma quanto parla!
Carvão em brasas os beijos na boca se tornam rodamoinhos em direção ao buraco primordial do universo. Nada ninguém fala nada para não desencantar. Só há a dança do universo todo compacto na pista todos unidos com massa corrida ultravioleta. Agora só falta aparecer a Amy e dar uma palhinha na festa insana. Chega o diller pra distribuir alegrias me apresento já com a tequila encharcando minhas células. Levo uma fábula assopro meu dinheiro como se comprasse à vista um terço do meu cérebro frito no dia seguinte.
E no dia seguinte com as células virginianas querendo desesperadamente voltar ao normal (a rotininha, meu deus!), a amiga me pergunta: Você estará orfã amanhã?
É sobre o domingo que se refere, o dia internacional da depressão - vou encher a cara sozinha numa cantina italiana.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Boicotador

Um susto fantasmagórico.
"É o gasparzinho", diria minha mãe.
- Não tenho medo desse monstro infantil, eu diria racionalmente, mas de noite até poeira tem forma e tudo se forma em desenhos de paúra trágica.
Não existe ninguém ao redor e a sua vida é uma geleira branca envolta com rios que não correm porque duros. Um surto psicótico de medo grave tomaria conta do meu corpo, ai se eu não tivesse o placebo azul pra me salvar. Põe uma musiquinha pra me tomar de coragem, um rock alto e pesado que dá sangue nas ventas e reanima os meus zumbis. O armário guarda o fantasma de volta junto com minhas roupas empoeiradas.
Sonho de novo com o gasparzinho. Ele oferece um copo de vinho tinto. Inverte a taça, quase me engole o vinho com cara de monstro. "Maldito!". Minha jugular tem uma marca - a morfina que tomei um dia, "eu sei o que é isso", então afio as unhas e verto sangue tinto da sua veia principal. "É um sonho", reclama a minha cabeça. Mas ela, a cabeça, não inverte o placar e continuo firme. 1x 0 pra mim.

domingo, 30 de março de 2008

Manhã de domingo,

TE vejo dormindo, amor, e te quero tão bem. Seu perfil, os olhos fechados e sua alma, onde está sua alma enquanto dorme? Suponho animais brincando com crianças dando risadas e você no meio, com sua gargalhada barulhenta. Te acordo com mil beijos pra não te assustar, dizem que nossa alma vaga enquanto dormimos. "Sonhei que você me traía". Vou até a cozinha preparar o café. Mudo de idéia e faço um cowboy. Gosto de beijo com gosto de bebida. Vou até ela e não dou possibilidade de reação. A sua boca é o mundo inteiro. Infinita. Entrego-me o uísque faz efeito ela meio acordada ainda meio dormindo esquece seu nome sua natureza somos.

O escritor e seus embates

Tive o trabalho de copiar um trecho de Plexus para mostrá-los uma das partes mais brilhantes do livro, quando Miller está conversando com sua mulher sobre o embate entre buscar um trabalho e entender sua profundidade, digamos, amarga, ou manter-se puro e continuar escrevendo. A mulher dele, Mona, acredita que Miller é um homem puro que não pode se contaminar com a maldade do mundo e se recusa a deixá-lo procurar um emprego simplesmente para sobreviver. Ela trabalha como garçonete (talvez se prostitua também, mas essa informação não fica clara) e ele começou a vender enciclopédias e está tentando gostar do emprego. Ela diz: "O que acontece comigo não tem importância. Sou feita de uma fibra mais grossa. Eu sei como o mundo é. Você não. Você é um sonhador. Um idealista".
Esse embate, entre entregar-se ao mundo, à sua rapidez e, no final das contas, deixar-se neurotizar por ele, é uma grande questão pro artista. De duas uma: ou ele se ferra e entra nesse rio lodoso e se torna um deles, ou consegue extrair, mesmo um pouco a contragosto, inspiração. Nesse sentido, o criador se torna mais humano, mais impregnado pelas contradições que tomam conta do homem que vive no seu tempo. Ao mesmo tempo em que esse mergulho dá trabalho, causa amargores e tira o distanciamento necessário para a contemplação. Todo artista sonha com o silêncio e o distanciamento, com a proximidade da natureza; essa quietude é extremamente rica e faz emergir uma quantidade imensa de sentimentos, inspirações, idéias.
Viver em São Paulo é totalmente anti-tudo-isso. Se Henry Miller vivesse em São Paulo, com certeza moraria no baixo meretrício da Rua Augusta. Chute alto esse. Não sei o que Henry Miller faria nessa cidade barulhenta e poluída, que cada vez se supera nas suas incondições e no caos. O trecho que escolhi do livro obviamente me inspira deveras porque também tenho esses embates e o mesmo desejo de me tornar o mundo com as palavras.
É uma briga e tanto!


