terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Contra tudo e todos!

Que merda chegar em casa e estar tudo uma zona, a bagunça infinita do meu cerébro vira os movéis de ponta-cabeça e a faxina vai por água abaixo. O pó que limpei de manhã já está acumulado de noite. Os gatos sobem e descem entre as montanhas de bagunça e viram verdadeiras minas que podem explodir a qualquer hora. Grito pra eles saírem debaixo da cama que pode vir abaixo. Tenho vontade de esmagá-los ou fechá-los pra sempre dentro do armário cheio de roupas sujas fedorentas que não uso há meses. Minha vida parece o Centro Acadêmico de Ciências Sociais, só faltam os maconheiros fazendo fumaça ao som do Doors no meu quarto.
É tudo mentira!!! Eu grito pra mim.
Detesto as pessoas que me dizem que eu estou desequilibrada e deveria procurar tratamento. Por que elas não recomendam um bom sonífero ao invés de querer dar lição de moral? Dê-me um mata-leão no lugar de me criticar.
Estico o braço pra pegar a vassoura. O Floco acha que é brincadeira. Alguém está tirando sarro da minha cara! Chamaria Don Corleone pra me ajudar nesse momento. Ele seria a única pessoa NO MUNDO que me entenderia.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Começo de domingo

Floquinho se espreguiça e me olha com os olhinhos apertados. Dá uma lambidinha, estica as patas rosadas e fecha os olhos. Já está virando um homenzinho, penso.
As crianças dos prédios choram ou gritam entusiasmadas com as brincadeiras, os passarinhos fazem suas algazarras e o domingo vai acordando aos poucos. Tempo fresco, céu nublado.
Floquinho vira para o outro lado e mexe as orelhas quando as crianças gritam muito alto. Mexo no seu pescoço, ele cruza as pernas de forma muito elegante. Vai até a cozinha e se esparrama no chão frio.
Vou passar um cafezinho.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O silêncio cria espaço. Acende a vela. Desliga as luzes acesas, desnecessárias. Funde o tempo. Elucida a memória. Respira desertos.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

A favor da rotina

Outro dia conversava com uma amiga a respeito da rotina. É engraçado notar como as pessoas abominam o ordinário cotidiano como se fosse uma espécie de mesmice burra. Sonham com viagens ou com uma "outra vida" num interior qualquer ou em outro país, como se isso depois de um tempo não fosse se tornar uma outra rotina, tão óbvia e previsível quanto a anterior.
Poderíamos inclusive dividir a rotina em subgrupos. Tem a rotina anual, que culmina na virada do ano, com o famoso
mais do mesmo: sair correndo para a praia, vestir-se de branco e tomar champagne na companhia de milhões de pessoas. Esse planejamento de férias coletivo é uma das evidências de como as pessoas não sabem lidar com a rotina. Todas saem ao mesmo tempo, quando já estão exaustas do ano inteiro de trabalho, pagam mais caro pela diversão e retornam juntas, contribuindo para as filas nas estradas, aeroportos e rodoviárias. Ou seja, se dão atestado de que não gostam da rotina, mas não fazem nenhum esforço para sair dela.
A rotina mensal poderia ser notificada mais especificamente com os dias dos lançamentos de salário na conta corrente e com os débitos mais obviamente programados como aluguel, plano de saúde, telefone e contas da casa. Final de mês é sempre tempo de dureza e os bancos têm dias certos para todos unirem seus papéis da Eletropaulo e Sabesp nas mãos, para se livrarem em uníssono da possibilidade de ter que acender as velas em casa e tomar banho na casa de algum amigo.
Durante a semana, todos saem mais ou menos nos mesmos horários de casa de manhã (com as levas dos que acordam às 4, 5, 6, 7 ou 8h da manhã), sendo que a maioria deixa o trabalho às 18h e vão correndo para casa.
Dizem que São Paulo é uma cidade que não dorme. Mas tem sua rotina também. De segunda a quarta-feira, em geral, saem os que não trabalham ou os baladeiros de primeira hora. A partir de quinta, as ruas de noite começam a se encher, com o ápice no sábado, com os bairros mais notívagos cheios de carros e filas nas portas dos lugares. Nem preciso mencionar os feriados, já que o mar de carros fica estampado em todos os jornais para exaltar a inteligência de todos os que resolvem fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo.
E ainda tem a rotina dos dias propriamente dita, divididos por horários. Acordar, chegar ao trabalho, sair pra almoçar, voltar do almoço, sair do trabalho, chegar em casa ou em algum programa, tomar banho, comer, tentar se divertir um pouco e voltar a dormir.
Na verdade, toda a rotina que descrevi, anual, mensal, semanal e diária, está necessariamente vinculada ao trabalho. A não ser os desocupados de plantão e os que vivem de renda, todo o restante está preso a isso. Dizem que o salário deveria levar em conta tudo isso, já que organizamos a nossa vida inteira em torno da labura diária.
É um sistema muito forte que organiza (e tiraniza, por que não?) a coletividade e nossa vida íntima. Como passamos a vida inteira dentro disso, dando força à algo que, no fundo, abominamos? Por que dedicar-se a malfalar algo que absolutamente não lutamos contra ou mesmo não buscamos brechas para quebrar um pouco essa dureza imposta?
Digo tudo isso porque eu advogo a favor da rotina. Lembro-me quando passei algum tempo viajando e a minha rotina era pegar trem, fazer mala, conhecer uma cidade nova, pessoas novas, igrejas, museus... e quer saber? Tem uma hora que isso cansa.
Adoro a minha rotina. Os meus horários de acordar e dormir, tudo quase sempre igual, os sábados, domingos. Quando por acaso viajo num final de semana, coisa que também gosto de fazer, tenho um enorme prazer de voltar pra casa e encontrar tudo o que eu já conheço, as coisas nos seus devidos lugares, os gatos fazendo as mesmas coisas, tendo que preparar minha mochila da malhação do dia seguinte, organizar a roupa que vou usar para trabalhar e pensar nas tarefas que terei que executar durante a semana.
Podem me chamar de chata, metódica, pragmática. De outro lado, na maioria das vezes os programas que faço estão na contramão da massa. Vou ao cinema nos horários que não têm filas, viajo quando todos ficam, compro o ingresso para o show que quero ir com antecedência e chego mais cedo pra não me estressar, ou então vou a um show que é maravilhoso mas que está inacreditavelmente vazio. Este ano, por exemplo, passei o ano-novo pela primeira vez em casa, tomando champagne em excelente companhia, fazendo rituais muito particulares. Longe, muito longe da massa que suja as praias com suas superstições genéricas.
E não fico de mau humor quando a segunda-feira chega.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

