sexta-feira, 28 de dezembro de 2007











Alguns chamam de bênção. Outros de coincidência. Acaso. Compatibilidades. Talvez seja o ócio do período, ou o arrastão revisionista que tendemos nesta época do ano; fato é que os dias têm transcorrido até que de uma forma fluida. Mas a verdade é que minha vida nunca foi fácil. As coisas nunca aconteceram às mil maravilhas pro meu lado. Sabe um quebra-cabeças? Tenho uma amiga que adora. Este ano pra mim foi um quebra-cabeças em que as peças se quebram ao meio. Foi a quebra do quebra-cabeças.
Esse papo está parecendo o Paquistão esses tempos. Lá eles fazem o atentado do atentado. E o dominó vai rolando ladeira abaixo em direção ao colapso. Talvez eu tenha chegado à beira do colapso. Pode ser que à 12:01 de 2008 eu tenha uma visão mais lúcida do que me aconteceu. Porque eu não tive um colapso daqueles que a gente conhece por aí, com histeria ou apatia extremas, talvez eu ache que o que eu vivi não tenha sido um colapso, mas foi. Pode ser que a dor que eu senti no dia seguinte ao sepultamento de minha mãe tenha sido um colapso. Não foi uma dor normal; eu quase desfaleci com uma possível pedra que estava entalada na minha uretra. Essa dor, esse colapso, é uma representação da beira do abismo em que eu estava ao ter que enterrar minha mãe e, junto com ela, um pedaço do meu corpo.

O melhor amigo

Este é um excerto de um conto ou talvez um romance que um dia eu vá escrever. Na sequência, colocarei as continuações, apesar de estar meio, talvez, sem lógica, mas acho que vale como exercício. De toda forma, os leitores deste blog podem opinar sobre o assunto, seria de todo válido e importante.

O Ignácio tinha uma característica que muito me irritava. Ele era rico. Não tenho muito tempo pra justificar isso agora, mas o fato é que eu sempre quis ter grana. Antes de dormir ficava imaginando que no dia seguinte teria um carro novinho na garagem. Era a surpresa que eu sempre esperei que meu pai fosse fazer pra mim. Meu pai era muito conservador em matéria de negócios. Isso também me irritava. Eu queria ter alguns prazeres mais imediatos como um motorista num puta carro ir me buscar no colégio. Mas eis que chegava minha mãe numa Brasília branca e confesso que eu ficava feliz da vida de ver minha mãe, mas eu sempre queria vê-la num carro melhor. Queria ter aquela sensação que o Ignácio experimentava quando alguém da sua casa chegava num carrão e todos que estavam na rua do colégio ficavam em silêncio com grandes pontos de exclamação saltando de suas cabeças. A solução que encontrei pra ser admirado foi aprender a tocar guitarra e ser o maior fodão da fucking guitarra.

Isso me deixa meio frustrado.

Eu não conseguia fazer a guitarra chorar. Eu é que chorava, quando ainda era sensível. Mas vamos assoprar a névoa do flash-back. Senão vou ficar triste. No meio dessas linhas existem outras que eu não ponho aqui de jeito nenhum. E é nelas que está a verdade. Portanto, não me façam perguntas. Não tenho vocação pra dar entrevista.

De toda forma, eu era o Billie Jean da escola. O ritmo dos meus passos eram guiados pela música e todo mundo dizia que eu era o the one. Era assim que eu entendia os comentários. Eu era o príncipes dos canalhas. Era um pé rapado, mas quando acendia um cigarro, fazia isso com tanto charme, com tanta sacanagem implícita que eu sabia exatamente qual era a xoxota que pulsava de longe pra mim. Eu tenho uma vulgaridade comedida que faz de mim quase um intelectual. Solto umas frases decoradas no horóscopo. No meio da conversa, falo uma coisa sem sentido assim: você tem medo de se entregar porque não confia no amor.