"Ter seu próprio mundo, e viver nele, não significa que você seja necessariamente cego para o mundo real, por assim dizer. Se o escritor não tiver familiaridade com o mundo do dia-a-dia, se não estiver impregnado por esse mundo a ponto de se revoltar contra ele, nao poderia ter o que você chama de seu próprio mundo. O artista carrega todos os mundos dentro de si. É e uma parte tão vital deste mundo quanto qualquer outra pessoa. Na verdade, pertence mais a ele e faz mais parte dele do que outras pessoas, pela simples razão de ser criativo. O mundo é o seu meio de expressão. Outros homens se satisfazem com seu cantindo do mundo - seu empreguinho, sua pequena tribo, sua pequena filosofia, e assim por diante. Ora, o motivo de eu não ser um grande escritor, se você quer saber, é ainda não ter admitido todo o mundo dentro de mim. Não que eu não saiba do mal. Não que eu seja cego para a maldade das pessoas, como você parece achar. É uma coisa diferente. O que é, eu próprio não sei bem. Mas ainda vou saber. E então vou me transformar numa tocha. Vou iluminar o mundo. Vou mostrá-lo, até a medula... Mas não vou condená-lo! Não, porque sei bem demais que sou parte integrante dele, um dente importante de sua engrenagem".

terça-feira, 18 de março de 2008

Placebo

"Toma uma bolinha, dorme, amor, ilumina seus sonhos infantis com uma viagem infinita. Aquele cachorro grande virá te buscar para vingar as crianças que quiseram te jogar no lixo. (citação A História Sem Fim). Você será salvo pelo placebo azul, não a banda, que eu adoro, mas a bolinha. Amiga, as bolinhas azuis terão um efeito devastador (devastar a dor, óbvio) a musiquinha de criança vai tocar quando você estiver quase saindo da vigília. A voz de sua mãe vai soar no fundo da sua cabeça e você sentirá o edredon subindo até seu pescoço - pra não ficar nenhuma parte do seu corpo descoberta. Minha mãe costumava puxar minhas blusas pra dentro da calça pra não subir ventinho e não sentir frio. Até hoje coloco as blusas debaixo da calça. Sinto frio de fato. Ela fez tanto isso que não criei pele nessa região fica um vazio eterno que sente frio sempre. Tudo o que ela fazia pra mim, agora, antes, é tudo um vazio eterno - bolinhas azuis, novamente. Tudo pra falar delas. Você já tomou, amor?"

sábado, 15 de março de 2008


um lunático esbarra em mim - sonho alto que tenha sido deus disfarçado
deixou o ombro dolorido, meu ombro peca comigo quando encontro um pobre infeliz
choro e rio mas não me mexo dou tchau e benção não sei quem é pior
volte dobre a esquina venha na minha direção não se esqueça de tudo que não fiz
um gesto não-feito rasga sempre o tempo e volta presente, um eterno cobrador
apelo à memória - ela me suporta
nada lembro da infância suponho que fui feliz
sou uma faísca impura e vergo meus ombros: a dor permanece, o tempo muda e sonho com as mãos benfeitoras que aplacavam a implosão
meu corpo dói esbarrado na esquina que tinha um lunático como dono

quinta-feira, 6 de março de 2008

Farei de conta eternamente. Trocarei as datas do meu aniversário e vestirei branco no dia de meu luto. Brindo sobras e minúcias. As travessas de prata estão escurecidas. As lágrimas vencem meu cansaço.

No fundo do poço há um chão-impulso sobre o nada. Lembra a fé - aquela antiga enterrada com meu corpo antes da minha morte. Sobre a amizade teria que recitar um salmo. O colapso seria um Deus em forma de bala perdida - acerta um desavisado cabisbaixo ("não dá mais tempo!"). Colapso: rachadura interna que leva à demolição. Pois ninguém desconfia de um totem mesmo rachado.

Vertigem do tempo, círculo de esquinas pontiagudas. Falta a todos as mãos de argila. Sutura minhas veias meus músculos com doçura. Forja docemente minha morte - camadas de gelo em direção ao magma profundo. Durante séculos estive adormecida. No túmulo de minha mãe sou ainda feto e lambo felinamente suas lágrimas.

