sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os livros e a comunicação interestelar

Todos temos dúvidas na hora de escolher um livro para ler. Entre um clássico e um contemporâneo, ou seja, investir na formação, digamos, mais histórica ou estar antenado nos lançamentos, é sempre um dilema. Na hora de ler ou mesmo de comprar.
Tenho uma amiga, muito culta por sinal, que lê muito. Ela é filósofa e tem uma bela biblioteca na sua casa. Foi ela quem me fez ler tudo da Clarice Lispector quando eu tinha uns 18 anos e até hoje me empresta seus livros. Fernando Pessoa foi outro que ela me apresentou, assim como foi ela quem me levou a primeira vez num show de Maria Bethânia (Imitação da Vida, em 1998). Ela tem o hábito de comprar muitos livros, daqueles bem grossos. Algumas coisas ela lê para "limpar a cabeça", best-sellers descompromissados ou mesmo romances históricos, daqueles que os intelectuais torcem o nariz. Nós temos esses preconceitos. Por exemplo, ler Isabel Allende é cafona, mas pegar um livro de Siri Hustvedt, mulher do Paul Auster, é mais cult. Deixando as diferenças literárias de lado, há um outro fator que nos faz ler algo: a afetividade.

Eu nunca tinha pensado em ler Henry Miller. Assisti ao filme Henry & June, de 1990, dirigido por Philip Kaufman, com os atores Fred Ward, Maria de Medeiros e Uma Thurman, que formam um belo triângulo amoroso. Mas ontem, comprei, a 70 reais, o seu Plexus. Por quê? A explicação é afetiva.
Andando numa livraria dessas de shopping, uma mega store Saraiva (essas que os intelectuais também torcem o nariz), parei com minha mãe na frente da gôndola de lançamentos. Ela sempre gostou muito de me dar livros de presente. E nesse dia ela parou na frente do Plexus, e fez menção de comprar pra mim. Ela comentou sobre a trilogia, que deveria ser bacana de ler, mas eu não dei bola, desdenhei o Henry Miller com a maior despreocupação. Pois ontem eu fiz questão dele. Foi como se, após sua morte, minha mãe me desse de novo um livro. Aquelas 600 e tantas páginas me darão uma conexão com ela e eu adorarei o Henry Miller meio espiritualmente. Foi depois que notei que esse livro mostra a relação dele com os amigos na boemia nova-iorquina dos anos 1920 e sua busca por se tornar um escritor. Isso me perturbou um pouco. Por que justamente esse assunto? A busca por tornar-se um escritor... Será uma mensagem velada vinda do céu? Minha mãe não tinha idéia que este era o assunto principal do livro, e agora, ela me dá essa mensagem em forma de coincidência? Talvez a resposta esteja longe ainda, mas, pelo menos, ela está se comunicando comigo. (De forma inusitada, por suposto).
E eu terei a vida inteira para decifrar seus sinais.

3 comentários:

Antônio disse...

Paula, hoje já não se fala mais em Henry Miller, o que é uma pena. O que considero mais tocante em sua obra é o sentimento de amizade e de amor familiar. Não dá para diferenciar, no que escreve, entre o acontecido e o imaginado por ele, mas isso é secundário, porque poucos sabem como ele criar uma substância humana tão profunda para as pessoas que o cercam. É tocante tudo que ele escreve sobre a infância, descrita como a fase de ouro do homem, quando ele é um príncipe, ainda não destruído pela sociedade (um artigo dele sobre a educação é uma diatribe contra a destruição que a sociedade faz da personalidade do ser humano. Para ele, a sociedade destrói a personalidade do homem antes que ele possa amadurecer: "pouri avant d"être mûri"). Este é só um recado, suscitado pela lembrança do escritor, surgida no meio de leitura de seu blog. Há muito que falar dele e da falta que faz alguém batalhador contra o convencionalismo que a sociedade cria para conter a explosão da individualidade humana, impossível de controlar. É o que mais falta no mundo de hoje, esmagado pela mediocridade repetitiva, pela falta de personalidades fortes o suficiente para vencer as dificuldades novas que a atualidade impõe. Precisamos de um novo renascimento e nenhum contemporâneo nosso foi tão renascentista quanto Henry Miller. Seu blog ajuda, parabéns por ele.

Anônimo disse...

Leia a trilogia, vai gostar
Sexus, Plexus e Nexus

Paula Corrêa disse...

Antônio,
Não consegui responder seu comentário com calma. Suas considerações são tão bacanas que fico até tímida pra dizer algo. Volte sempre aqui no blog e comente sempre, a sua visão é muito enriquecedora!
beijos, Paula