Num intervalo curto, um ano, uma sombra, um devir - um pensamento cinza numa noite de verão. Esqueço todos que um dia amei - no meio fio da existência, fecho minhas pálpebras e sonho com minha morte. Nada me lembra um dia em que fui feliz, que um dia apaguei minhas velinhas com regozijo. Hoje são velas apagadas, tristes lembranças de um sopro fundamental que trazia em suas moléculas a esperança num futuro, qual ele fosse. Quem foram aqueles que me abraçaram tão calorosamente que me fizeram crer que eu existia? Que meu corpo era apropriado para um abraço forte e confortável, minha pele poderia sentir uma leve brisa e arrepiar-se de prazer? Um bendito colo onde nasci vespertinamente, casa cheia, mesa farta; apenas fortuito e casual? Um bendito alimento sagrado fez-me o que sou e o que sou sem mim? Quem era eu que não me avisou para olhar a tudo duas ou três ou quatro vezes seguidas até ter certeza que eu era? Sim, eu cansei minha retina ao tentar enxergar uma vez minha pele, uma vez minha própria dor, mas o tempo, senhor de todos os desastres, me atropelou com sua lâmina metálica - vergo meu corpo ao me ver o tempo todo quase sem respirar, quase sem existência crível.segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Num intervalo curto, um ano, uma sombra, um devir - um pensamento cinza numa noite de verão. Esqueço todos que um dia amei - no meio fio da existência, fecho minhas pálpebras e sonho com minha morte. Nada me lembra um dia em que fui feliz, que um dia apaguei minhas velinhas com regozijo. Hoje são velas apagadas, tristes lembranças de um sopro fundamental que trazia em suas moléculas a esperança num futuro, qual ele fosse. Quem foram aqueles que me abraçaram tão calorosamente que me fizeram crer que eu existia? Que meu corpo era apropriado para um abraço forte e confortável, minha pele poderia sentir uma leve brisa e arrepiar-se de prazer? Um bendito colo onde nasci vespertinamente, casa cheia, mesa farta; apenas fortuito e casual? Um bendito alimento sagrado fez-me o que sou e o que sou sem mim? Quem era eu que não me avisou para olhar a tudo duas ou três ou quatro vezes seguidas até ter certeza que eu era? Sim, eu cansei minha retina ao tentar enxergar uma vez minha pele, uma vez minha própria dor, mas o tempo, senhor de todos os desastres, me atropelou com sua lâmina metálica - vergo meu corpo ao me ver o tempo todo quase sem respirar, quase sem existência crível.
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2 comentários:
Esse caminhar com um pé no cotidiano e outro na literatura é que faz a delícia da leitura deste blog. Um passo completa o outro. Verdade que comentei - indaguei - uma vez e sumi... mas não deixei de ler.
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Anjos)
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