domingo, 2 de março de 2008

A Casa da Rua Nilo

Os termos do contrato demoravam a sair. De qual seria a minha parte na divisão dos bens da família, dos lugares onde passamos a infância e brincamos de tudo que se pode imaginar, até de se pegar sacanamente nos cantos? Como mensurar os metros quadrados baseados nos fios dourados da minha memória, que insistiam em não detalhar o assunto durante todo o percurso.
Como aquele homem de preto poderia determinar um valor para os melhores e mais puros anos da nossa vida? O único lugar que ofereceu conforto para todos os membros da família, quando eles eram todos vivos e com saúde, as crianças pequenas sabiam valorizar as palavras dos mais velhos e naquela casa eles trocaram os mais expressivos ensinamentos.
"Não quero que venda aquela casa", afirmo, com voz infantil, quase aguda, embargada. O homem de preto nem ouve - a frase foi para os meus ancestrais me perdoarem, darem suas bênçãos ao que era inexorável. De todos os ângulos, exceto pelo da memória, todos eles nos levavam à venda da casa, por todos os raciocínios e lógicas, tudo fazia sentido. Mas dentro de mim não fazia e nunca fará. O arrependimento é eterno mas diante de tantos olhares e apertos de mão afirmativos, não consigo recuar, para não passar como covarde, infantil, apegada ao passado - mas tudo isso faz tão mal a ponto de ficar com febre durante semanas, uma gripe incurável, com uma tosse interminável. No dia da última reunião a surpresa foi para todos. "Vou morar lá".


Eu tive um sonho e preciso morar naquela casa.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Contra tudo e todos!

Que merda chegar em casa e estar tudo uma zona, a bagunça infinita do meu cerébro vira os movéis de ponta-cabeça e a faxina vai por água abaixo. O pó que limpei de manhã já está acumulado de noite. Os gatos sobem e descem entre as montanhas de bagunça e viram verdadeiras minas que podem explodir a qualquer hora. Grito pra eles saírem debaixo da cama que pode vir abaixo. Tenho vontade de esmagá-los ou fechá-los pra sempre dentro do armário cheio de roupas sujas fedorentas que não uso há meses. Minha vida parece o Centro Acadêmico de Ciências Sociais, só faltam os maconheiros fazendo fumaça ao som do Doors no meu quarto.
É tudo mentira!!! Eu grito pra mim.
Detesto as pessoas que me dizem que eu estou desequilibrada e deveria procurar tratamento. Por que elas não recomendam um bom sonífero ao invés de querer dar lição de moral? Dê-me um mata-leão no lugar de me criticar.
Estico o braço pra pegar a vassoura. O Floco acha que é brincadeira. Alguém está tirando sarro da minha cara! Chamaria Don Corleone pra me ajudar nesse momento. Ele seria a única pessoa NO MUNDO que me entenderia.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Começo de domingo

Floquinho se espreguiça e me olha com os olhinhos apertados. Dá uma lambidinha, estica as patas rosadas e fecha os olhos. Já está virando um homenzinho, penso.
As crianças dos prédios choram ou gritam entusiasmadas com as brincadeiras, os passarinhos fazem suas algazarras e o domingo vai acordando aos poucos. Tempo fresco, céu nublado.
Floquinho vira para o outro lado e mexe as orelhas quando as crianças gritam muito alto. Mexo no seu pescoço, ele cruza as pernas de forma muito elegante. Vai até a cozinha e se esparrama no chão frio.
Vou passar um cafezinho.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O silêncio cria espaço. Acende a vela. Desliga as luzes acesas, desnecessárias. Funde o tempo. Elucida a memória. Respira desertos.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

