Estou tentando não ser um eco burro. É tão pungente que o eco ressoa quinquilharias, móveis usados e eu não quero mais cuidar de ninguém. Já dei minha cota de doação exasperada. Fiz o meu dever na carne e ela saiu suspensa (louvada seja!) e voltou para a terra. Eu me putrefiz ao me enterrar uma parte. E subir aos céus não é bem uma prática fácil para quem tem o peso como medida. Então fico aqui, tentando manter uma rotina com o meu cachorro. Ele fica carente quando não apareço. É ao mesmo tempo gostoso e insuportável saber quem tem algo que depende de você. E daí ele fica com a empregada e eu fico com ciúme. Ciúme do meu próprio cachorro. Só posso ser bestinha. Mas eu fico. E daí tento manter uma rotina com ele. Então é ele quem está me educando, ou melhor, adestrando meu ímpeto de nunca ser.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Luminosa manhã
É inigualável a sua presença. Nenhum divã, com sua suntuosidade, me daria tanto tremor do que ela. É quando ela desponta com seus cabelos dourados e prateados que minha espinha trinca. Uma vez, no hospital, tomada de morfina, tive uma visão. Ela ia me visitar. Começava a cantar. Fui com ela até a UTI e tirei minha mãe do torpor. É de Bethânia que falo. Foi um anjo por uma noite no meu delírio desesperado de salvar minha mãe. E é ela quem invoco novamente para atravessar o dia. Hoje seria (ou é?) aniversário de quem com tanto amor me gerou e com tanto amor me deixou.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
numa tarde sutil olhando as árvores...
...esqueci de me lembrar de você. E depois que lembrei, me dei conta de quanto já tinha mudado, o quanto da minha vida não poderia mais compartilhar com você. E como mudei. Mudei tanto que não teria meios de te contar todos os detalhes dos acontecimentos, de forma a alimentar o seu imaginário de todas as fantasias, os desvios, as lacunas que eu tenho vivido. Quantos foram os domingos que mexi meus dedos em cima da mesa com uma dúvida absorta do que fazer. A surpresa acabou aparecendo e fui me deixando levar por fluxos de pessoas, trajetos, livros, delírios tão outros que me foram levando embora. Como um sofá que boia no esgoto e desemboca num rio onde é descoberto por um colecionador de sofás esgotados. Tomo champagne sozinha e brindo a mim mesma. Como uma reza um mantra uma meditação faço mesmo que seja num domingo sozinha com o meu cachorro um momento grandiloquente. Esboço minhas tristezas em desenhos na água quente da minha banheira vermelha que se tornam brumas neblinas vapor que embaçam o espelho. Nele escrevo uma poesia efêmera. Tudo o quanto já tenha sido - de intenso de ríspido de sobras - um trator amigo carregou junto com o lixo reciclável da rua. Tenho ainda tudo a perder - tudo o quanto há de novo - mas nada mais a temer.
domingo, 16 de novembro de 2008
N'outro domingo
Descubro, aos poucos, novas versões de mim. Talvez alguém menos cortante, um pouco mais veludosa me habite. É nova, a habitante, pouco desdenhosa, porém um pouco mais aconhegante.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
domingo, 2 de novembro de 2008
Outro domingo
É preciso distanciamento. Uma vez mais um domingo é hoje. É preciso que passe. Não adianta tomar sorvete. É o dia da lacuna e do silêncio. Olho o telefone algumas vezes pensando que posso ligar para alguém. Sempre me engano e quase disco um número que não existe mais. Não tem macarronada feita com molho de tomate fresco.
Nem a paisagem, nem as árvores balançando, nem o barulho de crianças brincando na praça. Passo o dia como um refugiado, com vontade de voltar para casa, mas sem casa para voltar.
Nem a paisagem, nem as árvores balançando, nem o barulho de crianças brincando na praça. Passo o dia como um refugiado, com vontade de voltar para casa, mas sem casa para voltar.
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