sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

o perfume

O cheiro começava a ficar mais forte. Os médicos diziam que era amônia, ou algo do tipo, uma substância do corpo que não era processada mais. Mas eu tinha certeza que era o cheiro da morte. Algo nela estava putrefazendo por dentro e aquele era o sinal claro que o seu corpo estava deteriorando e apodrecendo. A morte lançava seu perfume e deixava no ar essa sombra fúnebre. Onipresente, saía por todos os poros e revirava nossos estômagos de angústia velada.
Nunca a deixei saber desse cheiro, mesmo que me incomodasse a sua ascensão dia a dia. Ela era vaidosa, estava sempre cheirosa e durante muito tempo dividimos o mesmo perfume - que uso até hoje.
Acredito que seja impossível não enterrar algumas lembranças. É indescritível e inominável. Não ouso entender essa lógica estranha que me protege.

cornos virados

É para lá de Bagdá que estou.
É uma espécie um regurgito estomacal que se amplia e se abre em galhos para o corpo. Até a alma está em regurgito. Acho que foi o brigadeiro com cerveja que comi ontem. Ou será que acordei com os cornos virados? Mas virginiano não tem cornos, quem tem cornos é de capricórnio e se não me engano os sagitários. Tenho uma amiga sagitário com capricórnios e sempre que ela acorda com os cornos virados passa o dia inteiro tentando desvirar. Pior ainda é a vida da tartaruga. Quando vira de cabeça para baixo não consegue mais desvirar sozinha. Há mais semelhanças entre mim e a tartaruga além da nossa habitual lentidão...

sábado, 3 de janeiro de 2009

Do zelador ao maestro

São poucas as pessoas que sabem receber. Abrir suas casas e deixar os convidados à vontade. Muitas vezes o que acontece em algumas rodas é uma espontaneidade plástica, com todos fingindo falar o que vem à cabeça mas ao mesmo tempo estão se observando e esperando uma falha de conduta. Falam o que convier à roda, uma frase previamente aprovada ou uma piada anteriormente testada. E em geral, juntam-se pessoas parecidas, da mesma classe social, para não dar atrito e não haver aquelas famosas indiretas de ricos contra pobres e vice-versa. Porque um adora tirar sarro do outro, é uma forma de vingança branca, ou seria uma invejinha bem controlada?
É raro um ambiente estar realmente misturado e despretensioso. Porque isso não depende de uma produção caprichada ou da intenção prévia e bem elaborada de misturar tribos e sim de uma disposição mais humana e filial.
De pés descalços, o anfitrião da virada do ano estava vestido com a camiseta do seu time preferido. Mas não era um torcedor qualquer, tinha seu nome inscrito nas costas. Tem o rosto facilmente reconhecido, provavelmente muitas donas de casa o abordam no supermercado para expressar sua simpatia. Olhando de longe, eram todos conhecidos e não tinham diferenças. Sua filha, admirada, diz: meu pai é um sujeito incrível. Olhe aquelas pessoas ali, de longe você faz idéia que se trata do zelador do prédio conversando com um dos maestros mais importantes do mundo? E estavam todos ali, dando risadas, fazendo piada e falando sobre qualquer-assunto. Sem nome-sobrenome, sem perguntar onde-trabalha-o-que-faz-da-vida, sem pompa e circunstância. Fomos embora com a sensação que o ano novo chega com simplicidade e delicadeza.

domingo, 28 de dezembro de 2008

amigos noturnos

É demasiada e longa a espera. Um uivo solitário e um tilintar de talheres - frestas de realidade na noite que não passa. Os fantasmas aparecem para me visitar. Mexem na cozinha, ouço o ruído de pratos batendo e risadas largas de quem desfruta algo proibido. Reforço os cobertores para me proteger. Devo ter sonhado e fico com os olhos estalados para ter certeza do que ouço. A janela reflete desenhos assimétricos nas paredes do meu quarto. Tento rezar um pai-nosso mas sempre páro no venha a nós o vosso reino, tento novamente e por vezes repito o mesmo calvário o mesmo erro a mesma lacuna mental não consigo ir adiante e chegar no amém, simplesmente emperro no reino e bloqueio o resto. Então volto como um disco quebrado que toca para um morto. Fico com medo do deslocamento e não tenho coragem de dar cinco passos do quarto para a cozinha então fecho os olhos e tento acreditar que é apenas cansaço, insônia, delírio noturno. Reforço ainda mais os cobertores, algo a mais me cobre e a figura não mostra seu rosto.

sábado, 20 de dezembro de 2008

o olho da rua

É um dia lindo de sol. É normal sair nesses dias. As pessoas gostam de ver pessoas. Onde tem mais gente é onde elas vão. Os lugares tradicionais estão cheios de famílias que chegam em carros pretos. Os valets trabalham freneticamente. As massas saem do forno lotadas de molho fumegante. Todos matam a fome no couvert. As praças têm crianças e cachorros correndo. Os amigos saem para um moment's e as esquinas brilham douradas com seus copos de cerveja.
É prateado, um fio delicado que sustenta o contentamento. As risadas alheias nauseam as tristezas compulsivas. Em horinhas de descuido, isso já foi escrito - esse estar descomprometido, alheio, inebriado é dedicado aos que não sabem o que é viver sem isso.
Os desejos mais latentes, a vida realmente está geralmente nas esquinas onde as bombas estão prestes.

entre as nuvens carregadas de chuva

É simples entender que cheguei até aqui sem mim. Nenhuma alma me acompanha desde então. Não diria que esqueci de viver. Apenas não encontrei um conjunto confortável que caiba no meu corpo. É um morimbundo que me habita. Um outro, que não está mais aqui. Tomou conta e está aqui a psicografar meus textos. Desalmado o que está decidindo os rumos desta temporada. É um homem plástico. Perdeu o meu coração e estou aqui - desfiando minha alma.
É de supor que eu deveria me rebelar. Assim como blasfemei da forma mais explícita ao xingar Deus e seus súditos no momento em que traíram minha fé. Implodi qualquer grito. Agora já está feito. Meu corpo já aprendeu a absorver a minha revolta. Sou grande amiga da raiva. Virei praticamente uma selvagem, incomunicável e incompreensível. Um deus morto me acude vez por outra quando estou dentro da minha caverna sem televisão. A minha banda favorita toca a sua música mais triste.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

amor ocre

Muita coisa se perde nessa vida. Mas algumas delas a gente até gosta de perder. Ou considera necessário. Força o afogamento para ver se aparece um isopor no final para te salvar. Ou vai até as últimas consequências e no final das contas contempla o corpo morto como um amor antigo que, sim, deveria morrer, mas de toda forma você não deixou de amar.

Um clarão anuncia que já é hora. Engulo, quase sem querer, uma gota do meu próprio sangue.

ps. Ontem li num livro que os desejos de verão se tornam sementes no inverno. Bonito isso, né? É do Truman Capote, meu herói de sempre. O primeiro livro dele, Travessia de Verão, é memorável. Gostaria eu de ter essa verve com tão pouca idade.