A favor da rotina

Outro dia conversava com uma amiga a respeito da rotina. É engraçado notar como as pessoas abominam o ordinário cotidiano como se fosse uma espécie de mesmice burra. Sonham com viagens ou com uma "outra vida" num interior qualquer ou em outro país, como se isso depois de um tempo não fosse se tornar uma outra rotina, tão óbvia e previsível quanto a anterior.
Poderíamos inclusive dividir a rotina em subgrupos. Tem a rotina anual, que culmina na virada do ano, com o famoso
mais do mesmo: sair correndo para a praia, vestir-se de branco e tomar champagne na companhia de milhões de pessoas. Esse planejamento de férias coletivo é uma das evidências de como as pessoas não sabem lidar com a rotina. Todas saem ao mesmo tempo, quando já estão exaustas do ano inteiro de trabalho, pagam mais caro pela diversão e retornam juntas, contribuindo para as filas nas estradas, aeroportos e rodoviárias. Ou seja, se dão atestado de que não gostam da rotina, mas não fazem nenhum esforço para sair dela.
A rotina mensal poderia ser notificada mais especificamente com os dias dos lançamentos de salário na conta corrente e com os débitos mais obviamente programados como aluguel, plano de saúde, telefone e contas da casa. Final de mês é sempre tempo de dureza e os bancos têm dias certos para todos unirem seus papéis da Eletropaulo e Sabesp nas mãos, para se livrarem em uníssono da possibilidade de ter que acender as velas em casa e tomar banho na casa de algum amigo.
Durante a semana, todos saem mais ou menos nos mesmos horários de casa de manhã (com as levas dos que acordam às 4, 5, 6, 7 ou 8h da manhã), sendo que a maioria deixa o trabalho às 18h e vão correndo para casa.
Dizem que São Paulo é uma cidade que não dorme. Mas tem sua rotina também. De segunda a quarta-feira, em geral, saem os que não trabalham ou os baladeiros de primeira hora. A partir de quinta, as ruas de noite começam a se encher, com o ápice no sábado, com os bairros mais notívagos cheios de carros e filas nas portas dos lugares. Nem preciso mencionar os feriados, já que o mar de carros fica estampado em todos os jornais para exaltar a inteligência de todos os que resolvem fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo.
E ainda tem a rotina dos dias propriamente dita, divididos por horários. Acordar, chegar ao trabalho, sair pra almoçar, voltar do almoço, sair do trabalho, chegar em casa ou em algum programa, tomar banho, comer, tentar se divertir um pouco e voltar a dormir.
Na verdade, toda a rotina que descrevi, anual, mensal, semanal e diária, está necessariamente vinculada ao trabalho. A não ser os desocupados de plantão e os que vivem de renda, todo o restante está preso a isso. Dizem que o salário deveria levar em conta tudo isso, já que organizamos a nossa vida inteira em torno da labura diária.
É um sistema muito forte que organiza (e tiraniza, por que não?) a coletividade e nossa vida íntima. Como passamos a vida inteira dentro disso, dando força à algo que, no fundo, abominamos? Por que dedicar-se a malfalar algo que absolutamente não lutamos contra ou mesmo não buscamos brechas para quebrar um pouco essa dureza imposta?
Digo tudo isso porque eu advogo a favor da rotina. Lembro-me quando passei algum tempo viajando e a minha rotina era pegar trem, fazer mala, conhecer uma cidade nova, pessoas novas, igrejas, museus... e quer saber? Tem uma hora que isso cansa.
Adoro a minha rotina. Os meus horários de acordar e dormir, tudo quase sempre igual, os sábados, domingos. Quando por acaso viajo num final de semana, coisa que também gosto de fazer, tenho um enorme prazer de voltar pra casa e encontrar tudo o que eu já conheço, as coisas nos seus devidos lugares, os gatos fazendo as mesmas coisas, tendo que preparar minha mochila da malhação do dia seguinte, organizar a roupa que vou usar para trabalhar e pensar nas tarefas que terei que executar durante a semana.
Podem me chamar de chata, metódica, pragmática. De outro lado, na maioria das vezes os programas que faço estão na contramão da massa. Vou ao cinema nos horários que não têm filas, viajo quando todos ficam, compro o ingresso para o show que quero ir com antecedência e chego mais cedo pra não me estressar, ou então vou a um show que é maravilhoso mas que está inacreditavelmente vazio. Este ano, por exemplo, passei o ano-novo pela primeira vez em casa, tomando champagne em excelente companhia, fazendo rituais muito particulares. Longe, muito longe da massa que suja as praias com suas superstições genéricas.
E não fico de mau humor quando a segunda-feira chega.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Floco e a Asia

Poderia dizer que estou encantada por ele. Que seu caráter jovial renovou meu espírito. Passaria horas observando suas brincadeiras e seus olhos azuis infantis. Sei que ele já tem medo de mim e das minhas broncas, não gosto de gato subindo na mesa das refeições e nem na pia lambendo a torneira para tomar um pouco d'água. E ele sempre faz uma cara de partir o coração mas eu tenho que levar adiante a ordem para não deseducá-lo.
Os gatos são muito mais velozes do que os cachorros para entender as coisas. No primeiro dia, o Floquinho já aprendeu onde deveria fazer suas necessidades. Estava extremamente magro e mal cuidado, dava medo de fazer movimentos muito rápidos e mesmo um carinho mais pesado poderia derrubá-lo. Comia feito um desgraçado, como ainda faz até hoje, fica desesperado quando acaba a comida. Quando rodeio seu pratinho azul, ele fica dando voltas e miando alucinadamente até que eu retorne com sua comida posta. Não dá nem tempo de gritar "a comida está na mesa, crianças!", que ele, ofegante, já iniciou a comilança. É um morto de fome!
Muito diferente da Asia, a fêmea da casa, delicada e muito fina, que sabe dimensionar a quantidade de comida para o dia todo.
É muito evidente, numa olhadela desatenta, a diferença de gêneros dos bichinhos. Ele senta de pernas abertas e ela de pernas fechadas. A casa inteira nota quando ele solta o verbo na piscininha de areia e a Asia é pura discrição nas suas privacidades. Ele é o próprio machinho, não gosta muito de carinho e ela gosta de brincar com ele, mas gosta mais ainda de terminar o rala-e-rola com uma poderosa limpeza no final. Sim, é ela quem faz o lambe lambe nele para os seus pêlos brancos não darem pinta de sujeira.
A sua sem-cerimônia é tão grande que quase perdi todo esse texto depois da sua subida espontânea no teclado. A sorte foi que ele, com suas patinhas rosas, apertou as teclas certas e publicou o texto antes mesmo de eu terminá-lo. Acho que ele quer atenção!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Num intervalo curto, um ano, uma sombra, um devir - um pensamento cinza numa noite de verão. Esqueço todos que um dia amei - no meio fio da existência, fecho minhas pálpebras e sonho com minha morte. Nada me lembra um dia em que fui feliz, que um dia apaguei minhas velinhas com regozijo. Hoje são velas apagadas, tristes lembranças de um sopro fundamental que trazia em suas moléculas a esperança num futuro, qual ele fosse. Quem foram aqueles que me abraçaram tão calorosamente que me fizeram crer que eu existia? Que meu corpo era apropriado para um abraço forte e confortável, minha pele poderia sentir uma leve brisa e arrepiar-se de prazer? Um bendito colo onde nasci vespertinamente, casa cheia, mesa farta; apenas fortuito e casual? Um bendito alimento sagrado fez-me o que sou e o que sou sem mim? Quem era eu que não me avisou para olhar a tudo duas ou três ou quatro vezes seguidas até ter certeza que eu era? Sim, eu cansei minha retina ao tentar enxergar uma vez minha pele, uma vez minha própria dor, mas o tempo, senhor de todos os desastres, me atropelou com sua lâmina metálica - vergo meu corpo ao me ver o tempo todo quase sem respirar, quase sem existência crível.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Chamem a polícia!

