domingo, 28 de dezembro de 2008

amigos noturnos

É demasiada e longa a espera. Um uivo solitário e um tilintar de talheres - frestas de realidade na noite que não passa. Os fantasmas aparecem para me visitar. Mexem na cozinha, ouço o ruído de pratos batendo e risadas largas de quem desfruta algo proibido. Reforço os cobertores para me proteger. Devo ter sonhado e fico com os olhos estalados para ter certeza do que ouço. A janela reflete desenhos assimétricos nas paredes do meu quarto. Tento rezar um pai-nosso mas sempre páro no venha a nós o vosso reino, tento novamente e por vezes repito o mesmo calvário o mesmo erro a mesma lacuna mental não consigo ir adiante e chegar no amém, simplesmente emperro no reino e bloqueio o resto. Então volto como um disco quebrado que toca para um morto. Fico com medo do deslocamento e não tenho coragem de dar cinco passos do quarto para a cozinha então fecho os olhos e tento acreditar que é apenas cansaço, insônia, delírio noturno. Reforço ainda mais os cobertores, algo a mais me cobre e a figura não mostra seu rosto.

sábado, 20 de dezembro de 2008

o olho da rua

É um dia lindo de sol. É normal sair nesses dias. As pessoas gostam de ver pessoas. Onde tem mais gente é onde elas vão. Os lugares tradicionais estão cheios de famílias que chegam em carros pretos. Os valets trabalham freneticamente. As massas saem do forno lotadas de molho fumegante. Todos matam a fome no couvert. As praças têm crianças e cachorros correndo. Os amigos saem para um moment's e as esquinas brilham douradas com seus copos de cerveja.
É prateado, um fio delicado que sustenta o contentamento. As risadas alheias nauseam as tristezas compulsivas. Em horinhas de descuido, isso já foi escrito - esse estar descomprometido, alheio, inebriado é dedicado aos que não sabem o que é viver sem isso.
Os desejos mais latentes, a vida realmente está geralmente nas esquinas onde as bombas estão prestes.

entre as nuvens carregadas de chuva

É simples entender que cheguei até aqui sem mim. Nenhuma alma me acompanha desde então. Não diria que esqueci de viver. Apenas não encontrei um conjunto confortável que caiba no meu corpo. É um morimbundo que me habita. Um outro, que não está mais aqui. Tomou conta e está aqui a psicografar meus textos. Desalmado o que está decidindo os rumos desta temporada. É um homem plástico. Perdeu o meu coração e estou aqui - desfiando minha alma.
É de supor que eu deveria me rebelar. Assim como blasfemei da forma mais explícita ao xingar Deus e seus súditos no momento em que traíram minha fé. Implodi qualquer grito. Agora já está feito. Meu corpo já aprendeu a absorver a minha revolta. Sou grande amiga da raiva. Virei praticamente uma selvagem, incomunicável e incompreensível. Um deus morto me acude vez por outra quando estou dentro da minha caverna sem televisão. A minha banda favorita toca a sua música mais triste.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

amor ocre

Muita coisa se perde nessa vida. Mas algumas delas a gente até gosta de perder. Ou considera necessário. Força o afogamento para ver se aparece um isopor no final para te salvar. Ou vai até as últimas consequências e no final das contas contempla o corpo morto como um amor antigo que, sim, deveria morrer, mas de toda forma você não deixou de amar.

Um clarão anuncia que já é hora. Engulo, quase sem querer, uma gota do meu próprio sangue.

ps. Ontem li num livro que os desejos de verão se tornam sementes no inverno. Bonito isso, né? É do Truman Capote, meu herói de sempre. O primeiro livro dele, Travessia de Verão, é memorável. Gostaria eu de ter essa verve com tão pouca idade.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Os ecos e o Astor

Estou tentando não ser um eco burro. É tão pungente que o eco ressoa quinquilharias, móveis usados e eu não quero mais cuidar de ninguém. Já dei minha cota de doação exasperada. Fiz o meu dever na carne e ela saiu suspensa (louvada seja!) e voltou para a terra. Eu me putrefiz ao me enterrar uma parte. E subir aos céus não é bem uma prática fácil para quem tem o peso como medida. Então fico aqui, tentando manter uma rotina com o meu cachorro. Ele fica carente quando não apareço. É ao mesmo tempo gostoso e insuportável saber quem tem algo que depende de você. E daí ele fica com a empregada e eu fico com ciúme. Ciúme do meu próprio cachorro. Só posso ser bestinha. Mas eu fico. E daí tento manter uma rotina com ele. Então é ele quem está me educando, ou melhor, adestrando meu ímpeto de nunca ser.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Luminosa manhã

É inigualável a sua presença. Nenhum divã, com sua suntuosidade, me daria tanto tremor do que ela. É quando ela desponta com seus cabelos dourados e prateados que minha espinha trinca. Uma vez, no hospital, tomada de morfina, tive uma visão. Ela ia me visitar. Começava a cantar. Fui com ela até a UTI e tirei minha mãe do torpor. É de Bethânia que falo. Foi um anjo por uma noite no meu delírio desesperado de salvar minha mãe. E é ela quem invoco novamente para atravessar o dia. Hoje seria (ou é?) aniversário de quem com tanto amor me gerou e com tanto amor me deixou.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

numa tarde sutil olhando as árvores...

...esqueci de me lembrar de você. E depois que lembrei, me dei conta de quanto já tinha mudado, o quanto da minha vida não poderia mais compartilhar com você. E como mudei. Mudei tanto que não teria meios de te contar todos os detalhes dos acontecimentos, de forma a alimentar o seu imaginário de todas as fantasias, os desvios, as lacunas que eu tenho vivido. Quantos foram os domingos que mexi meus dedos em cima da mesa com uma dúvida absorta do que fazer. A surpresa acabou aparecendo e fui me deixando levar por fluxos de pessoas, trajetos, livros, delírios tão outros que me foram levando embora. Como um sofá que boia no esgoto e desemboca num rio onde é descoberto por um colecionador de sofás esgotados. Tomo champagne sozinha e brindo a mim mesma. Como uma reza um mantra uma meditação faço mesmo que seja num domingo sozinha com o meu cachorro um momento grandiloquente. Esboço minhas tristezas em desenhos na água quente da minha banheira vermelha que se tornam brumas neblinas vapor que embaçam o espelho. Nele escrevo uma poesia efêmera. Tudo o quanto já tenha sido - de intenso de ríspido de sobras - um trator amigo carregou junto com o lixo reciclável da rua. Tenho ainda tudo a perder - tudo o quanto há de novo - mas nada mais a temer.