Começar um texto com qual linha. Puxo diversos começos possíveis e nenhum chega a me agradar. É provável que eu esteja assim. Sem conseguir escolher por entre nada. Quase sem conseguir acordar e levantar da cama. Sorte estarmos no verão. O sol é um delírio pulsante, queima os fungos as minhas chagas as minhas vísceras expostas. A cena mais impressionante do meu pior sonho dos últimos tempos foi as minhas vísceras expostas em forma de ratos. Eles não vão comer a minha cabeça. Mas até o calor solar queimar toda a minha raiva, meus impulsos violentos, tudo o que eu escondi de mim mesma até hoje, vai demorar. Enquanto isso, não sou parte deste mundo. A sua lógica não me pertence. Não adiantaria guiar longamente por uma estrada a fim de me perder. Não há futuro. Sou eu e meu cachorro a olhar a janela. Começa com o sol, a chuva, a noite e suas luzinhas piscando. Não sou alguém a mais de mim. Na paisagem ali estão minhas entranhas. Eu nunca as tinha visto. É desgostoso não tê-las mais dentro, criou-se um buraco, um vazio amarrado no âmago.
Escrevo à mão num caderno antes de dormir, em cima da cama. O Astor raramente sobe na minha cama. Mas ontem, ele me olhou e eu entendi o seu pedido. Liberei a sua subida, ele deitou do meu lado e colocou o focinho em cima do caderno.
Não existe estrada, caminho, porque não há mais encruzilhada. Estou onde mais devo; a palavra sempre me salva do completo afogamento.
Escrevo à mão num caderno antes de dormir, em cima da cama. O Astor raramente sobe na minha cama. Mas ontem, ele me olhou e eu entendi o seu pedido. Liberei a sua subida, ele deitou do meu lado e colocou o focinho em cima do caderno.
Não existe estrada, caminho, porque não há mais encruzilhada. Estou onde mais devo; a palavra sempre me salva do completo afogamento.
