terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vamos inaugurar o ano. Com um dedinho de delírio, que sabemos, é sempre bom. Com um pouquinho de Berlim, com o meu casaco sujo de bebida no chão. Uma vodka alheia que permaneceu até ontem, quando o coloquei na máquina de lavar. Eu gosto de vestígios. De Paris o sacolejo do metrô com seus pretos, árabes e orientais e todos falam aquela língua mas ninguém é de lá e todos são de lá. De Praga, que dizer. É onde se deve fazer amor.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sim, foi quando você me ligou e eu disse que estava tudo bem. Mas menti. Eu não estava bem. Não estava. Estava na cama, com dor em tudo, com dor de ontem, com um uma sensação de derretimento. A minha cabeça meio estranha, não sabia se pensava que devia ou não ter feito o que era ou não para ter acontecido. Se no banheiro se na pista se no corredor se naquela hora que você me olhou enquanto eu fechava os olhos para dançar. Olhinhos fechados. E naqueles corredores intermináveis as paredes floresciam e você desfilava no seu corpete vermelho como uma musa antiga como se estivesse em outro país e neste momento eu não sabia mais o meu nome. Tanto faz na verdade porque em qualquer lugar do mundo as paredes vermelhas o papel de parede os candelabros as luzes baixas o banheiro a bebida. Eu prefiro não lembrar o meu nome. E talvez nem me comunicar em qualquer língua. Porque falar é por demais estranho e nunca diz o que o coração. O coração está sempre sozinho num canto entre paredes ou subindo por elas ou trancafiado ou tomando uma ducha fria fato é que ele nunca está lá. Fico sentada numa cadeira de veludo bordô pensando enquanto passam as pessoas estranham como ela pode estar sentada pensando --ela é poeta. A bailarina chegou.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Eu te diria, depois de tomar uns vinhos. Caramba, eu te diria tantas coisas. É tão soturna a minha existência. Não sei nem como tenho tantos amigos. E os amigos são como plumas. Flutuam num ar sem escapes. Muitas vezes você quer pegá-los e eles voam em outra direção. Então eu, no fundo, não tenho amigos. Porque no fundo está cada um tocando a sua vida. E todos estão certos, eu que devo tocar a minha. Mas eu não tenho vida, tenho uma casa e um cachorro. E assim minhas coisas funcionam, entre os afazeres comezinhos. Muitas vezes tenho vontade de sumir. Desaparecer mesmo. E levar o Astor. Num pasto longínquo com vinhos e plumas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A solidão é um intuito. Eu tenho saudades de alguém que já fui.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Eu tenho uma flor para te dar. Está guardada, no vaso, com água. Tem uma cor nela, somente uma. Mas é assim: eu te daria. Mais provável que não dê. Dizem que não damos aquilo que não temos. Mas eu tenho uma flor para te dar. O que talvez seja.

domingo, 30 de outubro de 2011

era um artista. era ele tocando violino nas esquinas de pinheiros. seria um tanto complicado fazer a genealogia de um poeta. o telefone não toca neste domingo a noite. a noite, não é fria, aqui dentro. ouço um novo cd comprado ali na feirinha de discos. meu avô tocava aqui pelo bairro, os taxistas da joão moura lembram dele. seu herculado descia aqui para tocar pra gente. lua sem fim na esquina da cardeal é onde eu espero os táxis quando saio a esmo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

o vinho tem uma senha. um delírio mesmo. imperscrutável. vertigem fluida quase consciente. volto a escrever! eu teria uma musa. mas eu tenho o astor.