Tenho tido idéias malfeitoras. Incentivo a chuva quando está sol e o sol quando está chuva. Encontro uma pele ingênua e mentalizo as futuras espinhas: eu sei que vocês estão aí! Saiam já daí! Venham os cravos e bolas brancas de espinhas não estouradas! Deixem que elas nasçam, vivam e morram em paz! Aí vou ao teatro e espero o ator errar o texto. Escorrego nas poças d´água. Tropeço nos degraus das ruas. Escrevo as palavras com as letras trocadas. Troco e destroco tudo. Chamo meus amantes de outros gêneros, o menino de menina a menina de menino. Ta tutto sbagliato! Não ajudo aos pobres, enobreço os vidros fechados dos ricos. Coloco insufilm na minha cara. Daqui a pouco vão me parar numa blitz.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

não existe prova concreta que ateste que sou real
sou translúcida e não sei exatamente quem me vê


domingo, 27 de janeiro de 2008

os deuses tristes da morte

Já fomos mais felizes. Reinávamos num espaço onde a natureza era certa e a comida farta. O sonho de nos vermos velhinhos e saudáveis, de mãos dadas por aí, vestindo roupas antigas e de qualidade, com as crianças seguras em suas casas. O início é sempre belo e pleno. Mas estamos nas nossas vitrines de vidro. Um arremesso errado, um ângulo torto do vento e levamos a tempestade direto na cara, que suja nossa roupa recém-comprada, e joga granizo na pele.
Habitávamos lugares confortáveis. Sorríamos demais em todas as festividades. Nem sequer pensávamos que haveria um fim. Éramos inesgotáveis, como são todos os seres humanos, enquanto duram. Mas o corpo é perecível e tem durabilidade. Isso não quer dizer que dure o tempo necessário... quer dizer que daqui a pouco ele irá embora. E nunca será o suficiente, nunca teremos abraçado tanto e nem amado tanto.
Eu não encarei o sepultamento. Olhei para o chão, derrotada. Sairia gritando, teria convulsões, se tivesse saúde. Quando a perplexidade e a tristeza são muito grandes, ficamos em silêncio. Não dá pra gritar. Falta espaço, vontade, coragem, voz. Não há necessidade, ninguém irá ouvir. Ou melhor, todos irão escutar, menos aquela para quem você grita. O silêncio é a melhor forma de resguardar um pouco de dignidade. Mesmo porque a minha tristeza durará a vida inteira. Chorarei até dar meu último suspiro.
Dei minha vida, meu sangue. Daria tudo novamente. Joguei-me no abismo da morte. Sobrou pouco. Sobrou o amor, eterno, mas isso ainda é pouco. Sobraram minhas células, que aos poucos se restabeleceram e me deram a chance de sentir raiva - um ódio suficiente para xingar a Deus com toda a minha visceralidade. Sobrou um corpo forte, capaz de aguentar muitos trancos. Mas isso é pouco. Nada é suficiente e nunca será. Sobrou todo mundo que muito me amou, e isso é quase tudo.
O meu olhar é perecível e se despede de tudo em todos os momentos. Olho com atenção as veias pulsando de quem amo para ter certeza de que estão ali.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

um moment´s com os grafiteiros

Semana passada o MAC USP Ibirapuera abriu a exposição Street Art - do Graffiti à Pintura, com 60 obras inéditas de 20 grafiteiros, mezzo brasileiros mezzo italianos. Eles foram escolhidos por dois curadores, que promoveram um confronto, ou melhor, um encontro da grafiteria de cá e de lá. O responsável pela escolha da terra nostra é o professor Fábio Magalhães e o da terra vostra é o atual secretário de cultura de Milão, Vittorio Sgarbi.