O que é um homem sem um naco da sua perna? O corpo é uma fresta do amor. Não se vive integralmente a felicidade sem um pedaço de um corpo que, mesmo sendo completo, sofre de inexatidão, de descabimento. Senti-me a vida inteira expatriado de meu próprio corpo. Um desengonçamento sempre prevaleceu nos meus movimentos e isso gerava um certo encanto para as mulheres, que se achavam um complemento (ao menos corporal) para minhas lacunas. A minha sobrevivência sempre se deu pela falta. Tudo que não tive se tornou um monstro gigantesco e extremamente amedrontador para mim e para o mundo. Eu só devolvi minha raiva amargurada e guardada no devido quarto escondido da minha inconsciência uma única vez. E justamente nesta única vez que resolvi boxear o mundo com meu ódio contido quem estava na minha frente era o meu melhor amigo, o Ignácio.

Eu ando sempre muito cabisbaixo quando estou na rua. Não sei, mas eu tenho uma necessidade quase doentia de olhar o chão enquanto caminho. Tenho que ter a certeza de que o meu próximo passo será acolhido e que essa estrutura tão rígida e óbvia não vai desaparecer de repente. Como as pessoas conseguem andar na rua olhando para frente, como se o chão nunca fosse se movimentar? Por que elas consideram assim tão claramente que ele estará lá para segurar seu corpo do desabamento? Eu não confio mesmo. Não tem essa de horizonte. Isso eu olho quando estou parado. E mesmo assim, tenho que me apoiar porque senão desabo. Eu não sou auto-sustentável.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Do avesso

Pois a memória pode ser um bicho traiçoeiro. Em contrapartida à leveza, o meu coração já começa a pesar. Meu estômago já vai revirando e a tormenta começa a se formar. Tenho medo quando o tempo muda. O meu tempo está mudando. O verãozinho de plumas tem um vento uivando no seu pescoço.

Se eu simplesmente conseguisse esquecer, talvez de existir, talvez do que fiz, talvez da vida que vivi... mas uma cicatriz não me deixa esquecer ou mesmo suspirar quase em vão ou em paz. Um vão. Poderia existir um vão onde o tempo não mudasse, não suturasse minhas entranhas.

Minha garganta tem um grito surdo prestes a macular o mundo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Natal

Existe uma diferença entre o óbvio e o necessário. Entender isso de forma essencial muda um pouco a relação com as palavras, o mundo.
Era óbvio que ontem eu estaria triste. Quando a dor é coletiva e ainda está exposta e sangrando em todos, pra quê explicitar em choros e palavras de saudade, quando todos sabem, dentro e profundamente, que estamos lidando com uma ausência primordial? E cada data comemorativa é como atravessar um rio sem ver a margem oposta. (Você nunca pulará se puder escolher). Para ser honesta, talvez eu não tenha mergulhado. Acho que me desconcentrei demais - e flutuei. Peguei carona com uma pluma. Eu não acreditei ser uma pluma ou não busquei a leveza como uma estratégia para amenizar minha dor. Simplesmente me tornei uma, como se eu pudesse emprestar da natureza uma qualidade distante da minha (a leveza), e ela, generosamente, me levou até o outro lado da margem, com o corpo seco e limpo (sem a lama e a sujeira que minha dor revolve).
O silêncio tem uma elegância implícita. Provavelmente cada um de nós, em seus carros, camas, chuveiros, ou a caminho (como foi meu caso), na estrada, com luzes brilhando, tristes minhas lágrimas, implodindo meu peito; sim, o recolhimento também é elegante. A tristeza era óbvia, porém não necessária, era isso que eu queria dizer. Para quê torná-la necessária, inspirar compaixão, reforçar a dor? Celebrar aquela sua alegria, aqueles gestos, aquele amor - retribuí-lo, compartilhado, eternamente.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Até um pouco, daqui a pouco

Um pequeno recesso, levo-me a crer. Algo como um punhado de dias que me dê atenção que não me dou, naturalmente por excesso de tarefas. Pelo que meu espírito clama, posso acreditar que pouco durará e que em breve estarei novamente vestida e sem pijamas para pensar num bocado de mundo. Mas, para não peder um pouquinho do costume, voltarei - um pouco menos concentrada talvez, mas não com menos entusiasmo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

molécula de chuva

O sonho chega do alto como uma nuvem carregada de chuva. Levita pesado sobre a cidade como que nos apequenando de susto. Um devir molécula de água me invade. Uma idéia de futuro me aflige. A chuva desce sobre mim e eu quase sei quem vai e quem fica. Poderia ser uma lágrima, mas é apenas chuva.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Alegria em preto e branco