O Floco e a Asia

Poderia dizer que estou encantada por ele. Que seu caráter jovial renovou meu espírito. Passaria horas observando suas brincadeiras e seus olhos azuis infantis. Sei que ele já tem medo de mim e das minhas broncas, não gosto de gato subindo na mesa das refeições e nem na pia lambendo a torneira para tomar um pouco d'água. E ele sempre faz uma cara de partir o coração mas eu tenho que levar adiante a ordem para não deseducá-lo.
Os gatos são muito mais velozes do que os cachorros para entender as coisas. No primeiro dia, o Floquinho já aprendeu onde deveria fazer suas necessidades. Estava extremamente magro e mal cuidado, dava medo de fazer movimentos muito rápidos e mesmo um carinho mais pesado poderia derrubá-lo. Comia feito um desgraçado, como ainda faz até hoje, fica desesperado quando acaba a comida. Quando rodeio seu pratinho azul, ele fica dando voltas e miando alucinadamente até que eu retorne com sua comida posta. Não dá nem tempo de gritar "a comida está na mesa, crianças!", que ele, ofegante, já iniciou a comilança. É um morto de fome!
Muito diferente da Asia, a fêmea da casa, delicada e muito fina, que sabe dimensionar a quantidade de comida para o dia todo.
É muito evidente, numa olhadela desatenta, a diferença de gêneros dos bichinhos. Ele senta de pernas abertas e ela de pernas fechadas. A casa inteira nota quando ele solta o verbo na piscininha de areia e a Asia é pura discrição nas suas privacidades. Ele é o próprio machinho, não gosta muito de carinho e ela gosta de brincar com ele, mas gosta mais ainda de terminar o rala-e-rola com uma poderosa limpeza no final. Sim, é ela quem faz o lambe lambe nele para os seus pêlos brancos não darem pinta de sujeira.
A sua sem-cerimônia é tão grande que quase perdi todo esse texto depois da sua subida espontânea no teclado. A sorte foi que ele, com suas patinhas rosas, apertou as teclas certas e publicou o texto antes mesmo de eu terminá-lo. Acho que ele quer atenção!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Num intervalo curto, um ano, uma sombra, um devir - um pensamento cinza numa noite de verão. Esqueço todos que um dia amei - no meio fio da existência, fecho minhas pálpebras e sonho com minha morte. Nada me lembra um dia em que fui feliz, que um dia apaguei minhas velinhas com regozijo. Hoje são velas apagadas, tristes lembranças de um sopro fundamental que trazia em suas moléculas a esperança num futuro, qual ele fosse. Quem foram aqueles que me abraçaram tão calorosamente que me fizeram crer que eu existia? Que meu corpo era apropriado para um abraço forte e confortável, minha pele poderia sentir uma leve brisa e arrepiar-se de prazer? Um bendito colo onde nasci vespertinamente, casa cheia, mesa farta; apenas fortuito e casual? Um bendito alimento sagrado fez-me o que sou e o que sou sem mim? Quem era eu que não me avisou para olhar a tudo duas ou três ou quatro vezes seguidas até ter certeza que eu era? Sim, eu cansei minha retina ao tentar enxergar uma vez minha pele, uma vez minha própria dor, mas o tempo, senhor de todos os desastres, me atropelou com sua lâmina metálica - vergo meu corpo ao me ver o tempo todo quase sem respirar, quase sem existência crível.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Chamem a polícia!

Tenho tido idéias malfeitoras. Incentivo a chuva quando está sol e o sol quando está chuva. Encontro uma pele ingênua e mentalizo as futuras espinhas: eu sei que vocês estão aí! Saiam já daí! Venham os cravos e bolas brancas de espinhas não estouradas! Deixem que elas nasçam, vivam e morram em paz! Aí vou ao teatro e espero o ator errar o texto. Escorrego nas poças d´água. Tropeço nos degraus das ruas. Escrevo as palavras com as letras trocadas. Troco e destroco tudo. Chamo meus amantes de outros gêneros, o menino de menina a menina de menino. Ta tutto sbagliato! Não ajudo aos pobres, enobreço os vidros fechados dos ricos. Coloco insufilm na minha cara. Daqui a pouco vão me parar numa blitz.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

não existe prova concreta que ateste que sou real
sou translúcida e não sei exatamente quem me vê