Este é um excerto de um conto ou talvez um romance que um dia eu vá escrever. Na sequência, colocarei as continuações, apesar de estar meio, talvez, sem lógica, mas acho que vale como exercício. De toda forma, os leitores deste blog podem opinar sobre o assunto, seria de todo válido e importante.
O Ignácio tinha uma característica que muito me irritava. Ele era rico. Não tenho muito tempo pra justificar isso agora, mas o fato é que eu sempre quis ter grana. Antes de dormir ficava imaginando que no dia seguinte teria um carro novinho na garagem. Era a surpresa que eu sempre esperei que meu pai fosse fazer pra mim. Meu pai era muito conservador em matéria de negócios. Isso também me irritava. Eu queria ter alguns prazeres mais imediatos como um motorista num puta carro ir me buscar no colégio. Mas eis que chegava minha mãe numa Brasília branca e confesso que eu ficava feliz da vida de ver minha mãe, mas eu sempre queria vê-la num carro melhor. Queria ter aquela sensação que o Ignácio experimentava quando alguém da sua casa chegava num carrão e todos que estavam na rua do colégio ficavam em silêncio com grandes pontos de exclamação saltando de suas cabeças. A solução que encontrei pra ser admirado foi aprender a tocar guitarra e ser o maior fodão da fucking guitarra.
Isso me deixa meio frustrado.
Eu não conseguia fazer a guitarra chorar. Eu é que chorava, quando ainda era sensível. Mas vamos assoprar a névoa do flash-back. Senão vou ficar triste. No meio dessas linhas existem outras que eu não ponho aqui de jeito nenhum. E é nelas que está a verdade. Portanto, não me façam perguntas. Não tenho vocação pra dar entrevista.
De toda forma, eu era o Billie Jean da escola. O ritmo dos meus passos eram guiados pela música e todo mundo dizia que eu era o the one. Era assim que eu entendia os comentários. Eu era o príncipes dos canalhas. Era um pé rapado, mas quando acendia um cigarro, fazia isso com tanto charme, com tanta sacanagem implícita que eu sabia exatamente qual era a xoxota que pulsava de longe pra mim. Eu tenho uma vulgaridade comedida que faz de mim quase um intelectual. Solto umas frases decoradas no horóscopo. No meio da conversa, falo uma coisa sem sentido assim: você tem medo de se entregar porque não confia no amor.
O que é um homem sem um naco da sua perna? O corpo é uma fresta do amor. Não se vive integralmente a felicidade sem um pedaço de um corpo que, mesmo sendo completo, sofre de inexatidão, de descabimento. Senti-me a vida inteira expatriado de meu próprio corpo. Um desengonçamento sempre prevaleceu nos meus movimentos e isso gerava um certo encanto para as mulheres, que se achavam um complemento (ao menos corporal) para minhas lacunas. A minha sobrevivência sempre se deu pela falta. Tudo que não tive se tornou um monstro gigantesco e extremamente amedrontador para mim e para o mundo. Eu só devolvi minha raiva amargurada e guardada no devido quarto escondido da minha inconsciência uma única vez. E justamente nesta única vez que resolvi boxear o mundo com meu ódio contido quem estava na minha frente era o meu melhor amigo, o Ignácio.
Eu ando sempre muito cabisbaixo quando estou na rua. Não sei, mas eu tenho uma necessidade quase doentia de olhar o chão enquanto caminho. Tenho que ter a certeza de que o meu próximo passo será acolhido e que essa estrutura tão rígida e óbvia não vai desaparecer de repente. Como as pessoas conseguem andar na rua olhando para frente, como se o chão nunca fosse se movimentar? Por que elas consideram assim tão claramente que ele estará lá para segurar seu corpo do desabamento? Eu não confio mesmo. Não tem essa de horizonte. Isso eu olho quando estou parado. E mesmo assim, tenho que me apoiar porque senão desabo. Eu não sou auto-sustentável.