quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Começar um texto com qual linha. Puxo diversos começos possíveis e nenhum chega a me agradar. É provável que eu esteja assim. Sem conseguir escolher por entre nada. Quase sem conseguir acordar e levantar da cama. Sorte estarmos no verão. O sol é um delírio pulsante, queima os fungos as minhas chagas as minhas vísceras expostas. A cena mais impressionante do meu pior sonho dos últimos tempos foi as minhas vísceras expostas em forma de ratos. Eles não vão comer a minha cabeça. Mas até o calor solar queimar toda a minha raiva, meus impulsos violentos, tudo o que eu escondi de mim mesma até hoje, vai demorar. Enquanto isso, não sou parte deste mundo. A sua lógica não me pertence. Não adiantaria guiar longamente por uma estrada a fim de me perder. Não há futuro. Sou eu e meu cachorro a olhar a janela. Começa com o sol, a chuva, a noite e suas luzinhas piscando. Não sou alguém a mais de mim. Na paisagem ali estão minhas entranhas. Eu nunca as tinha visto. É desgostoso não tê-las mais dentro, criou-se um buraco, um vazio amarrado no âmago.
Escrevo à mão num caderno antes de dormir, em cima da cama. O Astor raramente sobe na minha cama. Mas ontem, ele me olhou e eu entendi o seu pedido. Liberei a sua subida, ele deitou do meu lado e colocou o focinho em cima do caderno.
Não existe estrada, caminho, porque não há mais encruzilhada. Estou onde mais devo; a palavra sempre me salva do completo afogamento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

São os ratos os meus inimigos. Eu achei que fosse o Astor ou a água ou a torneira ou a caixa d´água. Mas não. Eram eles. São os atormentadores da minha alma. Depois de despertar e ver que não era o Astor nem a água, notei, perfeitamente, seus ruídos. Malditos. Eu os odeio com toda a minha força. Eles são algozes quase invisíveis. Somente quando estão já instalados que percebemos a presença deles. Eles são tudo o que tento evitar. A sujeira, a doença, a vida rasteira, todos os objetos inúteis que estão no meu porão. Objetos que não posso me desfazer porque "um dia podem ser úteis" segundo meu irmão. Não posso jogar tudo fora. E está tudo lá, atulhado no meu porão. São 11 horas e 11 minutos. Esta lógica também me persegue mas ela me lembra só coisas boas (este será outro post, dedicado a um grande amor). E não só me acordaram, como entraram sorrateiros no meu sonho. Tive o pior sonho da minha vida dos últimos tempos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

É no estupor que presencio a vida. Não tem o barulho da platéia para me distrair. Uma música de fundo toca só na minha cabeça. É vertiginoso. Não existe um ponto e vírgula para respirar um segundo ou dois a mais. Não sou muito prudente, nem eficiente. O ruído da rua é parte do sonho de que estou viva, de que a minha casa faz parte de uma cidade com um nome. Desde pequena nasci séria, as minhas rugas são de quem pensa mais do que sente. Há uma sutura invisível onde ninguém toca, e alguém já bateu nesta porta. Talvez um dia eu libere esta entrada. Talvez somente quando eu esteja na piscina no mergulho diário da minha inconsciência, ali seja o único lugar onde deixe o meu corpo não pensar. Eu penso sobre os telhados, as estantes de livros analiso cada parte que está à vista no mundo e um dia quando estou louca quando tomo as minhas cervejas, junto as imagens na minha cabeça enquanto ouço alguém falar. Sim, porque eu pouco falo e geralmente causo incômodo nos interlocutores. Em geral procuro pessoas que sejam falantes e arranjem assunto para preencherem o meu vazio verbal, a minha lacuna anti-verborrágica. Geralmente estou numa espécie de transe íntimo que não me deixa falar. O Astor saberia explicar isso melhor do que eu. Nos entendemos nas nossas pausas. Talvez eu seja um cachorro nascido de um devir gente.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

eu vento e desvio seu olhar

Vejam a página da Galeria Experiência, onde foi publicada uma poesia minha com belíssimas imagens feitas numa estrada próxima à Piedade, na madrugada de domingo. A Galeria é um coletivo que cria conteúdo em diversas mídias e tem se estabelecido no mercado com uma linguagem própria e de vanguarda. E porque eles sentem na alma o que fazem. Aos amigos criadores, fica impressa a minha admiração.

domingo, 24 de janeiro de 2010

é a tristeza, esta velha companheira. O Astor dá seu suspiro de alívio. Tomo um café com leite quente, como fazia quando meus faróis azuis ainda existiam neste mundo. Será que somos todos espíritos mesmo? Se não temos nenhuma crença o que eu faço com o sorriso de minha mãe que está todos os dias ao lado da minha cama, junto com uma caixinha de Nossa Senhora da Conceição com cartinhas, bilhetes de bom dia-bom trabalho, um guardanapo que guardei com a marca do seu baton. Essa caixinha, dada por ela, assim como todos os santinhos que me protegem. Conceição é minha protetora, foi o que ela me disse. Tudo o que mãe diz é sagrado. Quando ela dizia, vá, minha filha, não tenha medo, era a benção que precisava para seguir adiante para não me paralisar de medo do mundo, das pessoas, era uma espécie de analségico para as dores da minha alma os seus cafunés. As doenças da minha alma a sua comida as suas sopas as minhas paixões arrebatadoras sempre foram curadas ali, do seu ladinho. Vendo o carnaval pela televisão madrugada adentro.
A sua voz. Eu tive uma certeza, uma vez, quando ia entrar num ônibus para o Rio, que iria morrer. Era aquele o dia que iria acontecer a tragédia, o ônibus ia virar, cair num rio, e eu não poderia entrar ali para viajar despretensiosamente. Foi ela quem disse que eu poderia ir sem morrer.
E assim flutuo entre as imagens coloridas dos seus olhos, o seu corpo frio com os dedos cruzados, seus abraços de agradecimento, seus elogios de mãe, sua pele amarelada de UTI, suas cãimbras incuráveis; a sua foto do lado da minha cama no meu rosto mal reconheço uma certa juventude, a Sofia era um bebê no meu colo e hoje em dia ela atende o telefone e diz para a minha irmã: é a tia Paula, mamãe.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

que seja doce a manhã, meu amigo caio f. a.
doce, com cheiro de café da nossa bialetti
doce manhã com gosto
no seu edredon de patchwork
com uma música suave, que a manhã doce
perdure até a próxima

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Eu tenho uma tristeza que não acaba nunca. Eu tento, de todas as maneiras, das mais coloridas, às mais analgésicas, me disfarçar com ela. Mas o dia sempre começa triste.