É no estupor que presencio a vida. Não tem o barulho da platéia para me distrair. Uma música de fundo toca só na minha cabeça. É vertiginoso. Não existe um ponto e vírgula para respirar um segundo ou dois a mais. Não sou muito prudente, nem eficiente. O ruído da rua é parte do sonho de que estou viva, de que a minha casa faz parte de uma cidade com um nome. Desde pequena nasci séria, as minhas rugas são de quem pensa mais do que sente. Há uma sutura invisível onde ninguém toca, e alguém já bateu nesta porta. Talvez um dia eu libere esta entrada. Talvez somente quando eu esteja na piscina no mergulho diário da minha inconsciência, ali seja o único lugar onde deixe o meu corpo não pensar. Eu penso sobre os telhados, as estantes de livros analiso cada parte que está à vista no mundo e um dia quando estou louca quando tomo as minhas cervejas, junto as imagens na minha cabeça enquanto ouço alguém falar. Sim, porque eu pouco falo e geralmente causo incômodo nos interlocutores. Em geral procuro pessoas que sejam falantes e arranjem assunto para preencherem o meu vazio verbal, a minha lacuna anti-verborrágica. Geralmente estou numa espécie de transe íntimo que não me deixa falar. O Astor saberia explicar isso melhor do que eu. Nos entendemos nas nossas pausas. Talvez eu seja um cachorro nascido de um devir gente.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
eu vento e desvio seu olhar
Vejam a página da Galeria Experiência, onde foi publicada uma poesia minha com belíssimas imagens feitas numa estrada próxima à Piedade, na madrugada de domingo. A Galeria é um coletivo que cria conteúdo em diversas mídias e tem se estabelecido no mercado com uma linguagem própria e de vanguarda. E porque eles sentem na alma o que fazem. Aos amigos criadores, fica impressa a minha admiração.
domingo, 24 de janeiro de 2010
é a tristeza, esta velha companheira. O Astor dá seu suspiro de alívio. Tomo um café com leite quente, como fazia quando meus faróis azuis ainda existiam neste mundo. Será que somos todos espíritos mesmo? Se não temos nenhuma crença o que eu faço com o sorriso de minha mãe que está todos os dias ao lado da minha cama, junto com uma caixinha de Nossa Senhora da Conceição com cartinhas, bilhetes de bom dia-bom trabalho, um guardanapo que guardei com a marca do seu baton. Essa caixinha, dada por ela, assim como todos os santinhos que me protegem. Conceição é minha protetora, foi o que ela me disse. Tudo o que mãe diz é sagrado. Quando ela dizia, vá, minha filha, não tenha medo, era a benção que precisava para seguir adiante para não me paralisar de medo do mundo, das pessoas, era uma espécie de analségico para as dores da minha alma os seus cafunés. As doenças da minha alma a sua comida as suas sopas as minhas paixões arrebatadoras sempre foram curadas ali, do seu ladinho. Vendo o carnaval pela televisão madrugada adentro.
A sua voz. Eu tive uma certeza, uma vez, quando ia entrar num ônibus para o Rio, que iria morrer. Era aquele o dia que iria acontecer a tragédia, o ônibus ia virar, cair num rio, e eu não poderia entrar ali para viajar despretensiosamente. Foi ela quem disse que eu poderia ir sem morrer.
E assim flutuo entre as imagens coloridas dos seus olhos, o seu corpo frio com os dedos cruzados, seus abraços de agradecimento, seus elogios de mãe, sua pele amarelada de UTI, suas cãimbras incuráveis; a sua foto do lado da minha cama no meu rosto mal reconheço uma certa juventude, a Sofia era um bebê no meu colo e hoje em dia ela atende o telefone e diz para a minha irmã: é a tia Paula, mamãe.
A sua voz. Eu tive uma certeza, uma vez, quando ia entrar num ônibus para o Rio, que iria morrer. Era aquele o dia que iria acontecer a tragédia, o ônibus ia virar, cair num rio, e eu não poderia entrar ali para viajar despretensiosamente. Foi ela quem disse que eu poderia ir sem morrer.
E assim flutuo entre as imagens coloridas dos seus olhos, o seu corpo frio com os dedos cruzados, seus abraços de agradecimento, seus elogios de mãe, sua pele amarelada de UTI, suas cãimbras incuráveis; a sua foto do lado da minha cama no meu rosto mal reconheço uma certa juventude, a Sofia era um bebê no meu colo e hoje em dia ela atende o telefone e diz para a minha irmã: é a tia Paula, mamãe.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
que me salvasse da minha própria morte. eu sou a denúncia do meu próprio fracasso. a cicatriz não suturada, a música póstuma, a mentira pública. esqueçam-me. nada me resta. dei o último mergulho. e ele só foi bom enquanto senti o ímpeto. e agora vem a tempestade. com pedras restos de árvores pontiagudas. estou toda machucada.
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