terça-feira, 15 de novembro de 2011

Eu te diria, depois de tomar uns vinhos. Caramba, eu te diria tantas coisas. É tão soturna a minha existência. Não sei nem como tenho tantos amigos. E os amigos são como plumas. Flutuam num ar sem escapes. Muitas vezes você quer pegá-los e eles voam em outra direção. Então eu, no fundo, não tenho amigos. Porque no fundo está cada um tocando a sua vida. E todos estão certos, eu que devo tocar a minha. Mas eu não tenho vida, tenho uma casa e um cachorro. E assim minhas coisas funcionam, entre os afazeres comezinhos. Muitas vezes tenho vontade de sumir. Desaparecer mesmo. E levar o Astor. Num pasto longínquo com vinhos e plumas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A solidão é um intuito. Eu tenho saudades de alguém que já fui.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eu tenho uma flor para te dar. Está guardada, no vaso, com água. Tem uma cor nela, somente uma. Mas é assim: eu te daria. Mais provável que não dê. Dizem que não damos aquilo que não temos. Mas eu tenho uma flor para te dar. O que talvez seja.

domingo, 30 de outubro de 2011

era um artista. era ele tocando violino nas esquinas de pinheiros. seria um tanto complicado fazer a genealogia de um poeta. o telefone não toca neste domingo a noite. a noite, não é fria, aqui dentro. ouço um novo cd comprado ali na feirinha de discos. meu avô tocava aqui pelo bairro, os taxistas da joão moura lembram dele. seu herculado descia aqui para tocar pra gente. lua sem fim na esquina da cardeal é onde eu espero os táxis quando saio a esmo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

o vinho tem uma senha. um delírio mesmo. imperscrutável. vertigem fluida quase consciente. volto a escrever! eu teria uma musa. mas eu tenho o astor.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Do amor eu sempre sonho. Na latitude uma vírgula, uma vírgula me faz continuar. Viro à esquerda, vejo uma mulher bonita, apressada. Eu teria um mundo todo. Ouve uma música bonita. Sem agudos, uma música sóbria. Sejamos sóbrios. Teria uma vírgula. Somos nós. Os objetos repousam, meus livros repousam sobre a cabeceira da cama. Eu sonho. Não com o amor. Eu sonho como o amor.

domingo, 11 de setembro de 2011

Eu poderia ir exatamente agora. O essencial já me foi dado.
Pois essencial mesmo é o Astor abanando seu rabo. O resto é uma coleção coletiva de neuroses e pessoas famintas. Despeço-me, mais uma vez, das minhas carcaças, tiro minhas peles, desvisto-me. A minha solidão é pura. Eu sou, infimamente. E essencial é nada. Vivemos em meio a barbárie, e isto, nada mudará. O comum é absolutamente torto e o massacre cotidiano segue seu curso. Cortam-se os laços. Não há banho sagrado que resolva. As belas vozes somente alguma arte pode atingir um coração. A natureza com sua beleza estupenda. Eu sigo meu curso, despetalado, com alguma sobriedade. Com o Astor abanando seu rabo. E é isto, somente, e talvez nem isto, que me leve ainda adiante.