...eu coloquei um lírio branco na frente do seu túmulo. A chuva caía finíssima na cidade fria. Pus um casaco grosso para me proteger. Carreguei a flor, uma aberta e um broto fechado, como se leva um presente, ou um filho, algo um tanto imponente e sóbrio, para um derradeiro destino. Perdi-me um pouco por entre as lápides, muitos são os nomes dos mortos do mundo, e ainda lamento o seu estar entre eles. Preencher a ficha do papai em qualquer estabelecimento sempre me dá tristeza quando tenho que defini-lo como viúvo. Ainda mais ele, que ainda usa a aliança que vocês trocaram quando fizeram 25 anos de casados. A outra está aqui comigo, dentro da caixinha de madeira que você me deu, da Santa Conceição, minha protetora. Três senhoras passaram por mim, eu gostaria mesmo era abraçá-las ou que elas se compadecessem com meu choro e me chamassem sem querer de minha filha. Hoje eu aceitaria ouvir isso de uma estranha. Sentei-me ao seu lado, ou em cima de você, ou embaixo, já que você está no céu -devo ter sentado embaixo- e fiquei contemplando o lírio branco que contrastava com o pesado mármore preto da família Lofiego, na primeira fila do Araçá. É lá que você está, o seu corpo, o que restou dele, então deve ser seu pó, seus ossos, seu corpo quase imaterial. É por lá que quando passo me dá um frio na barriga de lembrar como foi difícil aquela quinta-feira, quando fomos obrigados a enterrá-la. A morte é inexorável. Uma bala perdida que acerta em cheio um coração em plena pulsação. A falta de escolha diante dela, este nocaute final a que somos submetidos, não nos dá nem a liberdade nem possibilidade de reconciliação. A sua verdade é absoluta. Com ela, ninguém pode. Trata-se de um abuso inventado por algum sem alma, algum ser de algodão que tampa as narinas dos nossos amores. Eu não me reconciliei com a morte, muito menos aceitei a sua falta. Minha mãe somente se ausentou, por uma razão extrínseca ao meu desejo, da minha vida, de uma forma que tenho certeza que não foi da sua escolha. Ela estaria hoje aqui comigo, cinco anos depois de sua morte, vendo um filme bobo na tv. Comendo canjica, já que é época de festa junina. E não lá em restos mortais no cemitério do Araçá. Eu acabei sobrevivendo em meio a esta tempestade. Encontrei-me mais forte, mas cá desconfio que cinco anos depois eu estaria mais forte mesmo, mesmo sem a sua partida. Continua chovendo. No dia que você foi sepultada -não diria que você foi embora- estava sol. Céu azul. Até nisso. Quando pelo menos seu corpo estava ali, quando você ainda estava bonita envolta naquelas flores brancas, maquiada com seu vestido vermelho de bolinhas cor creme, o tempo era mais bonito, até no dia mais triste mas que você estava um pouco mais perto --ou que eu ainda poderia dizer ontem ela ainda estava viva-- até o tempo nos dava trégua, ou um tantinho de beleza. Agora que eu não posso nem dizer que ontem o seu corpo ainda existia, que ontem o seu coração ainda batia, e que talvez uma semana atrás eu ainda poderia tocar na sua mão na UTI, e que um mês antes nós estávamos na pizzaria a família numa mesa enorme comemorando a sua vida futura, agora eu não posso dizer mais nada disso porque nem o tempo me ajuda, e diante disso nem posso afirmar que ele tenha aplacado a minha dor. A saída que me resta é descansar. Descansar um pouco da sua falta, e distrair-me um pouco.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
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