domingo, 27 de janeiro de 2008

os deuses tristes da morte

Já fomos mais felizes. Reinávamos num espaço onde a natureza era certa e a comida farta. O sonho de nos vermos velhinhos e saudáveis, de mãos dadas por aí, vestindo roupas antigas e de qualidade, com as crianças seguras em suas casas. O início é sempre belo e pleno. Mas estamos nas nossas vitrines de vidro. Um arremesso errado, um ângulo torto do vento e levamos a tempestade direto na cara, que suja nossa roupa recém-comprada, e joga granizo na pele.
Habitávamos lugares confortáveis. Sorríamos demais em todas as festividades. Nem sequer pensávamos que haveria um fim. Éramos inesgotáveis, como são todos os seres humanos, enquanto duram. Mas o corpo é perecível e tem durabilidade. Isso não quer dizer que dure o tempo necessário... quer dizer que daqui a pouco ele irá embora. E nunca será o suficiente, nunca teremos abraçado tanto e nem amado tanto.
Eu não encarei o sepultamento. Olhei para o chão, derrotada. Sairia gritando, teria convulsões, se tivesse saúde. Quando a perplexidade e a tristeza são muito grandes, ficamos em silêncio. Não dá pra gritar. Falta espaço, vontade, coragem, voz. Não há necessidade, ninguém irá ouvir. Ou melhor, todos irão escutar, menos aquela para quem você grita. O silêncio é a melhor forma de resguardar um pouco de dignidade. Mesmo porque a minha tristeza durará a vida inteira. Chorarei até dar meu último suspiro.
Dei minha vida, meu sangue. Daria tudo novamente. Joguei-me no abismo da morte. Sobrou pouco. Sobrou o amor, eterno, mas isso ainda é pouco. Sobraram minhas células, que aos poucos se restabeleceram e me deram a chance de sentir raiva - um ódio suficiente para xingar a Deus com toda a minha visceralidade. Sobrou um corpo forte, capaz de aguentar muitos trancos. Mas isso é pouco. Nada é suficiente e nunca será. Sobrou todo mundo que muito me amou, e isso é quase tudo.
O meu olhar é perecível e se despede de tudo em todos os momentos. Olho com atenção as veias pulsando de quem amo para ter certeza de que estão ali.

3 comentários:

Anônimo disse...

Paula,

(Para você e para nós, que aqui somos seus leitores)

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WHO WANTS TO LIVE FOREVER (tradução)

Quem quer viver para sempre

Não há tempo para nós
Não há lugar para nós
O que é essa coisa que constrói nossos sonhos
E vai para longe de nós?

Quem quer viver para sempre?
Quem quer viver para sempre?

Não há chance para nós
É tudo decidido por nós
Esse mundo tem somente um momento doce
Deixado de lado para nós

Quem quer viver para sempre?
Quem quer viver para sempre?

Quem ousa amar para sempre?
Quando o amor dever morrer

Oh! Toque minhas lágrimas com seus lábios
Toque meu mundo com a ponta de seus dedos
E nós poderemos ter para sempre
E nós poderemos amar para sempre
O sempre é o nosso hoje

Quem quer viver para sempre?
Quem quer viver para sempre?
O sempre é o nosso hoje
De qualquer jeito, quem espera para sempre?

Anônimo disse...

Paula

Você nos dá a liberdade de te ler, comentar e também te linkar a outras paradas. Por isso, aproveitando o que você diz em teu post, aqui vai um poema. Ele fala da saudade. Esse bichinho agridoce que nunca nos larga. Só se refina.

Sempre branco
Jorge Cooper

O amor de todo homem
é sempre branco
- Nunca como o figura
certa flor
Por mais doída que seja a saudade
é ela sempre azul
- (Azul como é toda distância)
Nunca roxa
lilás
ou mesmo branca
- Como sói figurá-la
aquela flor

Anônimo disse...

Aurora refere-se à claridade rósea que cobre o céu antes do nascer do sol. Esperança e confiança.

Maria quer dizer aquela que ama o mar. Contemplação e plenitude.

Sei que vou morrer, não sei o dia. Levarei saudades da Maria.

Sei que vou morrer, não sei a hora. Levarei saudades da Aurora.