quinta-feira, 30 de outubro de 2008

é colossal a evergadura da morte
é água, pão e vinho

sábado, 25 de outubro de 2008

Pausa para os comerciais

Pode ser uma maneira de , como se diz, limpar a cabeça ou mesmo fingir que não estou ali. Um de meus prazeres secretos mais recorrentes é o de olhar o nada. Pode ser a parede, o chão, o tapete ou o meu cachorro. Na verdade, o cachorro, o tapete, o chão e a parede não são nadas, são de fato objetos, um deles animado os outros sem vida, porém com suas cores e texturas bem definidas. De forma que olhá-los representa encontrar neles uma celebração do presente ou mesmo da concretude. Considerando que minha fé foi para o ralo há algum tempo, essas coisas se tornam a minha alternativa a um momento, muito comum por aí, de parar a vida para rezar ou mesmo para ter bons pensamentos. Eu quase não tenho pensamentos. Penso muito de vez em quando e, em geral, isso acontece quando não percebo. Mas quando estou olhando o nada fico absorta nisso, me esqueço, quase esqueço quem eu sou. Talvez o que de fato seja um dos meus maiores prazeres seja - agora me dou conta - esquecer quem eu sou.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Breve nota sobre as putas

Um turbilhão mudou tudo. As putas são minhas heroínas. Sempre serão. Papo doido. Há pessoas que não as entendem. Eu queria ser amiga de uma puta, tipo passear no shopping juntas. Rogozijo total.
Elas são o turbilhão do mundo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Caju amigo da palavra

Tanta tristeza vira livro. Estou certo que sim. No lugar de um câncer no fígado ou de um derrame que derrube um lado do meu corpo, eu escrevo.
Tanto lugar vira nada. Tenho certeza que sim. Qualquer arte não serve. Tem que achar a palavra. E depois de tanta insônia o perigo é bater no poste da palavra. A rota de colisão. Nunca estive fora dela. Me vê um caju amigo que a minha amargura vai virar palavra e eu preciso estar alto para encontrá-la.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008


o tempo é o deus da saudade
nada me resta senão as palavras
e as esquinas imaginárias

domingo, 5 de outubro de 2008

how my heart behaves on sundays

(...)"Não existia mesmo. Se restavam dele ainda alguns ossos, existiam por si próprios, em completa independência; não eram mais que um pouco de fosfato e de carbonato de cálcio com sais e água". É assim que ela deve estar, porque existe um resto de corpo em algum lugar. O corpo morto e inexorável continua morto e inexóravel lá dentro da caixa de madeira e do cimento. Vai se despedindo enquanto gangrena nossos sentimentos. A artista francesa Sophie Calle registrou em vídeo o último mês de vida de sua mãe. Tem 612 horas gravadas. Pelo menos ela tem a certeza íntima de poder captar outros detalhes que a urgência e o desespero de guardar na memória as expressões do rosto não deixaram reter. Meu irmão fotografou a minha mãe sendo maquiada, morta. Perturba-me saber que essas imagens existem, mas é poético e sobretudo mostra a devoção e o amor de um filho. Não reconheço nenhuma cena. Tento esquecer que um dia...
Assim como o tempo não é suficiente - se ela tivesse 100 anos, se tivesse registrado minha vida inteira numa filmagem ininterrupta - um sopro a mais uma declaração a mais um abraço a mais nada disso, nada disso aplacaria a náusea que sinto pelo mundo. Sim, é de Sartre a declaração inicial do texto. Sobretudo aos domingos acordo nauseada. Não sei para onde ir, para quem ligar. É um relato sem dúvida vago e todos vão cansando da mesmice das minhas declarações. Os amigos vão desistindo da minha falta de sociabilidade. Alguns persistem, heróicos. Outros já me olham como se eu fosse um fantasma. Enxergam em mim a própria morte. Fogem como lagartos quando encontram alguém no meio do mato. Nem sei como continuo viva, acordando, dormindo, eventualmente dando bom dia de óculos escuro. Só um amor mesmo me mantém viva. Vou chamar de Domingos todas as orações não atendidas por Deus. Deveriam tê-lo avisado para não descansar.