terça-feira, 1 de maio de 2012
Um dia assim. Um dia sem. Na ausência do verbo, eu continuo sem ele. O mundo tem muitos verbos. As pessoas falam muito. São muitos os barulhos. Puxo o ar, afundo. Fico lá, azul, sem respirar. Somente enxergo as bolinhas que saem vez por outra do meu ar. É um pouco do meu ar que explode lá fora, no mundo do barulho. Aqui dentro, o ar é silêncio, o ar é um suspiro quieto, um afago delicado. Meus pulmões respiram ar aqui de casa. Eu quero somente um silêncio, no máximo dois. Um delicado compartilhar, pequeno, entre nós. O mundo é pequeno. Sou eu e o meu jardim, com suas plantas mais ou menos bonitas. Sou eu mais ou menos aqui. Um pouco menos, hoje, com vontade de ficar pequena. O meu silêncio, e uma xícara de café esfriando em cima da mesa, com um papel de sonho de valsa que comi ontem. Não tenho grandiloquência. Sou pequena no meu mundo inteiro. Assim, com o loro do jardim crescendo. Com o telhado que vejo da minha janela, sujo de poluição. Poluição que vem todos os dias, borrando a visão, engripando os escapamentos, asfaltando as delicadezas que sobram -nem sei se sobram delicadezas. Toda vez que saio o mundo faz isso. Eu tento até resistir, mas resta-me ficar pequena. Não acuada; pequena. Neste mundo de tratores que asfaltam almas, eu não quero entrar.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
sexta-feira, 13 de abril de 2012
É entrelaçado, o verbo. Verbo entrelaçado. A sua mão entrelaçada. Tanto pequeno como pode ser grandiloquente, o seu carinho. A tudo envolve, o abraço o seu jeito de abraçar até sobre o asfalto até sobre as pedras eu deslizo. Das palavras o verbo. Entrelaço com você a palavra o emaranhado aperto a borda do colchão grito abafado fecho os olhos comigo dentro, com você emaranhada no meu delírio.
sábado, 7 de abril de 2012
Ela dá uma passadinha aqui em casa. Sábado a noite. De preto, mal intencionada. Vamo aí. Dá um oi para o Astor, toma uma cerveja. Toca a campainha sem avisar. Vamo aí. Não sabe bem onde. Passou a tarde lá no Lollapalooza. Foi pra Paulista, depois pro Biu. Toma uma cervejinha em casa. Coloco The Full On The Hill para escrever o texto. É tão a cara dela. Vamo aí, vai. Vou tirar a calça xadrez de dormir.
para a Amanda
quarta-feira, 21 de março de 2012
Atravessa. Inaugura. Invade. É a voz, mas também podem ser as palavras. Ou a língua. Não diria nada privado. Mas o amor atravessa. Inaugura, invade. Derrete. Uma combustão, duas combustões. Sem ar. Pinga. Embriaga. Encharca. Incha. Perfura a parede. Pendura quadros com borrões. Sou um delírio e sua boca perfura e desobedece meus sentidos. Eu desobedeço meus sentidos. Eu não tenho sentidos. Formigam vertigens, mãos na parede. Sua boca jorra sentidos.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Eu tenho uma espécie de medo do mundo. Um medo irracional, ilógico, ancestral. Não chega a me paralisar mas invade por um ou mais segundos e me faz pensar de um jeito estranho. A cidade não é suficiente para aplacar minha angústia. Pelo contrário. Quando saio, me sinto ainda pior. As ruas vociferam e atropelam tudo quanto. Os carros passam rápido e me deixam em vertigem. A minha labirintite ataca. Selvagem, deito no chão, e fecho os olhos.
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