sexta-feira, 28 de dezembro de 2007











Alguns chamam de bênção. Outros de coincidência. Acaso. Compatibilidades. Talvez seja o ócio do período, ou o arrastão revisionista que tendemos nesta época do ano; fato é que os dias têm transcorrido até que de uma forma fluida. Mas a verdade é que minha vida nunca foi fácil. As coisas nunca aconteceram às mil maravilhas pro meu lado. Sabe um quebra-cabeças? Tenho uma amiga que adora. Este ano pra mim foi um quebra-cabeças em que as peças se quebram ao meio. Foi a quebra do quebra-cabeças.
Esse papo está parecendo o Paquistão esses tempos. Lá eles fazem o atentado do atentado. E o dominó vai rolando ladeira abaixo em direção ao colapso. Talvez eu tenha chegado à beira do colapso. Pode ser que à 12:01 de 2008 eu tenha uma visão mais lúcida do que me aconteceu. Porque eu não tive um colapso daqueles que a gente conhece por aí, com histeria ou apatia extremas, talvez eu ache que o que eu vivi não tenha sido um colapso, mas foi. Pode ser que a dor que eu senti no dia seguinte ao sepultamento de minha mãe tenha sido um colapso. Não foi uma dor normal; eu quase desfaleci com uma possível pedra que estava entalada na minha uretra. Essa dor, esse colapso, é uma representação da beira do abismo em que eu estava ao ter que enterrar minha mãe e, junto com ela, um pedaço do meu corpo.

O melhor amigo

Este é um excerto de um conto ou talvez um romance que um dia eu vá escrever. Na sequência, colocarei as continuações, apesar de estar meio, talvez, sem lógica, mas acho que vale como exercício. De toda forma, os leitores deste blog podem opinar sobre o assunto, seria de todo válido e importante.

O Ignácio tinha uma característica que muito me irritava. Ele era rico. Não tenho muito tempo pra justificar isso agora, mas o fato é que eu sempre quis ter grana. Antes de dormir ficava imaginando que no dia seguinte teria um carro novinho na garagem. Era a surpresa que eu sempre esperei que meu pai fosse fazer pra mim. Meu pai era muito conservador em matéria de negócios. Isso também me irritava. Eu queria ter alguns prazeres mais imediatos como um motorista num puta carro ir me buscar no colégio. Mas eis que chegava minha mãe numa Brasília branca e confesso que eu ficava feliz da vida de ver minha mãe, mas eu sempre queria vê-la num carro melhor. Queria ter aquela sensação que o Ignácio experimentava quando alguém da sua casa chegava num carrão e todos que estavam na rua do colégio ficavam em silêncio com grandes pontos de exclamação saltando de suas cabeças. A solução que encontrei pra ser admirado foi aprender a tocar guitarra e ser o maior fodão da fucking guitarra.

Isso me deixa meio frustrado.

Eu não conseguia fazer a guitarra chorar. Eu é que chorava, quando ainda era sensível. Mas vamos assoprar a névoa do flash-back. Senão vou ficar triste. No meio dessas linhas existem outras que eu não ponho aqui de jeito nenhum. E é nelas que está a verdade. Portanto, não me façam perguntas. Não tenho vocação pra dar entrevista.

De toda forma, eu era o Billie Jean da escola. O ritmo dos meus passos eram guiados pela música e todo mundo dizia que eu era o the one. Era assim que eu entendia os comentários. Eu era o príncipes dos canalhas. Era um pé rapado, mas quando acendia um cigarro, fazia isso com tanto charme, com tanta sacanagem implícita que eu sabia exatamente qual era a xoxota que pulsava de longe pra mim. Eu tenho uma vulgaridade comedida que faz de mim quase um intelectual. Solto umas frases decoradas no horóscopo. No meio da conversa, falo uma coisa sem sentido assim: você tem medo de se entregar porque não confia no amor.

O que é um homem sem um naco da sua perna? O corpo é uma fresta do amor. Não se vive integralmente a felicidade sem um pedaço de um corpo que, mesmo sendo completo, sofre de inexatidão, de descabimento. Senti-me a vida inteira expatriado de meu próprio corpo. Um desengonçamento sempre prevaleceu nos meus movimentos e isso gerava um certo encanto para as mulheres, que se achavam um complemento (ao menos corporal) para minhas lacunas. A minha sobrevivência sempre se deu pela falta. Tudo que não tive se tornou um monstro gigantesco e extremamente amedrontador para mim e para o mundo. Eu só devolvi minha raiva amargurada e guardada no devido quarto escondido da minha inconsciência uma única vez. E justamente nesta única vez que resolvi boxear o mundo com meu ódio contido quem estava na minha frente era o meu melhor amigo, o Ignácio.

