sábado, 4 de abril de 2009

num suspiro
o vento me leva
antigo

segunda-feira, 16 de março de 2009

é derradeira
a paisagem
noturna, solta suas asas no escuro
prateado o mar não se rebela
fluido, quase suspenso brilha suas estrelas
virgens as espumas atravessam navios

segunda-feira, 9 de março de 2009

estou sempre prestes e me dar cabo
a dar o último passo o brinde da passagem com o vinho-
-sangue
distribuo células vermelhas pelas rodovias
o abismo corta a paisagem
tonturas me pontuam
morro
sem conseguir morrer

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da verborragia súbita

Sim, eu perdi muitos amigos. É um alívio parar de lutar dentro de si para manter alguém vivo. Ouço uma canção simples e banal. Daquele tipo que meus amigos intelectuais abominariam. Mas eu não tenho mais amigos intelectuais, cults ou antenados. Eles estão todos em naufrágio, à deriva ou se tornando completamente medíocres. A minha situação não é de nada diferente. Talvez a única diferença seja que tenho um cachorro que suspira igualzinho a mim.
O fato de escrever poderia parecer uma vantagem, não levando em consideração os vermes que estão sempre a corroer minhas vísceras e me levando quase sempre a desfrutar um voo solo do décimo andar do prédio onde moro.
Para quem ficar, lembrem-se que sou medíocre, mesquinha e absolutamente mediana. Tudo o que fiz de bom foi apenas pensando no meu bem-estar e hoje em dia nem essa auto-gratificação me convence a fazer algo bom. Em silêncio, nos fins de semana ou na rotina do trabalho, casa-trabalho-hospital, não, essa parte já passou, ficou impregnada em mim o cheiro de amônia, de morfina que até no meio de um texto de um jorro de sangue uma verborragia vem essa palavra hospital como um falso delírio um penetra que rouba um pedaço de coxinha um prosecco na abertura da exposição, não, mas isso já é meu trabalho, bom, mas ao mesmo tempo, hospital, solta minhas mãos para continuar uma frase. O que eu ia dizer é que no silêncio, no silêncio era alguma coisa que acontecia, talvez eu fosse falar dos meus amigos ou das pessoas que eu perdi, mas me perdi. Talvez eu fosse dizer que não há nada mais tenebroso do que ser enterrado vivo e que depois dessa experiência, perder ou não o dessacralizado amigo, não me faz a mais fina diferença. E este não é um recado velado, algum texto-mensagem, carta de despedida, nem uma garrafa de vinho foi disperdiçada nessa vida regrada e virginiana a qual me dedico há 30 e poucos anos. Só posso ainda afirmar para desconfiarem de mim porque uma dose considerável de ficção invadiu meus pensamentos diários, formulo histórias alheias invado todas as privacidades e sou completamente despudorada quando resolvo olhar direito para alguém. Não há que ter medo, é só curiosidade. Em geral a pessoa quando percebe fica sem graça, desculpe o mau jeito, mas eu não estou julgando.
É uma tempestade, são os ratos que aparecem na rua procurando abrigo contra a água e nessa noite eu sonhei que onde eu morava pegava fogo. Começou a chover e a água me salvou das labaredas. Pelo menos não tenho mais azia. Tive muita quando era pequena. A minha cor preferida era cinza, então talvez eu fosse ainda um pouco mais mal humorada do que sou hoje. Ou talvez a azia tenha se tornado adulta e virou vertigem, ou melhor, labirintite, essa tontura existencial que me persegue e piora quando me entrego aos prazeres anti-sobriedade.
É isso por hoje, meus amigos, talvez amanhã eu tenha mais dinheiro para distribuir nos faróis, já que todas as vezes que separo 1 ou 2 reais a senhorinha enrugada que pede dinheiro vai para o outro carro e eu fico lá amassando a nota e o farol abre quando minha mão começa a feder a dinheiro velho. E aí quando não tenho nada ela vem me abençoa e me deseja um bom dia e eu fico tão sem graça também porque nunca vou poder contar dos nossos desencontros diários e também ela me abençoa e diz um zivizuziizuziivvuiiiziivizivizivi e sorri com uma dentadura igual a que minha avó usava. Acho que ela realmente se parece com minha avó, aquela que nasceu em Garanhuns e tinha a cabeça tão chata que descansávamos os copos ali.
Nada esperem de mim além disso. Distribuir dinheiro no farol é um jeito de ser do contra, já que notei que ninguém faz isso. Não é por benevolência porque eu sou deveras cruel e quero que ninguém me dê bom dia enquanto estou de óculos escuro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

É indizível. Instaurou-se um silêncio eterno. Não há palavras que definam, expliquem ou contem a história. Por isso mesmo, cansei de todas as pessoas que sofrem. Cansei de todo o sofrimento do mundo. Não sou solidária, generosa nem altruísta. Não é educado sofrer ao lado de quem tem uma cicatriz tão grande.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ela

"É a raiva e o sexo". Sentada na cadeira com as pernas cruzadas e o cigarro na mão esquerda, é assim que ela responde o que a move. Imediatamente meus olhos procuram uma visão confortante que me tire do transtorno da resposta. Encontro meu cachorro roendo um osso completamente absorto na função e ali me instalo até absorver a fala. A perturbação continua. É o olhar talvez. O silêncio. A expressão: linda, cenho tenso, o ar blasé.
Nesse contexto não sei nunca sei o que revelo e o que escondo e as mulheres são as rainhas do mistério alguém fala alguma coisa. Imediatamente meu peito bufa um ar que estava preso e lentamente vejo o meu entorno ficar cada vez mais vermelho. Pego o cigarrinho que está na roda e baforo mais alguma coisa, minhas orelhas fecham os canais e fico absorta no desenho da fumaça. Não desenrolo nenhuma idéia apenas me torno um adorno flutuante no meio da sala.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

É na desistência que recomeço. Desfaleço a cada hora que passa. Não importa se ociosa ou ocupada. Não sustento mais o choro compulsivo. Tento me distrair mas o buraco me atrai com suas ondas cheias de espuma. Resisto até onde consigo; é na solidão que me aplaco. O Astor lambe minha cara desesperadamente.


ouvindo Consequence, The Notwist