quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Hoje, quase meio dia, esse dia de dezembro quando a cidade pulsa luzes verdes e vermelhas, as árvores brilham; li um jornal. Às vezes leio jornal como se fosse notícia velha. Não faz muita diferença saber que a notícia é de hoje ou de uma semana atrás. Algo aconteceu e isto é tudo. Os fatos são riscas de faca. Não é a beira-mar nem o horizonte: a reflexão chega aqui, entre o tapete da sala e o chão molhado da cozinha. Nada me prende ao agora, nem ao passado. Ao futuro decolo, entre a fleuma e o ímpeto. A este calotas, um novo deus frescor exalta. Os flashes do ano revigoram em minha memória como se tudo não tivesse tempo, como acontecimentos encadeados num enredo fílmico sem meios fios, sem esperas, sem atrasos, sem contas para pagar. Como um turbilhão de realidades, todas muitas, juntas, vulcânicas. Uma verve de existir; antes que seja para falar e escrever. E antes que me entendam mal: a minha quietude é um estado de espírito. Não é simples timidez ou auto estima elevada. É estado latente de apreciação. Um modo de filmar o meu mundo. E de enredo amarrado onde tudo aconteceu, tudo, de todas as formas - avião, cansaço, trabalho, amor, encontros, desafios, despedidas, porres, livro, amizades, brigas, dúvidas, choros, abraços - ah, esta vida que me atinge não mais de soslaio, mas no meio do peito como uma flecha que não mais me sangra mas me fascina com a sua infinita potência! Um raio, sem pedir mais licença; agora tem nome.

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