Eu não sabia até então. Era tudo não-delineado, como quase tudo. Muito não-delineado quer dizer qualquer coisa. Quer dizer te ligo amanhã, quer dizer vamos fazer algo no fim de semana, quer dizer eu te amo mas eu não te quero. O contorno vem. Após muitas batidas repentinas em esquinas desavisadas. Após devaneios em que a realidade nunca se acomoda, nunca respira com um minuto de contentamento. O contorno vem depois que se aprende a segurar as rédeas desenfreadas do desejo. Enquanto era tudo não-delineado, eu escrevia. Agora que tudo se delineia, as linhas se formam e eu vivo.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Há uma dança que se faz. Um cantinho daqui ou dali. Um drink, alguns drinks, cada um de uma cor. Assim, no balcão. Frutas, gins, vodkas. Em cima do balcão. Eu balanço. Minha cabeça balança em cima do balcão. De canudinho. Vem aqui. Prova este. Uma fruta diferente, japonesa. Seu cabelo balança em cima do balcão. O barman nos entrega suas invenções coloridas.
domingo, 30 de setembro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Ela estava ali, na esquina. Eu não vi. Não pude ver. A sua cintura, fininha, o vestido colado com um cinto. Ela estava indo onde? Subiu no ônibus, resoluta. Eu não vi, não quis ver. Eu estou com os olhos tampados. Apesar do sol, este sol de inverno seco com baixa umidade, apesar do sol, eu não estou bem. A minha vista anda embaçada. Os meus sonhos andam embaçados. Miopia foi o que o médico disse. Ela estava resoluta. Cabeça erguida, andar firme. Onde será que ela ia? Quer levar um minutinho meus sonhos contigo? Mas eu não vi para onde ela foi.
terça-feira, 31 de julho de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
É do lugar mais confortável que conheço. De onde falo, é daqui. É esta fresta do mundo, apenas, esta pequena fresta de luz por entre a persiana. Uma breve e gelada brisa entra pelo canto da janela, apenas a lembrar-me como o mundo está lá fora. Não confio que o mundo esteja igual, ele deve estar diferente. Porque o mundo muda muito. Num ritmo de cavalgada de quem tem absoluta pressa e jamais se cansa. Faz sol, finalmente. Não deveria ser assim, mas o céu e suas cores estão sempre a influenciar o meu humor. A estada por aqui tem sido boa, eu diria que caso este fosse o meu último dia, a única frase que eu iria pensar seria por que não curti mais, um único e simples lamento; e não mais. Muito mais do que os arrependimentos, porque estes eu já tenho todos, e já os lamento diariamente, e eles só tendem a crescer conforme cresce a minha cobrança por fazer tudo, conforme crescem as expectativas que eu mesma não consigo cumprir. Então lamentos eu os tenho. O que não tenho, e que do meu leito de morte irei dizer: deveria ter aproveitado mais. Porque sempre estará ruim de um jeito, mas seria somente atravessar a rua, ou mesmo trocar um pensamento pelo outro, para sorrir. Seria simples ter-me dito somente para relaxar seja lá qual for a realidade, porque ela sempre está de um lado solar e no seu oposto assombrada. Da fresta de realidade que me é permitido olhar, da minha caverna sem televisão e sem luz direta, com o Astor a proteger-me e latir para os trovões, eu diria que a minha solitude, o loro do quintal, as plantas mais ou menos bem cuidadas, é tudo o que a minha intimidade festeja. E que assim a minha vida siga com vista para o telhado vizinho, com suas telhas francesas bastante gastas, com as cumeeiras mal encaixadas, com o barulho da rua um tanto distante, e o quintal molhado.
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