quarta-feira, 30 de abril de 2008

madrugada sonâmbula (encontro num parêntese)

Não saberia dizer como começou, a que horas ou de que forma despertei. Fato é que quando me dei conta estava na sala dizendo que deveria ligar para minha mãe. "Ela deve ter me ligado umas mil vezes", disse. Não tinha um interlocutor ou mesmo alguém que eu soubesse que me escutava. A minha preocupação era que minha mãe não sabia onde eu estava, o celular estava na bolsa e ela possivelmente me chamou muito e não conseguiu me achar. O meu desespero aumentou quando ouvi uma voz. Eu não estava em casa. No escuro, fiquei perdida por alguns minutos no limbo da minha consciência, num vazio incompreensível, um buraco negro burlesco que me levou até a cama de volta, onde deitei encolhida. "Perguntei algo de minha mãe?". "Sim", disse uma voz. Em camadas recobrei parte de mim. Ela morreu. A frase golpeou meu estômago vazio. Não tive uma convulsão de choro porque a outra parte de mim ficou lá na sala, tentando usar o telefone para ligar de volta para ela.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Sem colchões para abafar o som. A estridência chega obtusa. O absurdo injeta heroína. Mergulho vermelho no líquido benfeitor mas o padre rejeita minha causa. Ajoelho novamente. Agora imploro pela guarida. Peço um pedaço de pão da eucaristia. Minha inanição espiritual me humilha. No espaço tem um homem flutuando. A imagem me reanima. Tento voltar mas não consigo. A estafa é maior. A batina preta não me abençoa. Sim, eu já maldisse, meus brônquios explodiram em blasfêmias das mais feias. Digo pra mim: é verdade que eu posso comprar a paz. Eu vos dou a minha paz, dizem as boas línguas, mas eu vou até o fim do mundo sem fazer acordo.
Um grito monstruoso se insinua quando fecho os olhos.

A verdade é que eu não presto. Nada tenho a declarar para quem sofre, não estendo as mãos para quem necessita. Não estou interessada nos problemas alheios. Um surto me tiraria da insensibilidade. Mas eu jamais terei um surto. Jamais quebrarei o decoro. Não vou de encontro a um abraço. Se um dia ouvir uma declaração de amor de um morimbundo, virarei a esquina com a face absolutamente estável. Meus músculos pouco reagem. Nem uma luta de boxe estimularia minha carcaça.
Não tenho pudores em dizer acabei de morrer ou matar: pouco faço para impressionar quem sobrou. Sopro barbaridades nos ouvidos sobretudo dos felizes, derrubo quaisquer ânimos. Sou um distúrbio precoce. Pulso efemeridades pontiagudas. Energia atômica sigo a poluir rios esperanças infâncias. De joelhos peço: não me ouça.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

é preciso certa pureza
um espírito desprovido de mágoas e chutes na contramão
alguém que não tenha presenciado tragédias e nem tenha um rasgo no meio do peito (que dói quando esfria, quando chove, quando muda o tempo)
um breve relato de um ato singelo
os balões que retornem o padre - pobre coitado voou para a morte
para onde estamos todos sempre
a minha rota de colisão me deixa mais egoísta porque eu sei eu tenho certeza que a minha batida será irreversível
agora, me diga, quem tem pureza n´alma pode falar comigo um segundinho?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

embaixo da pele uma luva de pelica
epiderme afaga o mundo com doçura
um poeta precisa
de cafuné


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Hunther Thompson e a arte da vertigem


Tenho me especializado na arte da vertigem. Uma vez fui comprar abobrinha no sacolão e saí com uma garrafa de tequila dentro do saco plástico. Tinha certeza que a compra estava certa até verter o último gole da mexicana. Fiquei com uma saudade ancestral de comer abobrinha cozida com alho e cebola. Engatei uma labirintite ferrada que durou dois dias acabei fazendo jejum porque meu corpo estirado na cama era de doer o coração de qualquer mãe. Mas minha mãezinha não está mais presente então fiquei lá dois dias rodando. Na minha cabeça eu fazia vários movimentos, ia pra direita ia pra esquerda, chegava quase a pegar o telefone, mas meus lençóis juram que fiquei completamente imóvel. Virei um móvel, imóvel. Não deu nem pra pedir um delivery, estava em meu próprio delivery pedindo pras células voltarem a respirar e bradar um pouco de vida na minha circulação. Ai de mim!
Nesse meio tempo lembrei do Johnny Depp interpretando o Hunther Thompson em Medo e Delírio em Las Vegas. Senti-me o próprio Thompson, sem a vantagem de escrever enquanto durava a minha loucura. Ele obviamente era mais profissional, tomava tudo e todas e ainda sentava pra contar tudo ENQUANTO acontecia. Eu não. Sou muito reminiscente. Volto a todos os passados como se fossem hoje. Refaço trajetos, reanimo almas quase mortas e me dou um peteleco toda vez que não fiz algo que realmente queria. O Hunther Thompson não devia passar vontade das coisas. Eu passo. Quando estou muito a fim de fazer uma coisa, não faço. Pelo simples prazer de prolongar ad eternum a vontade. É o mesmo que sair pra comprar abobrinha e voltar com a tequila. Eu tenho uma intenção mas escolho um superlativo, por assim dizer. Algo que transcenda a própria intenção. Uma fuga eterna de mim.

domingo, 6 de abril de 2008

Paula? Que Paula?

É a primeira pergunta que ouço ao tocar o interfone. O boteco embaixo do prédio já abastece a subida, as escadas que endurescem o bumbum da dona da casa todos os dias cansam nossas pernas e já subo com sangue nas ventas. Como assim que Paula? As plumas as mulheres maquiadas de sainhas curtas e botas compridas tudo arranjado para o capeta' s in my body se tornar meu deus.
Quando apenas um Lorax não dá conta de preencher o vazio infinito, então é hora de começar a recorrer ao rock and roll.
Um pozinho pra acordar o espírito, depois um cigarrinho pra acalmar, e nesse ritmo descemos a ladeira à torto e à direita. As pessoas não conversam ou conversam demais ou estão totalmente fora de si. Pois a que falava demais foi trancada no banheiro e a esqueceram até quase o dia seguinte. E ela também só percebeu no dia seguinte, quando o assunto sobre Bob Dylan terminou. Ma quanto parla!
Carvão em brasas os beijos na boca se tornam rodamoinhos em direção ao buraco primordial do universo. Nada ninguém fala nada para não desencantar. Só há a dança do universo todo compacto na pista todos unidos com massa corrida ultravioleta. Agora só falta aparecer a Amy e dar uma palhinha na festa insana. Chega o diller pra distribuir alegrias me apresento já com a tequila encharcando minhas células. Levo uma fábula assopro meu dinheiro como se comprasse à vista um terço do meu cérebro frito no dia seguinte.
E no dia seguinte com as células virginianas querendo desesperadamente voltar ao normal (a rotininha, meu deus!), a amiga me pergunta: Você estará orfã amanhã?
É sobre o domingo que se refere, o dia internacional da depressão - vou encher a cara sozinha numa cantina italiana.