Outro dia, num restaurante, tive vontade de conversar com um pai e filho que estavam almoçando. Era um domingo e eu também estava com meu pai, depois de passar a manhã num parque tomando sol e ouvindo jazz. O menino devia ter uns 16 anos, estava bem vestido, tinha um belo relógio; ele estava de frente pra mim e o pai, de costas. Ele deve ter desconfiado que eu o paquerava, mas o meu olhar não tinha essa cobiça, nuance que ele percebeu mas não deu muita bola. Tive a sensação de que alguém daquela família tinha acabado de morrer. Talvez a mãe. Existe uma maneira de se comportar que revela isso. Ninguém consegue comer com voracidade, com desejo, quando está faltando alguém na mesa. Se essa sensação ainda é latente, tudo o que você vê ao redor fica meio desinteressante, teu olhar está sempre meio baixo e incorformado, como querendo não estar naquele lugar. Eu vi naquele menino a minha própria condição, de quando a pessoa mais importante da casa não está, não senta na cabeceira da mesa e não recebe os elogios pela deliciosa comida. Não é à toa que em pleno domingo eu estava almoçando num restaurante com meu pai. Essa é uma cena recente, uma condição à qual ainda estamos nos acostumando.
Esta fotografia do Arthur Omar, chamada Dionisíaca n° 1, dialoga com essa cena presenciada por mim. Ao retirar as cores do Carnaval, o artista coloca os pés na contradição. Como o movimento dessa festa grandiosa se dá em apenas duas cores? Como transmitir alegria em P&B?

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

para uma recém-mãe

seus olhos
carregam um filho no colo dos seus olhos
o porvir brilha
e o mundo não é mais estranho
o seu colo, madonna
tem em si o nascedouro
dos olhos brilhantes
que versam utopias imaginárias
de que um piano sempre soará
enquanto seu filho existir

s/ título

um fio de existência
fino
não me conte suas verdades
elas são como as modelos das vitrines
veja só
parecem verdades
sobram por aí como todos
(me tire daqui, mas não traga de volta o que eu fui)

uma constelação me convence todas as estrelas
de um silêncio eterno
que brilha meu olhar para o mundo e dentro dele

a incandescência da beleza jorra sua desforra

domingo, 16 de dezembro de 2007

as lembranças de um rio

a sombra tarde cai
escurece meus pensamentos
sonho invadida pelo tempo corrido de um rio
a vida segue como areia entre os dedos
uma beleza antiga
desce a correnteza
e se encontra água baixo com o torpor
da saudade liquefeita

mergulho satisfeita em busca do sonho perdido, um rio
minha pele, porosa, molécula aquosa
brilha pontinhos
gotas de luz