Quem ajudou o Fábio Magalhães a entrar no universo underground do grafite foi o Daniel Medeiros, mais conhecido como Boleta. O grafite tem por característica o anonimato. Todos assinam por codinomes, então nunca se sabe direito, exceto pelo estilo, quem é que está pintando e bordando os muros, viadutos e vielas da cidade. Tive bastante contato com o Boleta e com as explicações que ele dava das obras e dos artistas. Alguns eram velhos conhecidos dele (como Higraff, Cesar Profeta e Tim Tchais), em outros casos ele sugeriu nomes mais novatos, como a Yá! (adorei o trabalho dela) e o NDRUA. É justamente sobre o Ninguém De Rua que quero falar nesse texto.
O Ninguém, como o chamam, tem olheiras. Quando o Boleta falou isso, já fiquei com as olheiras em pé. Olheiras mesmo, não orelhas. Porque eu tenho olheiras de nascença. Elas crescem ou diminuem conforme meu estado de espírito, mas EU TENHO olheiras, invariavelmente. Já tentaram me dissuadir a ir num dermatologista, mas eu não vou. E o NDRUA criou um personagem que ele desenha em quase todos os grafites, que é um grande olho estilizado com olheiras. Eu adorei isso. O cara não só não tem vergonha das próprias olheiras como estampou na obra, pra todo mundo ver. E aí eu achei muito irreverente essa obra, Moment´s, com os três personagens sentados no sofá fazendo um "cigarro de maconha" (haha). Estão lá no museu, como obra de arte. Estou até com mais orgulho das minhas próprias olheiras, depois de ver o NDRUA transformando em arte algo que, em geral, as pessoas acham feio e digno de ser apagado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

os porquês e os paraquês

Outro dia, um amigo acordou com a seguinte pergunta na cabeça: por que estou vivo? Ele, que é um homem forte, viril, só falta o escudo e a espada como ornamento, como pode ter acordado com essa indagação tão simples? Pois eu fiquei com a dúvida da dúvida. Por que alguém acorda e pergunta por que está vivo? Tenho uma amiga que diz que a pergunta certa é sempre para quê e não por quê. Porquês temos aos milhares, mas os para quês são mais complexos e difíceis de responder.
É simples de entender. Na frente da vitrine, por que preciso de um sapato? Porque os meus estão velhos, porque não tenho um sapato dessa cor, porque eu trabalho muito e mereço esse mimo. Mas, para que você precisa comprar o sapato? Bom, nesse momento a cabeça dá uma enroscada, não dá?
E talvez ele não encontre os porquês de estar vivo. Ou talvez encontre milhares. Porque ele respira, porque a mãe dele o gerou, porque ele precisa aprender, evoluir, amar, sei lá. Mas, e, para quê ele está vivo? Listinha difícil de responder... (É difícil até de acentuar os chapeizinhos dos ÊS, quanto mais de responder).
Existe, também, uma diferença grande em perguntar por que estou vivo ou por que eu nasci. Eu nunca me perguntei por que estou viva, e sim, em último caso, por que eu nasci. Agora, o porque de se estar vivo é uma questão que não se vitimiza, ela se refere ao momento presente e não há 30 anos atrás, quando estava na barriga da mamãe. Faz toda diferença.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008























Entramos correndo no hospital. As pessoas estavam deitadas como se fossem bebês. Adultos no berçário. Encontrei minha mãe agonizando. Olho novamente e era meu pai. E de novo era minha mãe. Havia variação na cor dos olhos, ora azuis ora verdes. Todos temos olhos claros em casa. Seja um ou outro, nada conseguimos fazer a não ser olhar assustados e impotentes.

