a tardinha se põe. com a delicadeza de uma mãe que coloca o filho para dormir. com um beijo na testa, sobe o lençol até o pescoço, apaga a luz, fecha a porta suavemente e sai do quarto. a tarde se põe, delicadamente. as luzes dos prédios começam a aparecer, enquanto a tarde ainda está azul escura soprando uma brisa nas folhas das árvores. não acendo as luzes para não perder o espetáculo íntimo que assisto da minha janela.
domingo, 30 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
foram palavras de amor que te disse. a última vez que nos encontramos --quando seria, talvez nesta vida, talvez eu ainda tivesse os órgãos inteiros, naquele dia eu tinha os olhos vermelhos e fomos ao supermercado, encontramos aquela atriz que falou durante meia hora sobre mapas astrais e eu só conseguia pensar em ir embora para a minha casa encontrar o astor abanando o rabo para mim. são tristes todas as datas em que me lembro da beira do laguinho da barra do una onde víamos aquela faixa de areia que parecia um deserto mas tinha uma praia escondida atrás. e um dia eu mergulhei não sabendo que tinha meio metro de profundidade, poderia ter batido a cabeça, levei um susto quando vi o chão logo ali.
seria o seu peso em cima do meu corpo que não está mais aqui e não tem nada no lugar, apenas eu, com a minha insólita existência. acabaram todas as distrações, tirei as bebidas de casa, todos os analségicos, todos os amortecimentos da minha alma insone, inquieta, perturbada, indecisa. hoje eu tomaria uma morfina para ter sonhos coloridos ou doses cavalares de qualquer remédio que me devolvesse um pouco de tranquilidade. e assim nem os malditos mosquitos perturbariam a minha vigília delirada e eu poderia pensar o que quisesse e não só pensar como acreditar, o que tornaria tudo muito mais interessante.
não tem nada que preencha um vazio quando você se dá conta, na sua natureza, de que está só. não são os amores nem os casos nem as lembranças nem os amigos nada nem ninguém te tira de dentro daquele animal que te engole inteiro. qualquer reação é inútil. debater-se, chutar, gritar, nada disso te tira dali de dentro. e se tomar remédio, fica de castigo, porque a natureza é implacável.
se eu não desmaiar, desfalecer nem perder o ar, eu voltarei. mais jovem, como no meu sonho.
seria o seu peso em cima do meu corpo que não está mais aqui e não tem nada no lugar, apenas eu, com a minha insólita existência. acabaram todas as distrações, tirei as bebidas de casa, todos os analségicos, todos os amortecimentos da minha alma insone, inquieta, perturbada, indecisa. hoje eu tomaria uma morfina para ter sonhos coloridos ou doses cavalares de qualquer remédio que me devolvesse um pouco de tranquilidade. e assim nem os malditos mosquitos perturbariam a minha vigília delirada e eu poderia pensar o que quisesse e não só pensar como acreditar, o que tornaria tudo muito mais interessante.
não tem nada que preencha um vazio quando você se dá conta, na sua natureza, de que está só. não são os amores nem os casos nem as lembranças nem os amigos nada nem ninguém te tira de dentro daquele animal que te engole inteiro. qualquer reação é inútil. debater-se, chutar, gritar, nada disso te tira dali de dentro. e se tomar remédio, fica de castigo, porque a natureza é implacável.
se eu não desmaiar, desfalecer nem perder o ar, eu voltarei. mais jovem, como no meu sonho.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
sábado, 22 de janeiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
tenho faltas e tristezas. o mundo às vezes me completa. olho e tudo faz sentido, uma amplidão sobrevoa meu pensamento. por outras, tudo é desconexo e me falta compreensão. me falta um abraço apertado, um sentimento de pertencimento ou um amor eterno. as pessoas vão embora. amando ou não. elas vão embora.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Hoje acordei com uma gota de sangue nos meus olhos. Dizem que não é nada. Eu não sei. Talvez eu tenha morrido no meu sonho, enquanto a médica dizia que o meu fígado parecia de uma mulher de 50 anos. Eu devo ter sofrido durante o sonho, para que meu olho estourasse uma veia deste jeito. Acordei e me assustei com o vermelho no lugar do branco do olho. Eu não devo fazer nada, ao menos na minha vida real. Está tudo bem comigo, gozo de boa saúde. A mulher do meu sonho deve ter me alertado para algo que ainda não sei o que é, mas suponho. De toda forma, queria ligar para alguém. Para algum vidente, que nem o do filme do Clint Eastwood. Alguém que me assegure que uma veia não vai estourar de repente na minha cabeça. E de repente, puff, eu paro de existir. Ninguém pode ter o dom de dizer isto. Apesar de eu ter sempre achado que viveria muito e que todas as minhas mortes eram simbólicas --e foram até agora. Talvez esta continue sendo. De toda forma, gostaria de continuar me sentindo um pouco amada, mesmo que seja somente pelo Astor.
O sino da igreja toca.
O sino da igreja toca.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
um dia, talvez, eu possa explicar. eu gostaria de encontrar as palavras. quem sabe num dicionário de palavras afins, ou num dicionário de rimas, ou num dicionário que nem o que o chico buarque usa. e aí tem palavras de cumprimentos e dáudios, júbilos e regozijos e palavras que dizem da felicidade e da alegria. e entre as expressões que falam da alegria está uma que diz despir o luto. e então elas começam, neste momento, a fazer algum sentido. (tem amores que são eternos). as palavras abrem fresta no espírito. um dia vou conseguir me explicar. falo apenas do amor, dos amores quando são eternos.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
um dia a mais a minha história recomeça. mas recomeça de um ponto conhecido; não estou aqui a navegar em águas tão turvas. as músicas ritmam a toada e sigo. sem beijos e tchaus. um dia se dá um tchau e assim por diante a vida segue sem delongas. o que é, é. o que não é, já foi. na augusta se papeia. se bebe, se vê. nas esquinas se conversa. no mundo se adianta e se emancipa a vida. empurro as minhas verdades adiante mesmo que delas não parta a certeza. o que são certezas, afinal? quimeras. são apenas quimeras onde se procuram os platôs. os platôs das certezas duram segundos, como flashes de sentimentos soltos que duram madrugadas. as madrugadas não duram, sejam acordadas sejam em pó. em pó sem remédios, devo dizer. quando estalo os olhos nas geometrias das minhas janelas, aguenta o tranco e aguarda o tempo. pega o diarinho e escreve a mão, que assim demora mais. ouve um radiohead. ouve dois radioheads. fica lá um pouco triste. tira a dúvida na régua, lança um dado, joga os búzios, os mentais, factuais, as vertigens, os pormenores, faz a rima. o astor deita aqui do meu ladinho. lá se vai mais meia hora. e lá se vão mais horas e horas. o tempo contado no mundo passa melhor que daqui da minha janela. vira a madrugada lá na rua, a perspectiva é mais relevante.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Primeiro, pode parecer difícil levantar da cama. No primeiro dia. Como um enfermo, o corpo pesa, te devolve para debaixo das cobertas, mesmo sem sono, mesmo que a cabeça não pare de trabalhar e fique vinte e quatro horas processando algo insondável. E pensa, de novo. Não adianta falar, nem procurar alternativas outras. Há um cansaço de fundo. A casa parece mais vazia.
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