num ventre suposto ainda sei que não nasci

sábado, 15 de dezembro de 2007

Mon Dieu

Em Piaf - Um Hino ao Amor, uma das cenas mais dramáticas acontece ao som da linda execução de Mon Dieu, quando a cantora grita o nome de seu amado Marcel enquanto ele se digladia numa arena de boxe. Esta cena, na minha opinião, é o momento em que o filme é suspenso no tempo e leva o espectador - pego pelo estômago, intestino, coração - a um estado de torpor. É quando Edith está com toda a multidão, como qualquer outra pessoa, e numa situação onde não está sendo assistida e nem admirada. Pelo contrário, é ela quem admira e se exalta com a possibilidade de vitória ou derrota de seu amante. E é ele quem está no palco, que, neste caso, não é o lugar da obra de arte e nem da expressão artística, mas de uma luta que muitos podem considerar supérflua e desnecessária (porque um sempre ganha mas os dois saem fisicamente destruídos).
Quem se daria conta que um dia poderia escutar essa voz francesa espetacular a embalar uma luta de boxe (depois do tan tan tan tan do Rocky Balboa soar para sempre a música da corrida e de pular cordas)? Porque são misturas antagônicas - o boxe quase que exige movimento e energia, e a música de Piaf, que obviamente tem esses ingredientes, entre outros, mas formalmente não combina com um esporte. Essa é uma avaliação rasa, mas quem numa sala de edição escolheria Piaf para ilustrar uma luta de boxe? Grande sacada do diretor Olivier Dahan!
Existem momentos imprevisíveis como esse, de combinações que se estabelecem espontaneamente em momentos que ficam imaculados no tempo da nossa memória. Foi a mesma Edith Piaf que, numa madrugada triste, embalou uma despedida de uma pessoa amada. Mas, quando alguém fez soar aquele play de um rádio portátil, fez com que o mundo parasse e eu a visse dançando em algum lugar, quase como negando a existência daquele corpo imóvel e irredutível. Foi outra grande sacada de um diretor, que não é o Olivier Dahan, mas que provavelmente está, neste momento, captando meu melhor ângulo ao escrever esse texto.

PS. Queria agradecer muito ao Ricardo Noblat por ter me dado o privilégio de ter novos leitores, que pretendo honrar com meu esforço de atualizar este blog diariamente . Sejam bem-vindos!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Momento-interação com Zélia Duncan

A TV Cultura exibiu, sabe-se lá há quanto tempo, um especial com a Zélia Duncan cantando os sucessos de seu segundo disco, cujo título é seu próprio nome. Ela estava estourando com sua versão de Catedral, originalmente composta por Tanita Tikaram, alemã de nascimento e inglesa de criação, que fez sucesso nos anos 1990. Nascida em Niterói, Zélia apareceu com voz grave e composições de sua autoria, num estilo muito particular que logo agradou a mim e à minha mãe. Ouvíamos muito esse CD, e, quando passou o referido especial, nós gravamos e revíamos juntas. Minha mãe meio que paquerava o percussionista, que era uma figura com um quê de latino, cheio de gingado, e ela adorava homens que tinham balanço, porque ela dançava muito bem e meu pai sempre foi meio durão.
Dando um salto no tempo de pelo menos 10 anos: outro dia cruzei com a Zélia numa livraria em São Paulo. E daí nada, porque eu não tenho nenhuma qualidade de fã, nenhum afã em encontrar um famoso na rua, pero, neste caso, a Zélia, ela própria, me fez querer escutá-la novamente. Não acompanhei muito a carreira dela a posteriori daquele primeiro CD, e este verbo (acompanhar) pra mim significa comprar os CD´s, ler as músicas e não somente ficar de orelhada, como de fato fiquei. Continuei a admirá-la como cantora, compositora e apoiadora de outros projetos, como uma mulher sempre antenada no seu tempo e não uma artista acomodada que repete a fórmula já aprovada pela maioria.
Existe uma gravação que ela fez recentemente com a Simone, de uma música sua chamada A Idade do Céu. Eu já tinha escutado e gostado, mas havia esquecido. Nesse novo momento revival em que quis reouvi-la, baixei várias músicas, entre elas, esta. E ela falou com a minha alma de uma forma inteiramente nova. A questão é que na mesma semana que encontrei com a Zélia, seria aniversário de minha mãe. Mais uma data comemorativa vazia e cheia de angústia. Mas, para a minha surpresa, a música de Zélia me levou até minha mãe e posso dizer que tive uma experiência espiritual com ela. Cantamos juntas. E a letra ajuda, óbvio:
Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
E este é só o começo... Acabei entrando no site dela, onde encontro um link assim: fale com a Zélia. Ué! E por que não?, pensei. Vou falar com ela. Contei rapidamente a história e ela me respondeu, desejando que a música sempre nos faça companhia. A minha felicidade foi imensa e eu posso explicar os porquês:
1- A Zélia me levou até minha mãe;
2- minha mãe me levou até Zélia;
3- Zélia é uma artista de verdade porque;
4 - ela não perdeu a conexão com seu público;
5 - o artista cria para emocionar;
6- a tríade artista - obra - público fez intimamente sentido (o que é raro de acontecer).
Tudo isso pra dizer que estou comemorando o fato de ter uma leitora anônima (vide comentário no post Amizades-irmãs), que provavelmente não me conhece pessoalmente, mas me lê. Porque acontece muito de nem os amigos lerem o que a gente escreve. E avaliação de amigo é sempre parcial. Mas de um anônimo, não. E existe uma conexão entre o que aconteceu comigo e com Zélia e com a À la blasé. E não é o rabo do elefante. É a transcendência da criação a Zélia me levar a ter uma experiência com minha mãe a partir de sua música; é a transcendência de embalar a insônia de alguém com meus caracteres. Viva viva!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Como reagir a uma surpresa (ruim)