Mario Cravo Neto, O Deus da Cabeça

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Abri os olhos. Sentia uma sede ancestral, como se nunca tivesse bebido um gole d' água na vida. Minhas costelas tinham sido erguidas. Vi as pessoas que mais amo sorrirem nervosas, dizendo que estava tudo bem. Era só o que precisava ouvir: está tudo bem. Como a expressão mais banal do ser humano pode se tornar a única coisa que você quer ouvir. "Mamãe está bem". Bem era eu que não estava, mas eu só queria saber se minha mãe ainda estava viva, se tinha aguentado a cirurgia. Bom, aguentou. Relatos posteriores disseram que eu só dizia, com a voz meio enrolada, a palavra analségico. Relatos posteriores contam que eu tinha uma aparência assustadora, amarelada, inchada, grogue. Passei a noite na UTI clamando por água e analgésicos. Mas eu não podia tomar água. O enfermeiro me dava a conta-gotas. É banal dizer isso agora, mas as gotas eram oceanos pra mim. Duravam horas na minha boca. A minha respiração era curta por causa da dor nas costelas. Eles literalmente reviraram minhas entranhas. Se um poeta sente suas entranhas reviradas é porque nunca passou por isso. Tinha uma enfermeira gorda que ficava sentada o tempo todo e me fez sentir, todas as vezes que eu reclamava de dor ou de sede, que eu estava exagerando, sendo mimada e fraca, a filha da puta da enfermeira burocrata não tem noção do que é sentir dor e não saber ainda por cima se sua mãe vai sobreviver. Acho que eu nem tinha organismo suficiente pra sentir raiva. Porque pra sentir raiva você precisa, no mínimo, estar completo, com todos os órgãos funcionando. E uma parte de mim já estava tentando pulsar no corpo de minha mãe. Já estava lá, ligada ao seu sangue e às suas entranhas, buscando desesperadamente salvar sua vida. Quem não daria um pedaço de si pra salvar a vida de quem te carregou na barriga e te gerou, num sacríficio que é a gestação, os primeiros meses, a dor no peito, a perda da privacidade e a doação infinita de amor que é a maternidade. Quem seria o covarde que faria isso?
Ainda bem que o turno da enfermeira durou pouco. Logo chegou a Cris. Ela me liga até hoje pra saber como estou. Ia me visitar todos os dias no quarto, me deu um livro de poesias.
Foram dez horas de cirurgia. A última cena que lembro é dos anestesistas, era uma coisa meio Kill Bill, os dois eram lindos, uma oriental linda e um garoto com olhos amendoados, os dois super jovens perguntaram se eu fazia algum esporte. "Natação". E PUM. Desmaiei.

A ciranda do Julinho

O Rodrigo Durão é um pai bem incrível. O Julinho é daquelas crianças que não falam nada, porque ainda é um bebê, mas tem um quê tão especial que as mulheres ficam embevecidas com sua pequena existência. Não é bem um lance sexual, mas uma paixão mais duradoura, que só é paixão porque ele ainda é muito novinho e ficamos sempre meio embasbacadas quando nasce algo novo. Neste caso, literalmente, nasceu alguém novo, digno de toda a atenção dos que aqui estão, já acostumados com as velharias diárias. Mas daqui a pouco vira amor, vira amor. Claro, também não dá para exercitar o tesão por um rebento, mas se houvesse fila, as senhas já estariam sendo distribuídas. E o Rodrigo fica com os dedinhos no bolso, ora dando um trago, outra hora em silêncio, um silêncio que só os músicos fazem - a pausa.
A pausa é meio que uma negação do barulho, ou será uma negação do som, ou talvez nem seja uma negação, mas um estado de torpor. Às vezes precisamos de uma frase inteira para chegar a uma palavra, e, como não sou nenhum Miles Davis, faço algum barulho até encontrar a nota desenrolada ou a palavra bem colocada. Mas vou deixar registrado o caminho que fiz.
E o Julinho fica balançando seus braços e pernas, ora parece um helicóptero, ora um peão no seu máximo de força e o mínimo de movimento - ele tem essa coisa do pai de ser um horizonte longínquo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

pequenas suposições a respeito da existência de deus

eu fiz um pedido
enquanto acreditava em deus
ele nem chegou a dizer não
não falou nada e me deixou esperando, esperando
na esperança de que sua resposta fosse sim
mas ele não deu nenhuma dica
a resposta era não, em letra maiúscula
uma queda sem amortecimento
a dor no corpo não cessa e a vida não pára
de me chamar para suas intensas frivolidades
pergunto o que tenho a ver com isso
mas ele não fala, né,
deus fica aí nas nuvens, nas árvores, nas folhas
mas o que eu tenho que saber das nuvens, árvores e folhas pra que
elas me digam alguma coisa, que respondam minhas dúvidas?
porque se deus não existe ele-mesmo, como posso imaginar
que as sepulturas não virem apenas erva daninha?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Um tapa na cara da benevolência

