segunda-feira, 28 de setembro de 2009

é um adeus, meu bem
eu não tenho necessidade - a barreira é sempre um fim - que se encerra em si e ama o ponto
final, é o que tudo tem

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

os sons não me chegam nem o abraço confortável dos meus amigos, uma nova forma de ver o mundo se descortina mas não consigo ver

a rotina opaca qualquer o mundinho do trabalho dessa falação desenfreada ninguém escuta nada o que deveria ser algum discurso de amor uma declaração de afeto desce pelo bueiro junto com a enxurrada da chuva e ainda se depara com sofás e telas de computador quebrados a ordem é o desperdício e neste estado fico mal acabada anulada pelo delírio insano de ganhar algum dinheiro que pague contas que não são tantas e não custam tão caro assim caro mesmo é o meu silêncio e o meu torpor
sem coragem de invadir as tristezas alheias, e muito menos as minhas próprias
é a covardia que me ataca, como uma gripe noturna uma febre invade incha minhas glândulas
é o medo, você precisa se animar, diz, todo mundo diz tudo e qualquer coisa; todo mundo quer tirar o suicida da ponte porque é o fracasso explícito da humanidade jorrado escarrado naquele corpo que parece uma pluma uma folha de árvore que flutua no ar em direção ao estilhaço final
mas o estilhaço os cacos de vidro às vezes já estão separados já estão em cantos do mundo que a covardia não nos deixa conhecer. é antigo o medo de espalhar-se quebrar a casca do ovo e invadir novos mundos uma força retroativa me deixa encostada na parede olhando o mundo um susto sempre me atinge e morro tantas vezes respiro

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

para minha mãe

é o seu cheirinho, a textura fina da sua pele, os seus olhos azuis:
meus sempre faróis que interpretam o mundo ainda amargo pela sua falta
é para eles que vou quando voo sem planejar, subo aos céus e vejo o azul de lá de cima
seu abraço envolve toda a minha vida é por ele que corro mesmo que volte no tempo
a minha memória guarda tantos deles (eu sabia que ia precisar)
o seu abraço é hoje comigo, é hoje que nasço e é ele - o seu abraço - que está comigo desde quando saí daí

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Queria ser de outro mundo. Tocar as estrelas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Talvez seja porque tenho sentido uma espécie de contentamento. Então por isso escrevo menos, talvez seja por isso. Muitos talvez e, para compensar a falta de assunto, revisitei um livro do Artaud, O Teatro e seu Duplo, e encontrei alguns grifos que valem a pena ser relidos. É um tipo de pensamento que me norteia, eu praticamente vivo e morro por isso:

"Pode-se queimar a biblioteca de Alexandria. Acima e além dos papiros, existem forças: a faculdade de reencontrá-las nos será tirada por algum tempo, mas não se suprimirá a energia delas. E é bom que desapareçam algumas facilidades exageradas e que certas formas caiam no esquecimento; assim, a cultura sem espaço nem tempo, e que nossa capacidade nervosa contém, ressurgirá com maior energia. E é justo que de tempos em tempos se produzam cataclismos que nos incitem a retornar à natureza, isto é, a reencontrar a vida".


quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Eu não tenho exatidão. A minha matemática é montanhosa; forja os passos - os sobes e desces vertiginosos não me aborrecem mais. Fico até feliz quando choro, assim sinto algo que não a minha poluição ingênua. Liquefeita me torno e assim livro-me saio da ambiguidade e choro choro como um bebê que nasceu desavisado. Um berço onde durmo, berço montanhoso da minha consciência durmo acordo sem distinguir o sonho. Sou abduzida pelos gritos dos meus mares, embevecida pela cor a luz da água mergulho com os olhinhos revirados, mas sem dor.