Perder a razão é sempre a pior escolha, diriam os sábios. Mas e na hora do nervoso, como ter doçura, benevolência, amor ao próximo, quando o próximo aparentemente está, digamos, sem coração?
Alguns optam pelo cinismo, utilizando até um pouco de sadismo. Aí entram aqueles xingamentos que tocam fundo no coração da vítima, com adjetivos como gordo, pobre, zarolho, pé-rapado, loira burra (este no feminino...). Entram aquelas frases neste modelito: "também, né, pobre desse jeito, como iria querer dirigir um carro sem bater", ou, "com essa cara feia, como você acha que pode entender de trânsito", ou então, "quem disse que se consegue guiar decentemente em São Paulo com esses olhos tortos, vá usar óculos, desgraça!". E por aí vai.
O vislumbramento de uma conversa civilizada simplesmente não está subentendido nas discussões de trânsito. Neste caso, armar o barraco faz parte do show e é socialmente aceitável. Lembro-me de uma foto, que estampava uma matéria sobre esse assunto, de uma mulher dentro de um conversível, toda chique, de luvas, óculos escuro, lenço (uma coisa meio Thelma & Louise) com o braço esticado e o dedão médio pra fora, todo incisivo e cheio de energia, apontando pra algum malfeitor. Claro, neste caso há o famoso contraste: uma mulher chique num carrão lindo mostrar o dedo médio é considerado exótico, uma outra mulher numa Brasília fazer o mesmo é sinônimo de má-educação. De toda forma, há um consenso de que, no trânsito, vale tudo, qualquer atitude é aceita, como se estivéssemos sob a pressão de uma guerra e tivéssemos o direito ao desequilíbrio.
Pois ontem bateram no meu carro. Sem levantar a questões de razão e culpa, uma diferença de reações entre mim e a outra pessoa, definiu a situação. Porque nessas horas, se a responsabilidade da batida não for óbvia, há que se negociar, conversar, entrar num acordo do quem-paga-o-que. Pois eu fui conversar. Mas ela estava histérica, literalmente. Propus um acordo. Ela não aceitou e me ainda ofendeu. Desde o momento que os carros se chocaram eu me tornei inimiga dela, foi essa a minha sensação. Digo que fiquei um tanto boquiaberta com essa reação, porque ninguém bate o carro de propósito, só para tirar o outro do sério. Resumo da situação: virei as costas e fui embora.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Amizades-irmãs