Na esquina de casa tem uma padaria. Vive cheia de famílias, casais e amigos sentados nas mesinhas que ficam dispostas em L. Esquina é em L. L de esquina, a letra é auto-explicativa. O povo fica lá, bonito e letrado, com seus jornais, seus cachorros de marca civilizados, tomando sujo de laranja, pingado e comendo queijo quente, pão na chapa, tudo delícia. Os atendentes usam aqueles chapeizinhos marrons, já são da casa, conhecem os clientes. Tem o bigodudo que não sai de lá também. Deve ser português, o dono. Dá até pra pagar fiado, coisa rara no mundo de hoje, onde é necessário cadastro até pra fazer caridade.
Para contrastar um pouco com a alegria pura e simples do lugar, obviamente as crianças brancas e pretas, não importa, as crianças também estão lá com suas balinhas pra vender. Todos dizem que não têm nada pra dar. E saem, meio cabisbaixos, com suas sacolinhas cheias de pães.
Num desses dias maravilhosos que a graça de Deus mandou para o litoral 2 milhões de pessoas, estava eu lá na padoca, sentada numa das mesinhas pra comer um lanche (sem cachorro). Pra não ficar livre da culpa de ter o que comer, logo após pedir o churrasco com queijo, veio a criança:
- Tia, hfjskslsls.
- Que foi? Você quer um lanche?
- É. (Sem convicção). Minha mãe está do outro lado (da rua).
- Qual lanche você quer?
Silêncio.
- Menino, você veio pedir um lanche, eu estou perguntando qual você quer. Você quer qual lanche?
- É... mortadela com queijo.
- Moça, veja um lanche de mortadela com queijo e um refrigerante pro menino.
Fiquei meio desconfiada dele. Uma pessoa que está com fome não faz cara de paisagem quando você pergunta o que ela quer comer. Ainda por cima ele ficou parado do meu lado, como se me devesse alguma coisa, como se precisasse de alguma cerimônia de gratidão pelo lanche. Logo dei um jeito de falar pra ele buscar o pedido direto no balcão, assim ele sairia do meu lado. Além de estar comendo, não queria ficar naquela posição superior que as pessoas se colocam quando ajudam alguém. Estava tudo certo: ele pediu, eu dei. E pronto. Também não quis ficar olhando para o outro lado da rua, assim ele e a mãe não se sentiriam na obrigação de fazer algum gesto de agradecimento só porque eu estava olhando.
Mas quando atravessei a rua, não tive como não perceber o isopor onde a comida foi entregue e a lata de refrigerante jogados no chão, à exatos 1 metro de um lixo. Fui até a porta da minha casa, mas não resisti e voltei. Mãe e filho conversavam com uma senhora. Logo percebi que ela contava aquelas histórias tristes de família complicada do interior de algum lugar (onde todo mundo diz que é "primo"). Passei por ela e voltei ao lanche. Só tinha ele de lixo no chão. (Um parênteses aqui: eu tenho um grande, mas um enorme respeito pelos lixeiros). E o que é raro em São Paulo: HAVIA UMA LIXEIRA!
Mas o pior ainda está por vir. Fiquei um tempo na dúvida entre falar com a mulher e pegar eu mesma o lanche e jogá-lo no lixo. Ando meio cansada de gastar energia com as pessoas sem educação (e com as que não sabem fazer gentilezas também e com as que não são civilizadas, são tantas...). Decidi eu mesma jogar o lixo, pra poder dormir sem pensar naquele pedaço de mundo sujo que me dizia respeito.
Quando vou pegar o recipiente, um frio passou pela minha espinha. Metade do lanche estava lá, intacto. Joguei fora a lata vazia, o lanche, tudo. Fui pra casa com o juramento de ser fria e cruel pra sempre. Só compro bala se estiver com vontade de comer, só faço doações pra quem conheço e sei que não vai deixar a minha boa vontade pela metade, largada no chão pra alguém tropeçar, ou se dignar a jogar fora.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Tudo está tranquilo. Os abutres se foram. A cidade respira sua solidão aliviada. As aves-marias e pai-nossos precisam de vozes impostadas que se espalhem no meio-fio. Passa o lixeiro. Os resídios pesados já foram expurgados, restam ainda os detritos de comida; as bonecas mortas do passado, os carrinhos quebrados, papéis rasgados do esquecimento. Os sacos pretos disfarçam as brincadeiras que descem com o esgoto, os ursinhos carinhosos da infância voam livres nas mãos dos homens vestidos de laranja. Os cidadãos apressados não mais buzinam para pedir passagem - estes pagam apertados os pecados nas areias caras e sem privadas. Solto um grito debaixo do chuveiro, minha cachoeira particular suporta os graves e agudos até o ralo entupir. As luzes dos prédios piscam e as pessoas, sozinhas, saem nas janelas para olhar os fogos - eles aparecem nas frestas, entre colunas, nos vãos da modernidade - e se mostram aos pedaços, como estamos todos. Os votos de uma tia pelo telefone me emudecem; ela pergunta por mim e eu mais silencio com meu rosto quente e umedecido. O sopro forte do vento passa uma mensagem do futuro que não entendo, mas deixo-me levar pela sua inexatidão; leva-me contigo, eu digo, e solto meu corpo por entre o concreto. Soluço, e subo cada andar com uma alegria inusitada. Uma senhora acena, sorrindo.