
Outro dia, num restaurante, tive vontade de conversar com um pai e filho que estavam almoçando. Era um domingo e eu também estava com meu pai, depois de passar a manhã num parque tomando sol e ouvindo jazz. O menino devia ter uns 16 anos, estava bem vestido, tinha um belo relógio; ele estava de frente pra mim e o pai, de costas. Ele deve ter desconfiado que eu o paquerava, mas o meu olhar não tinha essa cobiça, nuance que ele percebeu mas não deu muita bola. Tive a sensação de que alguém daquela família tinha acabado de morrer. Talvez a mãe. Existe uma maneira de se comportar que revela isso. Ninguém consegue comer com voracidade, com desejo, quando está faltando alguém na mesa. Se essa sensação ainda é latente, tudo o que você vê ao redor fica meio desinteressante, teu olhar está sempre meio baixo e incorformado, como querendo não estar naquele lugar. Eu vi naquele menino a minha própria condição, de quando a pessoa mais importante da casa não está, não senta na cabeceira da mesa e não recebe os elogios pela deliciosa comida. Não é à toa que em pleno domingo eu estava almoçando num restaurante com meu pai. Essa é uma cena recente, uma condição à qual ainda estamos nos acostumando.
Esta fotografia do Arthur Omar, chamada Dionisíaca n° 1, dialoga com essa cena presenciada por mim. Ao retirar as cores do Carnaval, o artista coloca os pés na contradição. Como o movimento dessa festa grandiosa se dá em apenas duas cores? Como transmitir alegria em P&B?

2 comentários:
ACEITAÇÃO DIFÍCIL E CRUEL
Morrer é natural, quando se nasce, firma-se um contrato com a morte. Tudo que nasce, morre, é a lei da natureza, e o ser humano deve aceitar essa idéia simples, mas profunda, deve reconsiderar sua visão de viver e falecer. Quando o homem se desespera diante da morte mostra que não se encara como parte da natureza
A vida e a morte não são estados separados do ser, talvez seja até difícil compreender que podem não ser assim tão separados, pelo fato de não se pensar nisso de um modo alternativo. A vida natural sempre concede tempo e circunstâncias necessárias para se aprender a morrer. O indivíduo, com seu artificialismo, é quem muda esse tempo e essas circunstâncias. O ser humano natural é aquele que aproxima-se e abraça o seu semelhante, cuida e é cuidado. Conversa sobre o que está acontecendo no mundo e sobre o que está acontecendo consigo em termos espirituais.
As pessoas precisam tocar em si mesmas, em seus pontos ternos e compassivos para que possam conhecer suas humanidades comuns, compartilhando sentimentos e pensamentos ao invés de individualizarem-se com suas cercas de bens acumulados.
Encarar-se como parte da natureza é entender que a morte é um ato tanto pessoal quanto comunitário. Todas as pessoas sabem que estão morrendo e que cada dia estão se aproximando mais da morte. A melhor maneira de lidar com esse fato é viver de uma forma consciente, compassiva e amorosa. Deixando de ser um morto-vivo.
(Roberto Alencar)
SOBRE A MORTE E O MORRER
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa!Não quero ir embora...Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...” Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?". Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética. Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama, de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final. Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me". Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento. Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
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