um lunático esbarra em mim - sonho alto que tenha sido deus disfarçado
deixou o ombro dolorido, meu ombro peca comigo quando encontro um pobre infeliz
choro e rio mas não me mexo dou tchau e benção não sei quem é pior
volte dobre a esquina venha na minha direção não se esqueça de tudo que não fiz
um gesto não-feito rasga sempre o tempo e volta presente, um eterno cobrador
apelo à memória - ela me suporta
nada lembro da infância suponho que fui feliz
sou uma faísca impura e vergo meus ombros: a dor permanece, o tempo muda e sonho com as mãos benfeitoras que aplacavam a implosão
meu corpo dói esbarrado na esquina que tinha um lunático como dono
deixou o ombro dolorido, meu ombro peca comigo quando encontro um pobre infeliz
choro e rio mas não me mexo dou tchau e benção não sei quem é pior
volte dobre a esquina venha na minha direção não se esqueça de tudo que não fiz
um gesto não-feito rasga sempre o tempo e volta presente, um eterno cobrador
apelo à memória - ela me suporta
nada lembro da infância suponho que fui feliz
sou uma faísca impura e vergo meus ombros: a dor permanece, o tempo muda e sonho com as mãos benfeitoras que aplacavam a implosão
meu corpo dói esbarrado na esquina que tinha um lunático como dono

Um comentário:
"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas..."
(Caio Fernando Abreu)
Postar um comentário