São poucas as situações onde lamentamos a perda de meia-hora na nossa vida. O que é meia-hora? É uma cochilada rápida, um texto curto, uma situação banal que acaba logo. O que é esperar meia-hora pelo ônibus ou pelo avião? Meia-horinha passa quase despercebida. Até quase perdemos a hora da meia-hora.
Mas nem sempre saímos perdendo quando chegamos atrasados a um compromisso. Sim, perdemos, mas algo de outra ordem pode tomar lugar daqueles minutos que você perdeu. A situação, que em si, já era esperada, pode se tornar um grande marco.
Estou quase me desculpando pela meia-hora perdida de um show. Quando cheguei, o segurança fez cara de conteúdo e, quase mesmo antes de eu dizer que deveria ter um ingresso à minha espera, ele me conduziu muito amigavelmente, como se já me conhecesse, para a entrada. Olhou nos meus olhos e me reconheceu, foi a minha sensação. Havia ainda um outro segurança, o que ficava na porta, que também me reconheceu e prontamente me fez entrar. E eu, toda culpada pelo atraso, como boa virginiana que detesta ter que pedir licença aos que já estão acomodados e chegaram cedo - ainda mais numa situação dessa. "Ah!", ele me disse. "A sua amiga falou que você iria chegar, que era uma bela morena de olhos verdes". Com essa receptividade, eu estava é gostando de chegar atrasada!
Existem amizades de todo tipo, né? Isso todos sabem. Mas existem outras, de outra ordem. Pessoas que nos conduzem a lugares prazerosos, te puxam pelas mãos, mesmo que você seja forte e consiga empreender a travessia. Porque estão junto; não além, e nem antes.
Entrei na casa de shows lotada. Todos hipnotizados pela baiana que terminava sua turnê nesta terra cinzenta. Uma lanterna me ajudou a encontrar a bela morena que deixara o elogio em forma de recado pelo segurança. Ela segurou minha mão, eu precisava de um porto seguro porque minhas emoções estavam à flor da pele - e ela sabia disso. (Vi este mesmo show, ano passado, ao lado de minha mãe, quando ainda conseguíamos ir em shows, e ela fazia questão de ir, mesmo que não estivésse bem - pra se sentir viva, pra ouvir essa voz e extasiar-se com essa força da natureza).
Existem amizades que estão muito além do mero reconhecimento de afinidades. Estão no terreno da irmandade, onde um atraso é a oportunidade de deixar uma mensagem, a ida a um show revela uma quantidade infinita de pormenores e delicadezas, uma ligação despretensiosa acontece no momento certo, e assim, torna-se espetacular em cada gesto.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os livros e a comunicação interestelar

Todos temos dúvidas na hora de escolher um livro para ler. Entre um clássico e um contemporâneo, ou seja, investir na formação, digamos, mais histórica ou estar antenado nos lançamentos, é sempre um dilema. Na hora de ler ou mesmo de comprar.
Tenho uma amiga, muito culta por sinal, que lê muito. Ela é filósofa e tem uma bela biblioteca na sua casa. Foi ela quem me fez ler tudo da Clarice Lispector quando eu tinha uns 18 anos e até hoje me empresta seus livros. Fernando Pessoa foi outro que ela me apresentou, assim como foi ela quem me levou a primeira vez num show de Maria Bethânia (Imitação da Vida, em 1998). Ela tem o hábito de comprar muitos livros, daqueles bem grossos. Algumas coisas ela lê para "limpar a cabeça", best-sellers descompromissados ou mesmo romances históricos, daqueles que os intelectuais torcem o nariz. Nós temos esses preconceitos. Por exemplo, ler Isabel Allende é cafona, mas pegar um livro de Siri Hustvedt, mulher do Paul Auster, é mais cult. Deixando as diferenças literárias de lado, há um outro fator que nos faz ler algo: a afetividade.

Eu nunca tinha pensado em ler Henry Miller. Assisti ao filme Henry & June, de 1990, dirigido por Philip Kaufman, com os atores Fred Ward, Maria de Medeiros e Uma Thurman, que formam um belo triângulo amoroso. Mas ontem, comprei, a 70 reais, o seu Plexus. Por quê? A explicação é afetiva.
Andando numa livraria dessas de shopping, uma mega store Saraiva (essas que os intelectuais também torcem o nariz), parei com minha mãe na frente da gôndola de lançamentos. Ela sempre gostou muito de me dar livros de presente. E nesse dia ela parou na frente do Plexus, e fez menção de comprar pra mim. Ela comentou sobre a trilogia, que deveria ser bacana de ler, mas eu não dei bola, desdenhei o Henry Miller com a maior despreocupação. Pois ontem eu fiz questão dele. Foi como se, após sua morte, minha mãe me desse de novo um livro. Aquelas 600 e tantas páginas me darão uma conexão com ela e eu adorarei o Henry Miller meio espiritualmente. Foi depois que notei que esse livro mostra a relação dele com os amigos na boemia nova-iorquina dos anos 1920 e sua busca por se tornar um escritor. Isso me perturbou um pouco. Por que justamente esse assunto? A busca por tornar-se um escritor... Será uma mensagem velada vinda do céu? Minha mãe não tinha idéia que este era o assunto principal do livro, e agora, ela me dá essa mensagem em forma de coincidência? Talvez a resposta esteja longe ainda, mas, pelo menos, ela está se comunicando comigo. (De forma inusitada, por suposto).
E eu terei a vida inteira para decifrar seus sinais.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A tristeza do mar














