quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

É apesar do meu cansaço que sobrevivo. Troco as letras (analségico) é lógico que me guia a fuga do buraco negro. Um buraco negro é a minha cabeça. Mas as imagenzinhas todo o mundo de luzes sobrepostas e cores opacas estonadas entram pela jugular dos meus olhos. Então eu fico distraída e exausta. Corro em direção a não parar nunca - seja aterrisar em cima do mar para nunca aterrisar. Nunca sozinha. Só paro se houver um colo que absorva a dor liquefeita que circula com meu sangue jorrado.


* ouvindo The last flowers to the hospital, Radiohead

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ando muito, ando ando.
Ando sempre sozinha num tom abaixo da ninhada, essa garotada aí que anda.
Ando triste, sempiterno.
Não tem mais um dia, nem mais vícios. As doenças secaram.
Os monstros, as musas, morreram.
Somente o Astor abana meu ar, com seu rabo-espanador.
Os frutos caíram explodidos no chão, amargos, vencidos.
Do susto do nascimento sucedeu uma apatia inominável, o sol nasce à minha indiferença.
A maré bate no meu calcanhar gelado, afundo meus pés na areia; deixo-me afundar - é o peso que carrego - minhas costas turvas curvam-se como galhos de árvores antigas.
Não resisto à lei nem a nada, respiro por entre a terra e assim me dou por satisfeita.


ps. vcs estão aí?

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

o perfume

O cheiro começava a ficar mais forte. Os médicos diziam que era amônia, ou algo do tipo, uma substância do corpo que não era processada mais. Mas eu tinha certeza que era o cheiro da morte. Algo nela estava putrefazendo por dentro e aquele era o sinal claro que o seu corpo estava deteriorando e apodrecendo. A morte lançava seu perfume e deixava no ar essa sombra fúnebre. Onipresente, saía por todos os poros e revirava nossos estômagos de angústia velada.
Nunca a deixei saber desse cheiro, mesmo que me incomodasse a sua ascensão dia a dia. Ela era vaidosa, estava sempre cheirosa e durante muito tempo dividimos o mesmo perfume - que uso até hoje.
Acredito que seja impossível não enterrar algumas lembranças. É indescritível e inominável. Não ouso entender essa lógica estranha que me protege.

cornos virados

É para lá de Bagdá que estou.
É uma espécie um regurgito estomacal que se amplia e se abre em galhos para o corpo. Até a alma está em regurgito. Acho que foi o brigadeiro com cerveja que comi ontem. Ou será que acordei com os cornos virados? Mas virginiano não tem cornos, quem tem cornos é de capricórnio e se não me engano os sagitários. Tenho uma amiga sagitário com capricórnios e sempre que ela acorda com os cornos virados passa o dia inteiro tentando desvirar. Pior ainda é a vida da tartaruga. Quando vira de cabeça para baixo não consegue mais desvirar sozinha. Há mais semelhanças entre mim e a tartaruga além da nossa habitual lentidão...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Do zelador ao maestro

São poucas as pessoas que sabem receber. Abrir suas casas e deixar os convidados à vontade. Muitas vezes o que acontece em algumas rodas é uma espontaneidade plástica, com todos fingindo falar o que vem à cabeça mas ao mesmo tempo estão se observando e esperando uma falha de conduta. Falam o que convier à roda, uma frase previamente aprovada ou uma piada anteriormente testada. E em geral, juntam-se pessoas parecidas, da mesma classe social, para não dar atrito e não haver aquelas famosas indiretas de ricos contra pobres e vice-versa. Porque um adora tirar sarro do outro, é uma forma de vingança branca, ou seria uma invejinha bem controlada?
É raro um ambiente estar realmente misturado e despretensioso. Porque isso não depende de uma produção caprichada ou da intenção prévia e bem elaborada de misturar tribos e sim de uma disposição mais humana e filial.
De pés descalços, o anfitrião da virada do ano estava vestido com a camiseta do seu time preferido. Mas não era um torcedor qualquer, tinha seu nome inscrito nas costas. Tem o rosto facilmente reconhecido, provavelmente muitas donas de casa o abordam no supermercado para expressar sua simpatia. Olhando de longe, eram todos conhecidos e não tinham diferenças. Sua filha, admirada, diz: meu pai é um sujeito incrível. Olhe aquelas pessoas ali, de longe você faz idéia que se trata do zelador do prédio conversando com um dos maestros mais importantes do mundo? E estavam todos ali, dando risadas, fazendo piada e falando sobre qualquer-assunto. Sem nome-sobrenome, sem perguntar onde-trabalha-o-que-faz-da-vida, sem pompa e circunstância. Fomos embora com a sensação que o ano novo chega com simplicidade e delicadeza.