Eu ando sempre muito cabisbaixo quando estou na rua. Não sei, mas eu tenho uma necessidade quase doentia de olhar o chão enquanto caminho. Tenho que ter a certeza de que o meu próximo passo será acolhido e que essa estrutura tão rígida e óbvia não vai desaparecer de repente. Como as pessoas conseguem andar na rua olhando para frente, como se o chão nunca fosse se movimentar? Por que elas consideram assim tão claramente que ele estará lá para segurar seu corpo do desabamento? Eu não confio mesmo. Não tem essa de horizonte. Isso eu olho quando estou parado. E mesmo assim, tenho que me apoiar porque senão desabo. Eu não sou auto-sustentável.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Do avesso

Pois a memória pode ser um bicho traiçoeiro. Em contrapartida à leveza, o meu coração já começa a pesar. Meu estômago já vai revirando e a tormenta começa a se formar. Tenho medo quando o tempo muda. O meu tempo está mudando. O verãozinho de plumas tem um vento uivando no seu pescoço.

Se eu simplesmente conseguisse esquecer, talvez de existir, talvez do que fiz, talvez da vida que vivi... mas uma cicatriz não me deixa esquecer ou mesmo suspirar quase em vão ou em paz. Um vão. Poderia existir um vão onde o tempo não mudasse, não suturasse minhas entranhas.

Minha garganta tem um grito surdo prestes a macular o mundo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Natal

Existe uma diferença entre o óbvio e o necessário. Entender isso de forma essencial muda um pouco a relação com as palavras, o mundo.
Era óbvio que ontem eu estaria triste. Quando a dor é coletiva e ainda está exposta e sangrando em todos, pra quê explicitar em choros e palavras de saudade, quando todos sabem, dentro e profundamente, que estamos lidando com uma ausência primordial? E cada data comemorativa é como atravessar um rio sem ver a margem oposta. (Você nunca pulará se puder escolher). Para ser honesta, talvez eu não tenha mergulhado. Acho que me desconcentrei demais - e flutuei. Peguei carona com uma pluma. Eu não acreditei ser uma pluma ou não busquei a leveza como uma estratégia para amenizar minha dor. Simplesmente me tornei uma, como se eu pudesse emprestar da natureza uma qualidade distante da minha (a leveza), e ela, generosamente, me levou até o outro lado da margem, com o corpo seco e limpo (sem a lama e a sujeira que minha dor revolve).
O silêncio tem uma elegância implícita. Provavelmente cada um de nós, em seus carros, camas, chuveiros, ou a caminho (como foi meu caso), na estrada, com luzes brilhando, tristes minhas lágrimas, implodindo meu peito; sim, o recolhimento também é elegante. A tristeza era óbvia, porém não necessária, era isso que eu queria dizer. Para quê torná-la necessária, inspirar compaixão, reforçar a dor? Celebrar aquela sua alegria, aqueles gestos, aquele amor - retribuí-lo, compartilhado, eternamente.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Até um pouco, daqui a pouco

Um pequeno recesso, levo-me a crer. Algo como um punhado de dias que me dê atenção que não me dou, naturalmente por excesso de tarefas. Pelo que meu espírito clama, posso acreditar que pouco durará e que em breve estarei novamente vestida e sem pijamas para pensar num bocado de mundo. Mas, para não peder um pouquinho do costume, voltarei - um pouco menos concentrada talvez, mas não com menos entusiasmo.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

molécula de chuva

O sonho chega do alto como uma nuvem carregada de chuva. Levita pesado sobre a cidade como que nos apequenando de susto. Um devir molécula de água me invade. Uma idéia de futuro me aflige. A chuva desce sobre mim e eu quase sei quem vai e quem fica. Poderia ser uma lágrima, mas é apenas chuva.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Alegria em preto e branco

Outro dia, num restaurante, tive vontade de conversar com um pai e filho que estavam almoçando. Era um domingo e eu também estava com meu pai, depois de passar a manhã num parque tomando sol e ouvindo jazz. O menino devia ter uns 16 anos, estava bem vestido, tinha um belo relógio; ele estava de frente pra mim e o pai, de costas. Ele deve ter desconfiado que eu o paquerava, mas o meu olhar não tinha essa cobiça, nuance que ele percebeu mas não deu muita bola. Tive a sensação de que alguém daquela família tinha acabado de morrer. Talvez a mãe. Existe uma maneira de se comportar que revela isso. Ninguém consegue comer com voracidade, com desejo, quando está faltando alguém na mesa. Se essa sensação ainda é latente, tudo o que você vê ao redor fica meio desinteressante, teu olhar está sempre meio baixo e incorformado, como querendo não estar naquele lugar. Eu vi naquele menino a minha própria condição, de quando a pessoa mais importante da casa não está, não senta na cabeceira da mesa e não recebe os elogios pela deliciosa comida. Não é à toa que em pleno domingo eu estava almoçando num restaurante com meu pai. Essa é uma cena recente, uma condição à qual ainda estamos nos acostumando.
Esta fotografia do Arthur Omar, chamada Dionisíaca n° 1, dialoga com essa cena presenciada por mim. Ao retirar as cores do Carnaval, o artista coloca os pés na contradição. Como o movimento dessa festa grandiosa se dá em apenas duas cores? Como transmitir alegria em P&B?