segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Amizades-irmãs

São poucas as situações onde lamentamos a perda de meia-hora na nossa vida. O que é meia-hora? É uma cochilada rápida, um texto curto, uma situação banal que acaba logo. O que é esperar meia-hora pelo ônibus ou pelo avião? Meia-horinha passa quase despercebida. Até quase perdemos a hora da meia-hora.
Mas nem sempre saímos perdendo quando chegamos atrasados a um compromisso. Sim, perdemos, mas algo de outra ordem pode tomar lugar daqueles minutos que você perdeu. A situação, que em si, já era esperada, pode se tornar um grande marco.
Estou quase me desculpando pela meia-hora perdida de um show. Quando cheguei, o segurança fez cara de conteúdo e, quase mesmo antes de eu dizer que deveria ter um ingresso à minha espera, ele me conduziu muito amigavelmente, como se já me conhecesse, para a entrada. Olhou nos meus olhos e me reconheceu, foi a minha sensação. Havia ainda um outro segurança, o que ficava na porta, que também me reconheceu e prontamente me fez entrar. E eu, toda culpada pelo atraso, como boa virginiana que detesta ter que pedir licença aos que já estão acomodados e chegaram cedo - ainda mais numa situação dessa. "Ah!", ele me disse. "A sua amiga falou que você iria chegar, que era uma bela morena de olhos verdes". Com essa receptividade, eu estava é gostando de chegar atrasada!
Existem amizades de todo tipo, né? Isso todos sabem. Mas existem outras, de outra ordem. Pessoas que nos conduzem a lugares prazerosos, te puxam pelas mãos, mesmo que você seja forte e consiga empreender a travessia. Porque estão junto; não além, e nem antes.
Entrei na casa de shows lotada. Todos hipnotizados pela baiana que terminava sua turnê nesta terra cinzenta. Uma lanterna me ajudou a encontrar a bela morena que deixara o elogio em forma de recado pelo segurança. Ela segurou minha mão, eu precisava de um porto seguro porque minhas emoções estavam à flor da pele - e ela sabia disso. (Vi este mesmo show, ano passado, ao lado de minha mãe, quando ainda conseguíamos ir em shows, e ela fazia questão de ir, mesmo que não estivésse bem - pra se sentir viva, pra ouvir essa voz e extasiar-se com essa força da natureza).
Existem amizades que estão muito além do mero reconhecimento de afinidades. Estão no terreno da irmandade, onde um atraso é a oportunidade de deixar uma mensagem, a ida a um show revela uma quantidade infinita de pormenores e delicadezas, uma ligação despretensiosa acontece no momento certo, e assim, torna-se espetacular em cada gesto.

3 comentários:

Anônimo disse...

Paula,

Hoje, como em muitas outras vezes, é uma madrugada de insônia para mim. Mas hoje eu quero te falar que, desta vez, os meus sonos e sonhos não foram perdidos. Eu vim aqui ler o teu blog. E me encantei, como já acontecera outrora com os textos do teu antigo site. Sei lá, estranho essa coisa de alguém “jornalista, poeta, quieta, virgem e aspirante a escritora” não saber a face de quem se esconde atrás desta tela. Em não ter conhecimento de que há estranhos que deixam seus quartos, edredons e possibilidades de utopias semi-conscientes só para ler as tuas belas palavras. Por que não pegar Clarice Lispector e sua sensibilidade melancólica? Por que não Pessoa e sua poesia exata? Ou então o magnífico Caio Fernando Abreu? Pois eu preferi deixá-los na minha prateleira e a minha cama intocável e vir aqui “te ler”.

Sei que isso não vai fazer diferença na sua vida, mas nesta minha madrugada chuvosa as coisas me parecem assim e eu queria lhe dizer.
Só quero que seu coração fique um pouco mais feliz sabendo que houve alguém que veio aqui e compartilhou contigo um pouco da sua vida (contida implicitamente nestes caracteres), um pouco da sua dor e tristeza (em não ter por perto aquela que te chamava de anjo) e tantas coisas mais que penso, nesse momento, ser irrelevante de lhe escrever.
Um abraço e um agradecimento por tudo lido,
De uma estranha.

PS- agora vou tentar dormir. Se eu não conseguir, vou continuar com essa sensação boa que estou neste exato momento. E nem vou precisar de Lorax ou baseado. Bastou você.

Paula Corrêa disse...

À la blasé,
Fiquei deveras contente com o teu comentário. Obrigada.
Apesar dessa coisa de anonimato ser quase que uma idiossincrasia do meio internético, eu tenho uma curiosidade implícita de saber os nomes das pessoas que aqui aterrissam - mas já que eu estou neste "meio", não posso me dar o direito a tanto. Fico feliz de saber que preenchi tua madrugada, poxa, é um privilégio.
Paula

Flor de raposa disse...

Essas amizades são realmente especiais. Chegam a doer. Lindo texto.
beijocas