domingo, 20 de julho de 2008

Foi pela jugular que me deram morfina. Eu sentia um cheiro forte e tinha enjôos. E aí me davam uma espécie de outro remédio. Passava o enjôo mas eu não podia tossir. Também não pude chorar quando me ligaram do hospital. O corte grande perto das minhas costelas limitava meus pulmões. Depois de dez minutos ou mais não sei perdi a noção do tempo que meu irmão disse "só um milagre a salvará" voltei a ouvir o barulho da minha sobrinha brincando. Foi um silêncio tão profundo dos três irmãos, os três irmãos que dariam a vida para salvá-la e deram tudo foram até o limite pra devolvê-la ao mundo e não conseguiram. Se eu estivesse vendo a cena do outro lado da tela teria ficado com um travo na boca, teria náuseas e choraria como se a dor fosse minha, como se a mãe fosse minha. E era.

sábado, 19 de julho de 2008

Mato

Amanheço riacho. Corro rocha abaixo e encontro meus pés. Os fios de cabelo tornam-se cascata jorram pensamentos desviam das pedrinhas prateadas. As pedrinhas, elas também ficam douradas. A pinguinha esquenta encharca as células - sim, eu estava esbranquiçada e pálida e cheia de agruras - mas as pedrinhas a pinguinha um novo ar me renovaram o espírito.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Oceano faminto (de distância)

Continuo existindo em algum lugar. Numa rotina parca e cheia de vazios, num vencimento de datas e precisões estouro todas as minhas validades. Nada me sobra senão meus músculos e já são o bastante para estar de pé. De resto minhas olheiras denunciam meu torpor. Não durmo mais e meu sono é um transbordamento de uma psique torpe. Quero, gostaria, de me ter. Não sou mais a mesma mas ainda não me tornei. Outra, quem será que me encontrará no fim da linha? Amanhã de tarde, talvez? Não no gramadinho lá de casa, porque lá o local é sagrado. Penso sempre e tanto em quem está longe, meus amigos que se foram. Todos que se foram me deixaram em branco. Tento desenhar em cima mas a casa está vazia. Despistarei os fantasmas para quando meus amigos chegarem. Não há conversa que sustente a minha falta de conexão. Os fantasmas estão tomando conta dos meus buracos. Eles são gentis, tentam se moldar ao espaço e me lembram de escovar os dentes.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Je m´apelle

Se há um inferno, é este. O meu nome. Cansei de mim. Trocar de nome seria uma boa alternativa de me manter um pouco em pé, um pouco de bom-dia no espelho - deixei de dar desde que morri. Manhãs soturnas são meu nome. Prazer, Manhã Soturna. Seria non sense, mas é assim que falaria. "Meu cordial, boa noite. M.S.". E deste modo assinaria no final das cartas pros meus amigos. E deste modo seria minha marca pelo mundo, deixando sempre os outros com cara de náufrago ao emitir o meu nome.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

no terraço

Uma amarração fortuita poderia me fazer jogar do décimo andar. Devo resistir à tentação de dar o derradeiro passo, penso nas pessoas que dizem me amar. Coitados seriam de me enxergar com a cara amassada do asfalto. A minha morte deveria ser mais amena do que essa, mais respeitosa, digamos. Não comigo. Com os que ficam, obviamente. Porque são eles os que restarão encantados. E passa um vento nas minhas costas, assusta-me. Enquanto não termina a música no ipod devaneio sobre minha própria morte, que poderia acontecer daqui a pouco?

Já não aconteceria mais da forma como imaginei. Nessa cidade ninguém perde dez minutos olhando um corpo no chão. Eu não seria como um Hemingway - a minha morte não seria literária. Eu não teria recompensa, não teria obra póstuma, nem retrospectiva.

Passo ao largo do rio. Balançam as árvores, gosto do tom de verde das folhas, elas tremem e minha visão embaça. Desfoco o olhar.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ao meu amigo Caio F. A.

Eu não falaria outra língua se você me entendesse. Eu não me mudaria de cidade se você me abrigasse. Se da forma que bati em tua porta você não atendeu, que macacadas eu devo fazer pra te encharcar de mim? Não basta roubar seus beijos e arrancar todos os drinks da sua mão, uma vez, duas vezes te levar pro meu quarto e não te derrubar na cama – é sempre um quase, meu caro Caio Fernando – sempre passamos do ponto e a porta não abre de jeito nenhum. Eu não me suporto. Te roubaria de ti pra nunca mais ter de me olhar no espelho e ver a figura esquálida que me tornei. Minha magreza é tanta que me alimento de amendoins à noite, na solidão da minha casa sem TV. Coca light e amendoin. Ouço um rockzinho do Pete Yorn, um mp3 que ganhei de um amigo antigo. Amigos antigos. Quem são eles. Ora, ora, Caio Fernando, acabo de abrir um livro seu e você já é meu amigo antigo. O mais antigo de todos. Tomaria todos os porres do mundo com você, bateria na sua porta feito uma louca e roubaria beijos lésbicos da sua boca bicha. O mundo nos engana, não confio em placas de trânsito nem em decisões tardias.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

vertigens noturnas

"Liga pra polícia. Tem gente entrando pela janela da cozinha!".
Meus movimentos eram lentos e acordavam conforme eu ouvia o som da descarga no banheiro. Tudo normal. Ela volta de um xixi noturno. Devo estar paranóica. Quem estaria me seguindo? Crianças morrendo no meu sonho, duas ao mesmo tempo. Mistério na cidade, quem teria assassinado duas crianças juntas? Vou ligar pra minha irmã caso a polícia não atenda. Não, não precisa. O barulho é da descarga do banheiro. Meu corpo tem movimentos involuntários na cama. Dou saltos e minhas vísceras pulam pra fora da cicatriz. Vejo as entranhas pra fora do meu corpo: "FORAM ELAS", grita a avô das crianças! "Foram elas que mataram minhas netinhas"!