Caio Reisewitz, Paúba, 2003,fotografia, P.A.,155,5 x 206,7 cm


Há sempre uma placidez em olhar para o mar. Quando desço a serra, automaticamente o meu estado de espírito se altera. É como se eu retornasse a algum lugar quase esquecido, onde a minha memória poética se exaltava ao olhar o horizonte infinito do oceano. Voltar aos lugares às vezes é reconfortante, em outros momentos traz emoções indomáveis.
Quando abro o armário cheio de roupas de minha mãe, por exemplo, e inalo seu cheiro intocado pelo tempo, sinto-me, sim, um pouco reconfortada. É um pouco confusa essa história... a mochila que ela usou no hospital, o último pijama, as últimas calcinhas, estão exatamente do mesmo jeito. Ninguém consegue mexer naquela mochila, nem eu nem meus irmãos. O armário até conseguimos abrir, pegar umas roupas para usar em sua homenagem. Mas a mochila é a prova irrevogável da sua última viagem de carro pela cidade, do seu último preparo para ir ao hospital, dos últimos cheiros que ela deixou antes de partir. São suas derradeiras pegadas neste mundo. A vontade que dá é entrar naquela mochila e morar ali dentro, como se pudéssemos retornar ao ventre materno e novamente nascer, como se o mundo não tivesse nos arrastado cruelmente até esta umbilical e trágica despedida.
Não tivesse a distância da serra, gostaria de olhar o infinito do mar todos os dias, em comunhão com o tamanho da saudade e da tristeza profundas das minhas águas.


O sono chega na última hora



Insônia. Essa é uma palavra que estava fora do meu vocabulário até: ontem. Os nossos nervos ficam se entortando para entender por que justamente, esta noite, esta bendita noite, às 4h30 da manhã, você não consegue simplesmente deitar e dormir. Fiquei pensando que poderia ter ido dormir um pouco mais tarde, lá pela 1 da manhã, pra não correr o risco de "sobrar sono" no meio da noite e ter que acordar pra compensar o excesso. E o que fazer durante esse tempo desprendido do cotidiano que te obriga a existir a contragosto?
Fiquei na dúvida entre fumar um baseado ou tomar um Lorax. Se eu tomasse o Lorax, o efeito se prolongaria até o dia seguinte e talvez eu perdesse o horário de acordar para ir ao trabalho. Acendi o cigarro proibido na chama do fogão porque não encontrei um isqueiro na escuridão da casa. A brasa era a única luz que a minha falta de sono emitiu; me deu um certo prazer essa cena porque ela representava a minha solidão e o meu desespero pra voltar a dormir. O efeito da maconha pode me fazer dormir, pensei. Mas não fez.
Tive que ligar o computador. Penso que, por falta do que fazer, sou meio viciada em e-mails, tanto de trabalho como pessoais. Sempre esperamos uma comunicação que vá nos salvar do tédio, alguém de longe ou de perto que resolva escrever um texto revelador que nos tire das parcas linhas que recebemos todos os dias. Nada de e-mails. Fiz o caminho mais óbvio, com orkut, gmail, hotmail e uma página de notícias pra não perder o costume. Nada bombástico, apenas o jornal do dia seguinte, Renan Calheiros, e outras chamadas que nada chamam a atenção.
5 da manhã. Os ônibus começam a levar os trabalhadores da primeira hora. A cidade começa a acordar e os sons dos carros derrapando bêbados nas curvas páram: a balada terminou.