terça-feira, 27 de maio de 2008

Gramadinho sem você

Eu não preciso mais de você. Nem das suas plumas nem da maneira como você me ignora. Com seu jeito previsível de lidar com as paixões nem com a maneira como você me recebe, cordata, sorridente, prestativa. Sua maneira de me aceitar e dizer que sou tão necessariamente intrínseca à sua vida cheia de alentos me enfastia. A cada papel que jogo fora, a cada passado que me livro um livro sim eu escrevi um livro e isso não me dá nenhuma credencial mas eu tenho uma violência que ninguém jamais irá entender completamente. Quando vejo um abismo insisto em não me jogar porque o primeiro impulso ele parece que não é meu. Suponho que tenha uma vida tranquila numa vila e seus caminhos sejam sempre melancólicos com árvores no outono em torno do seu caminhar de cotovia flutuante; haha, dou risada do meu próprio ridículo.
Meu jardim está quase pronto. Eu não preciso de mais nada. O status que eu tinha ao seu lado é absolutamente desnecessário. Words are very unnecessary, dançávamos essa música nos bailinhos. E agora é você unnecessary, veja só.
Você com toda sua urgência. Com toda a agenda cheia de trabalho. Seu trabalhinho que leva as grifes com seu cachorrinho para o parque fazer pose de descomprometida. Você com toda sua mania de apresentar as pessoas com nomes e sobrenomes, quanta empáfia a sua!
Seu balanço suas mãos seu corpo que era tão bonito não vai deitar no meu gramadinho, que bom um dia poder dizer isso tão em voz alta ouvindo um som tão alto nos meus ouvidos gritando urgentemente outros nomes outras pessoas que são tão melhores que você.

domingo, 25 de maio de 2008

Dela

Te diria que te amo demais. Que sua voz se tornou meu badalo, sopra feroz uma vela; desfaleço - vem pra mim pra sempre. Te diria que vertigem sua voz. Te diria da próxima vez, todo dia até você cansar. Sonharia com sua voz anima meu espírito, veludo noturno sonho. Suas unhas pintadas escuras agarram minha pele; desfaleço. Sonho sangue tenho vertigem. Barulho do salto alto desfaleço. Estou em cima te domino te domino uma mulher em mim domino. Um cavalo branco na estrada. Sonho vertigem sou um seu. Na sua nuca.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O meu Lord Voldemort

Talvez eu esteja prestes a receber uma péssima notícia. Talvez tenham arrombado minha casa, revirado meus móveis, chutado a cristaleira, e eu aqui numa aflição danada porque o telefone não toca. Toca, telefone! E se reviraram minha casa foram direto ao ponto da minha angústia: não tenho mais casa. Aquela é a casa inalterada do meu passado, onde os mortos habitam; os fantasmas estão lá, esperando que eu volte para me atacar invisivelmente. Já aviso de atemão que não vou dar o braço a torcer, não vou chorar no cangote das blusas da minha mãe. "É tudo mentira!", protestam minhas vísceras. É tudo mentira, mesmo.
Eu continuo olhando debaixo da cama antes de dormir, todos os dias.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Madrugada na Barão de Capanema

Uma jarra de vinho da casa foi a melhor elaboração que pude fazer. Ir a uma cantina vinte e quatro horas no meio da insônia é o resultado de um trabalho intelectual deveras sofisticado. Porque está frio. Porque a cama tem bons lençóis, com fios, muitos fios. Penduro os fios brancos (meus melhores amigos) na orelha - assim posso me imaginar com trilha sonora. Aquela música do Roy Orbison é ótima para ouvir guiando, bem alto. Molho o pão italiano no vinho, a minha hóstia sagrada - encontro meus santos na madrugada solitária. Putanesca. Um molho forte, meu caro, porque minha alma está minguada e precisa de calor. A gravata borboleta desfila pelo salão tradicional enquanto eu, lagarta, tomo mais vinho. Enrolo a taça na toalha xadrez, consagro meu altar. Ofereço meu corpo entrego meus vazios. Os homens conversam, fumam seus cachimbos. O cheiro me inebria. Uma lufada de ar incha meu espírito, meus pensamentos, meus amigos, minha memória encharca meus canais minhas ruelas - eu não caberia em outra pele. Penso que deveria prestar uma homenagem. Dou um gole grosso, meus amigos merecem. Estão todos aqui, estão todos sempre aqui.
Domingo morarei em outro lugar. Imagino-me sentada no tapete sem móveis, observando de longe meu jardim estrangeira numa casa que não conheço (mas que é minha e será tão minha). Eram meus muros que eu demolia eram minhas paredes que eu construía era o meu entulho que todos pisavam em cima. Já sonhei tantas vezes com terremotos e maremotos devastando minha vida minha casa levando minha família. Ter um jardim onde vou morar é um revés de um destino prolongado - esgarçaram minha dor. Meu algoz parece ter dado um tempo, parece que o mantenho embriagado, e tem sido uma excelente, bom, talvez seja melhor não dizer. O jardim, uma coisinha tão simples, um gramadinho verde é simplesmente tudo o que quero. Meu caro garçom, eu fui praticamente amputada nas minhas vísceras. O homem educado sorri. Penso no jardim. Um brinde a ele.
Volto para casa. Os gatos roçam minhas pernas. Nunca tomei um vinho da casa tão bom.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

prosa do dia

começo a ligar para as pessoas, mandar mensagens em seus celulares, deixar recados, escrever e-mails cada vez mais desconexos e intempestivos elas não entendem o meu vazio e acabam na correria não respondendo aí eu reencaminho perguntando você recebeu isso porque vai que elas não receberam e na verdade eu me afundo na minha própria humilhação e eles como que constrangidos pela minha insistência enviam uma frase-clichê ou mesmo copiam uma daquelas poesias do calendário do dia e mandam beijos mas elas não entendem que qualquer resposta somente me dará mais angústia porque é uma geografia de um gesto que eu espero por alguém que me resgate e esse resgate deveria acontecer debaixo no fundo dos escombros da minha cama que é onde me encontro desde que não acordei mais um dia somente braços angelicais saberiam tocar-me mesmo um segundo antes do meu grito crepuscular de encontro ao nada profundo

sexta-feira, 9 de maio de 2008

poesia do dia

Um espírito desavisado perpetuou em mim um delírio
Não há como reverter o desatamento que converteu minha alma
Cascata sangria que verte vinho em tudo que se pedra em tudo que se perde
Reverta a cascata caso contrário serei uma lua saída de trás do morro de trás das nuvens de trás das estrelas todas