sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ao meu amigo Caio F. A.

Eu não falaria outra língua se você me entendesse. Eu não me mudaria de cidade se você me abrigasse. Se da forma que bati em tua porta você não atendeu, que macacadas eu devo fazer pra te encharcar de mim? Não basta roubar seus beijos e arrancar todos os drinks da sua mão, uma vez, duas vezes te levar pro meu quarto e não te derrubar na cama – é sempre um quase, meu caro Caio Fernando – sempre passamos do ponto e a porta não abre de jeito nenhum. Eu não me suporto. Te roubaria de ti pra nunca mais ter de me olhar no espelho e ver a figura esquálida que me tornei. Minha magreza é tanta que me alimento de amendoins à noite, na solidão da minha casa sem TV. Coca light e amendoin. Ouço um rockzinho do Pete Yorn, um mp3 que ganhei de um amigo antigo. Amigos antigos. Quem são eles. Ora, ora, Caio Fernando, acabo de abrir um livro seu e você já é meu amigo antigo. O mais antigo de todos. Tomaria todos os porres do mundo com você, bateria na sua porta feito uma louca e roubaria beijos lésbicos da sua boca bicha. O mundo nos engana, não confio em placas de trânsito nem em decisões tardias.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

vertigens noturnas

"Liga pra polícia. Tem gente entrando pela janela da cozinha!".
Meus movimentos eram lentos e acordavam conforme eu ouvia o som da descarga no banheiro. Tudo normal. Ela volta de um xixi noturno. Devo estar paranóica. Quem estaria me seguindo? Crianças morrendo no meu sonho, duas ao mesmo tempo. Mistério na cidade, quem teria assassinado duas crianças juntas? Vou ligar pra minha irmã caso a polícia não atenda. Não, não precisa. O barulho é da descarga do banheiro. Meu corpo tem movimentos involuntários na cama. Dou saltos e minhas vísceras pulam pra fora da cicatriz. Vejo as entranhas pra fora do meu corpo: "FORAM ELAS", grita a avô das crianças! "Foram elas que mataram minhas netinhas"!

terça-feira, 24 de junho de 2008

sobre o esgarçamento (nosso)

esgarçar quer dizer desfiar-se
(desfiar-me + desfiar-te)
que fosse de tudo se não houvesse
- e acabam virando bodes expiatórios -
rasgam (quebram, engolem) seus instrumentos (e sopram música para um mundo atônito)
beiram o abismo sem medo de uma lufada de vento
e antes do mergulho sorriem inefáveis
(pq últimas consequências necessariamente são as últimas, será que ainda não há mais consequências antes da última?)

lá vou eu, de novo.

9:46

Um detalhe do cotidiano. A quantidade de músicas que passam ao percorrer um caminho determinado de casa para o trabalho. Agora ando a pé.
Quem ouve as músicas no repeat sabe do que estou falando. Tem gente que conta a quantidade de escovadas no cabelo, outros contam os passos do banheiro pra cozinha do quarto pra varanda, mas eu não escovo o cabelo, por isso vivo descabelada. Mas eu conto as músicas. São duas e meia, uma lá do U2, pra ir do trabalho pra casa. Claro que se for do Ramones serão umas quatro (quatro acordes, 2 minutos). Farei os testes: Sigur Rós por exemplo já não deve dar.
Tenho que me ocupar com tudo o que há de variações, de distrações, não consigo mais ficar em silêncio. O barulho é agora o meu grande companheiro. Baixo Augusta, gente louca, fumaça - isso é meu paraíso. Contar músicas me salva do mais absoluto desespero.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

sobre a amizade

Tenho andado sem criatividade, ou melhor, tenho visto o mundo com o maior dos olhos literários, com trilha sonora e tudo, mas não estou conseguindo sentar e escrever. Muitas coisas acontecendo, amigos indo embora, mudança de casa, ando meio impotente criativamente, apesar das emoções estarem deveras intensas. Mas encontrei um texto antigo que escrevi sobre a amizade, e acho que representa um pouco do momento que vivo. Gostaria de poder escrever sobre meus amigos mas nunca consigo. Esse texto é uma parcelinha do oceano faminto que me liga e desliga deles.


sabe que depois que você segurou meu braço na porta daquela discoteca as coisas desandaram um desabamento em cadeia um dominó desenfreado desceu ladeira abaixo sem preguiça na ladeira tipo aquelas de perdizes me perdi solamente de tudo o que poderia um dia me segurar e fui de cabeça pra baixo com os braços estendidos e os olhos espremidos pra dentro de medo do mergulho no escuro determinado em não me segurar em nenhum corrimão em nenhuma mão solidária o meu movimento não tinha calma e sofria de ansiedade pela descida no meu carrinho de rolimã que ia de encontro à curiosidade de conhecer cada detalhe seu

terça-feira, 3 de junho de 2008

O último anúncio

É hora de ir. Hora de se despedir. Desligar os aparelhos e olhar para o céu. Espantar-se com o barulho apartado do mundo. Olhar para a pele amarelada e anestesiar-se diante do sofrimento. É hora de partir. O tempo esvaiu. O barulho parou, a sonda secou. Grito estancado no tempo. O ventre sujo do mundo agora me abrigará (aonde?). Não a reconheço mais, ela não é mais, não está mais ali. A visita acabou. "Ligaram do hospital".

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A minha champagne supernova

Tem alguém querendo arrancar minha alma. Poxa vida. Como é que faz quando chega um espírito, uma entidade, uma força que quer te arrancar de você enquanto dorme? Acho que é tipo um Voldemort. Bom, daí eu gostaria de ter uma coruja...
É duro voltar. É duro resistir. Acho que é um tipo de coisa que invade o seu pensamento. Esses caras devem ter uns eletrodos umas máquinas superpoderosas que entram quimicamente na sua cabeça e ficam te puxando pra cima, pra fora de você. Sai daqui! Xô, maldição! Num quero saber dessa porcaria. Bando de porcarias, entidades porcarias, gente porcaria que tem nesse mundo! Gente feia, apagada! Mundo-apagão! E não é só a classe média não, é quase todo mundo com essa cara de pastel, com a caradecu passeando com a família de domingo.
Tô meio revirada mesmo. Vai ver é por isso os demos tão aparecendo.