segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cá começo. Com um vão da porta entreaberto, entrando um vento fino e frio. Um aquecedor recém-comprado e o Astor, este ser que sempre aquece meus pés. Estou novamente sem medos, seja de perder, seja de ganhar o mundo assumindo que meu olhar é este, com uma certa angulatura completamente diversa de qualquer outra. É no mais absoluto escuro imersa nos meus espelhos o dia passa com todas as suas tarefas mundanas e nelas eu encontro uma célula algo que permeia tudo. Um chá que já esfriou, a geladeira vazia e um pão velho que esquentei para almoçar e não comi. Da turva existência algumas coisas saem do completo embaçamento e vem à tona como verdades instantâneas - e que chegam a me dar certa felicidade. Um novo contorno se forma e na verdade me dou conta que nada tem contorno. Que eles são quase vazios e o sentido está somente em mim. Então tudo começa e acaba começa e acaba indefinidamente e meu espírito antigo fica preso à primeira imagem. Preso, não diria que seja a palavra, o meu espírito fica enamorado de uma parte e o mundo me devolve todo o resto aos solavancos. A culpa é toda minha, eu o sei, mas até hoje a troca foi, senão justa, linear. E agora tudo é não-linear, as trocas não são justas, e o tempo sacode todas minhas as células, entro em atalhos e juro para mim mesma que não voltarei e bastam algumas palavras doces para que eu volte. Faço listas e mais listas de afazeres e posso dizer que tenho cumprido com todos eles e talvez esteja no momento de dobrar a quantidade para que um dia eu consiga ser cinquenta pessoas numa só e se uma delas estiver sofrendo as outras 49 darão conta do recado. Eu estou entendendo bem a coisa toda, apesar da minha sonolência, apesar de estar sempre prestes a voar alto em direção a um buraco que não seja o meu vazio (o último suspiro de alívio), com este desgarramento e desamparo que me levam a sorrir para as pessoas e querer saber quem elas são, da onde vieram e o que as fazem estar ali. Um dia, será que um dia conseguirei viver em pleno arrebatamento que nada nem ninguém me tire daquele lugar e eu seja absoluta senhora de todos os meus atos, do meu coração, dos meus instintos e que eu seja uma força da natureza pulsando entre as esquinas entre as conversas de bar e reuniões de trabalho, de tudo o que resuma estar vivo? Muito feminino, este texto.

4 comentários:

lua cheia disse...

Mas, apesar de tudo e da vontade infinita de sumir num ponto qq do espaço, hoje nem me trancar nesse quarto me conforta. Se antes proteção, hoje me apavoro sabendo a vida passar lá fora, apressada, e eu aqui, apenas me entregando. Penso no eu há uns anos, como eu estava em outro lugar e de maneira diferente...como me vejo em terceira pessoa.Me conforta saber que daqui a pouco tudo isso aqui será apenas uma outra história. Por agora tento calar o coração que não cabe no peito e se espreme.

Geraldo Brito (Dado) disse...

Interessante o texto. Parabéns pelo blog!

roberto alencar disse...

Que a certeza não tenha a obrigação de ser real e inquestionável, mas que, pelo menos, seja verdadeira, que não venha através de uma análise ou prova positivista. Que venha, sim, de uma inquieta inspiração, de uma efervescente manifestação revelada por canais múltiplos, possuindo então, princípios infalíveis.

roberto alencar disse...

o afobamento do meu cognitivismo
nem chega a ser condição preliminar
de um valor maior
a quietude de espírito
é quem me faria saborear
a harmonia do universo

Roberto Alencar