quinta-feira, 18 de junho de 2009

terra antiga

"Barcos não são mesmo feitos para ficar parados". É essa voz, uma voz que pouco conheço, mas já é quase antiga, que flutua sobre mim. É alguém que conheço; pouco conheço. Fico presa à margem - a vida - e não é presa o verbo certo, porque sim: todo dia escolho acordar. E não à toa. Na margem ouço o apito dos navios, meus mortos se foram e já quase não os deixei partir. E com os pés na terra, com a terra fico - e até quis seguir. Não fui porque ir é também me deixar partir. Logo aqui onde piso o chão me consola das fumaças que não avisto mais. Ouço as pessoas antigas, sábias e amigas; a terra quente abraça meus pés.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Não estou mais. Em lugar nenhum.

terça-feira, 16 de junho de 2009

É um colo. Um descanso ilustrado, delicado. Mãos aleatórias que cubram minha cabeça de calor. Com uma voz, um veludo que corra como um rio enquanto sonho.

domingo, 14 de junho de 2009

um domingo de outono

É a folha que desliza no ar, a sua maturidade brilha por 3 tempos. O sol bate enviasado põe a sombra em seu lugar. Os prédios são montanhas de gente. Os cachorros se cumprimentam ou rosnam, os donos sorriem e seguem adiante. Na padaria os senhores conversam com os balconistas sobre o jogo. Uma música triste toca comigo mas eu não estou triste. É para olhar o mundo bonito. É para me sentir uma folha.

sábado, 13 de junho de 2009

Dispensaria a paixão. É na perenidade que transito. Um dia a mais de suavidade e lembranças. O barulho me incomoda como se eu fosse um enfermo. Convalesço ainda. No silêncio me habita uma homenagem.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Hoje eu estava lá. Uma britadeira abria meu âmago e as fronteiras da minha consciência desvaneciam. Não foi um instante ou dois. Foi uma sequência imposta de catatonias. As cores dos meus sonhos vulgarizaram todas, tudo se abriu em destaque de escola de samba. Foi a morfina, me disseram. Não me deliciei em nada. A lua minguava, crescia, se estabanava toda para aparecer. E nada me tirava dali. Da falta primordial. Do sonho esquecido. Sem estalos, choques ou sopetões. Era a espera definitiva. E até hoje espero, e vou esperar sempre. Em todos 11 de junho eu vou esperar. Que ela acorde, linda, e diga, obrigada, filha.

sábado, 30 de maio de 2009

# sem título

É um tanto improvável que eu volte a fazer algo. Que consiga escrever algumas linhas. O maior feito até hoje, do qual me orgulho, foi ter adotado um cão sem dono. Atropelado e maltrapilho, hoje em dia o Nestor é só alegria. Levo-o todos os dias na pracinha onde encontro meus únicos amigos, os cães e seus donos. Falamos sobretudo da educação dos filhotes. E, nesse quesito, talvez esteja o meu segundo maior feito até hoje, que é saber dar remédios para ele. Ninguém tem jeito como eu. Todos na pracinha ficam boquiabertos ao saber que não tenho tática especial para dar um comprimido a ele: simplesmente enfio na sua boca, lá no fundo da língua e quando ele nem imagina já engoliu o pedacinho que vai curá-lo das verminoses que pega por aí. Não é incrível? De resto considero-me alguém apagado e desprovido de charme, sem qualquer sedução implícita nos acontecimentos cotidianos. Não tenho nada para desvelar e não guardo uma caixa de bombons importados dentro do armário. Sou apenas melancólico e tímido. Tenho pastas e mais pastas de poesias nos meus armários, já cheios de papéis. Não admiro muito as pessoas, na verdade quase não olho para elas. Sou cabisbaixo demais para isso. Admiro as paisagens humanas somente. Quadros do dia a dia: os bares com suas mesas na calçada, as senhorinhas de bengala, os trabalhadores dentro dos ônibus. Mas os homens por si, os homens com suas rugas, fazendo contas mentalmente, pensando nos capítulos de suas vidas, para esses não olho deveras. O Nestor também não faz muita festa. Sim, ele abana o rabo quando chego e me acorda todo dia bem cedo, com sua felicidade matutina. Mas eu poderia ser qualquer outra pessoa. E talvez até outra pessoa mais alegre fosse melhor para o Nestor. De modo que ele é quem sabe. E assim até que escrevi algumas linhas. Mas se não fosse o cachorrinho, provável que nem assunto tivesse.