Os termos do contrato demoravam a sair. De qual seria a minha parte na divisão dos bens da família, dos lugares onde passamos a infância e brincamos de tudo que se pode imaginar, até de se pegar sacanamente nos cantos? Como mensurar os metros quadrados baseados nos fios dourados da minha memória, que insistiam em não detalhar o assunto durante todo o percurso. Como aquele homem de preto poderia determinar um valor para os melhores e mais puros anos da nossa vida? O único lugar que ofereceu conforto para todos os membros da família, quando eles eram todos vivos e com saúde, as crianças pequenas sabiam valorizar as palavras dos mais velhos e naquela casa eles trocaram os mais expressivos ensinamentos.
"Não quero que venda aquela casa", afirmo, com voz infantil, quase aguda, embargada. O homem de preto nem ouve - a frase foi para os meus ancestrais me perdoarem, darem suas bênçãos ao que era inexorável. De todos os ângulos, exceto pelo da memória, todos eles nos levavam à venda da casa, por todos os raciocínios e lógicas, tudo fazia sentido. Mas dentro de mim não fazia e nunca fará. O arrependimento é eterno mas diante de tantos olhares e apertos de mão afirmativos, não consigo recuar, para não passar como covarde, infantil, apegada ao passado - mas tudo isso faz tão mal a ponto de ficar com febre durante semanas, uma gripe incurável, com uma tosse interminável. No dia da última reunião a surpresa foi para todos. "Vou morar lá".Eu tive um sonho e preciso morar naquela casa.

4 comentários:
Legal! Quando você não faz o que quer, pode acabar fazendo o que não quer.
E foda-se a lógica dos homens de preto, todos eles.
outro dia passei pela aclimação e procurei pela rua nilo. não a encontrei.
maaas, sem querer, entrei na rua do santo agotinho, dei de cara com aquela capelinha linda e comecei a chorar...
saudades daquela sombra da jabuticabeira
Morei na rua Nilo. Queria reencontrar a Silvia Marinho e sua mãe; a cabeleireira japonesa que ficava em frente, a turma bacana do irmão da Silvia..
Morei na rua Nilo. Queria reencontrar a Silvia Marinho e sua mãe, a cabeleireira japonesa que ficava em frente, a turma bacana do irmão da Silvia..
Beatriz (bcantoni@msn.com)
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