terça-feira, 1 de maio de 2012

Um dia assim. Um dia sem. Na ausência do verbo, eu continuo sem ele. O mundo tem muitos verbos. As pessoas falam muito. São muitos os barulhos. Puxo o ar, afundo. Fico lá, azul, sem respirar. Somente enxergo as bolinhas que saem vez por outra do meu ar. É um pouco do meu ar que explode lá fora, no mundo do barulho. Aqui dentro, o ar é silêncio, o ar é um suspiro quieto, um afago delicado. Meus pulmões respiram ar aqui de casa. Eu quero somente um silêncio, no máximo dois. Um delicado compartilhar, pequeno, entre nós. O mundo é pequeno. Sou eu e o meu jardim, com suas plantas mais ou menos bonitas. Sou eu mais ou menos aqui. Um pouco menos, hoje, com vontade de ficar pequena. O meu silêncio, e uma xícara de café esfriando em cima da mesa, com um papel de sonho de valsa que comi ontem. Não tenho grandiloquência. Sou pequena no meu mundo inteiro. Assim, com o loro do jardim crescendo. Com o telhado que vejo da minha janela, sujo de poluição. Poluição que vem todos os dias, borrando a visão, engripando os escapamentos, asfaltando as delicadezas que sobram -nem sei se sobram delicadezas. Toda vez que saio o mundo faz isso. Eu tento até resistir, mas resta-me ficar pequena. Não acuada; pequena. Neste mundo de tratores que asfaltam almas, eu não quero entrar.

Um comentário:

Fanzine Episódio Cultural disse...

Lágrimas de Areia

Lá estava ela, triste e taciturna.
Testemunha de efêmeros conflitos,
Com um olhar perdido no tempo,
Não exigia nada em troca
A não ser um pouco de atenção.

Sentia-se solitária, oca,
Os homens admiravam-na pelos seus dotes.
As crianças, em sua eterna plenitude,
Admiravam-na muito mais além...
... Mais humana!

De sua profunda melancolia
Lágrimas surgiram.
Elas não umedeceram o seu rosto,
Mas secaram o seu coração,
O poço da alma,
Aumentando cada vez mais
A sua sede.

Lá ela permaneceu; estática, paralisada!
Esperando que o vento do norte a levasse
Para bem longe dali!

O dia começou a desfalecer.
Seu coração, outrora seco e vazio,
Agora pulsava em desenfreada arritmia.
Desespero!
A maré estava subindo...

Em breve voltaria a ser o que era:
Um simples grão de areia.
Quiçá um dia levado pelo vento,
Quiçá um dia... Em um porto seguro.


Do livro (O Anjo e a Tempestade) de Agamenon Troyan

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